A IA pode dizer tudo sobre tudo mas não é capaz de sentir nada sobre tudo o que diz
Por: José Geraldo de Sousa Junior (*) – Jornal Brasil Popular/DF

No número 99 da encíclica Magnifica Humanitas, lançada em 25 de maio, mas assinada em 15 de maio, mesma data que, em 1891, Leão XIII lançou a Rerum Novarum, o Papa Leão XIV estabelece uma posição de princípio que deveria nos tocar, os que nos valemos desse instrumento de apoio técnico: “Ainda que esses instrumentos sejam apresentados como capazes de “aprender”, a sua forma de o fazer é diferente da do ser humano. Não se trata da experiência de quem se deixa moldar pela vida e cresce ao longo do tempo através de escolhas, erros, perdão e fidelidade; trata-se, antes, de uma adaptação estatística a partir de dados e resultados, que pode ser muito eficaz, mas não implica um crescimento interior”.
Eu já me dera conta disso, ao participar – apresentei uma comunicação – no workshop promovido pela Pontifícia Academia das Ciências Sociais sobre inteligência artificial, justiça e democracia, realizado no Vaticano – https://www.pass.va/en/events/2025/artificial_intelligence/final_statement.html – cuja declaração final articula-se profundamente com o número 99 da Encíclica Magnifica Humanitas, sobretudo na defesa da centralidade da pessoa humana diante do avanço tecnológico. Enquanto o documento do Vaticano enfatiza a necessidade de uma “algorética”, isto é, de uma ética aplicada aos algoritmos e aos sistemas de IA, a Encíclica aprofunda a fundamentação antropológica dessa preocupação ao afirmar que a inteligência artificial jamais pode ser confundida com a inteligência humana.
No número 99 Leão XIV sustenta que a IA apenas imita determinadas funções cognitivas humanas, permanecendo limitada ao processamento de dados. Ela não possui corpo, consciência moral, experiência afetiva nem capacidade de compreender interiormente realidades como amor, amizade, responsabilidade ou sofrimento. Essa reflexão encontra eco direto na declaração da Academia, quando esta alerta para o risco de a eficiência tecnológica substituir critérios éticos, políticos e humanos.
Os dois textos convergem ao denunciar o paradigma tecnocrático, isto é, a ideia de que todos os problemas humanos podem ser resolvidos exclusivamente pela técnica. A declaração afirma que a dignidade humana jamais pode ser subordinada à eficiência econômica ou algorítmica; já a Encíclica insiste que o discernimento moral permanece uma tarefa exclusivamente humana. Assim, ambos rejeitam qualquer tentativa de absolutizar a IA ou de lhe atribuir autonomia moral.
Além disso, a preocupação social é comum aos dois documentos. O workshop destaca os riscos da manipulação da opinião pública, da desinformação, da discriminação algorítmica e da exclusão social produzida pela automação. Em paralelo, Leão XIV recorda que a IA não assume responsabilidade pelas consequências de seus atos, o que exige supervisão humana permanente. A técnica, portanto, deve servir ao bem comum e não substituir a consciência ética da pessoa.
Outro ponto de articulação reside na defesa do trabalho humano. A declaração teme a desvalorização do trabalhador diante da automação crescente, enquanto a Encíclica afirma implicitamente que o trabalho possui dimensão existencial e relacional impossível de ser reproduzida por máquinas. O ser humano amadurece pelo encontro, pela experiência e pela responsabilidade, algo inacessível aos sistemas artificiais.
É alvissareiro, pois, para além de outras expectativas (https://brasilpopular.com/papa-leao-xiv-na-comunhao-com-deus-todas-as-divisoes-humanas-se-dissolvem-2/ ), eu dizia com Ana Paula Barbalho, ao saudar a escolha de um novo Papa, no momento em que a Declaração do Seminário era divulgada, não deixando de ser um alento, para a continuidade da discussão que nele se travou sob inspiração do Papa Francisco, a escolha do nome para marcar o pontificado: Leão XIV. Tanto mais, acrescento – https://estadodedireito.com.br/declaracao-de-consenso-do-workshop-sobre-inteligencia-artificial-justica-e-democracia-comite-pan-americano-de-juizes-para-os-direitos-sociais-e-a-doutrina-franciscana-e-instituto-de-pesquisas-juridi/ – quando suas mais eloquentes manifestações se dirigem ao irredutível cadinho do humano que nos constitui o balizador de toda incidência de nosso agir no mundo (Públio Terêncio Afro – 190-159 a.C: Homo sum, humani nihil a me alienum puto” – “Sou homem, e nada do que é humano me é estranho”).
A publicação da Encíclica Magnifica Humanitas, de Leão XIV, especialmente nos números 115 a 128, oferece um marco relevante para aprofundar um dos debates mais urgentes de nosso tempo. Qual concepção de ser humano orienta a expansão da inteligência artificial e da cultura digital contemporânea? A questão não é meramente tecnológica. Trata-se, antes de tudo, de uma questão antropológica, ética, política, teológica e civilizatória.
Ao abordar criticamente as narrativas do transumanismo e do pós-humanismo, a Encíclica identifica uma tendência crescente de compreender a condição humana como uma realidade insuficiente, imperfeita ou ultrapassável mediante intervenções tecnológicas. Nessa perspectiva, a técnica deixa de ser instrumento a serviço da pessoa para converter-se em horizonte de superação do próprio humano. O ideal passa a ser um ser aumentado, otimizado ou mesmo substituído por sistemas artificiais considerados mais eficientes do que as capacidades humanas.
Contra essa visão, Leão XIV recupera uma tradição central do humanismo cristão, qual seja, a de que a pessoa humana não encontra sua plenitude na ampliação de suas capacidades técnicas, mas na abertura à transcendência, à relação e à graça. O verdadeiro “mais que humano”, afirma a Encíclica, não é o resultado de aprimoramentos tecnológicos, mas da realização plena da vocação humana mediante a comunhão, a solidariedade e o reconhecimento da dignidade inerente a cada pessoa.
É precisamente nesse ponto que emerge uma questão decisiva para as chamadas humanidades digitais. De que humano estamos falando? Qual antropologia sustenta os processos de digitalização da vida social, econômica, política e cultural?
Em reflexão anteriormente desenvolvida no âmbito dos debates sobre constitucionalismo e descolonialidade digital (ver meu artigo Horizontes Democráticos para a Descolonização do Mundo Digital, in Constituição e Descolonialidade: Reconfigurando Direitos e Saberes na Era Tecnológica / organização João Paulo Allain Teixeira. – São Paulo: Editora Dialética, 2025), sustentei que a questão tecnológica contemporânea não pode ser dissociada da crítica à colonialidade do poder, do saber e do ser. A expansão das plataformas digitais, dos sistemas algorítmicos e da inteligência artificial não ocorre em um vazio histórico. Ela reproduz, frequentemente, assimetrias globais de conhecimento, concentração econômica e controle social que aprofundam formas renovadas de dependência e exclusão.
Nesse sentido, a pergunta sobre o humano das humanidades digitais converge com a pergunta sobre a humanidade que desejamos construir. Não basta discutir governança tecnológica; é necessário interrogar os pressupostos antropológicos que orientam essa governança.
As reflexões apresentadas no Seminário “Artificial Intelligence, Justice and Democracy”, promovido pela Academia Pontifícia de Ciências Sociais sob inspiração do Papa Francisco, reforçam essa preocupação. A noção de “algor-ética”, proposta pelo pontífice, parte do reconhecimento de que decisões fundamentais para a vida coletiva não podem ser transferidas integralmente às máquinas. Justiça, democracia, cidadania, paz e verdade são realidades que exigem responsabilidade moral e discernimento humano.
A advertência é particularmente relevante quando observamos a crescente utilização de sistemas automatizados em áreas sensíveis, como segurança pública, administração da justiça, educação e relações de trabalho. A eficiência algorítmica, por si só, não produz justiça. Tampouco a capacidade de processamento de dados substitui a prudência, a empatia ou a responsabilidade ética. O risco é que o paradigma tecnocrático transforme seres humanos em objetos de cálculo, reduzindo a complexidade da vida a padrões estatísticos e critérios de desempenho.
Essa preocupação, digo naquele meu texto, encontra ressonância na ideia de “co-humanidade”, desenvolvida por Karl Barth (o mais influente teólogo protestante do século 20, também denominado “pai da teologia dialética”) e posteriormente acolhida por Joseph Ratzinger (depois eleito Bento XVI). A existência humana não se realiza no isolamento nem na autossuficiência. O humano constitui-se na relação, no encontro e na reciprocidade. Ser humano significa existir com os outros e para os outros.
Tal compreensão desafia frontalmente as tendências individualistas e utilitaristas que frequentemente orientam a economia digital contemporânea. Quando algoritmos passam a organizar o acesso ao conhecimento, ao trabalho, ao crédito, à informação ou mesmo à participação política, torna-se imprescindível perguntar se tais sistemas fortalecem ou enfraquecem os vínculos que sustentam a vida democrática.
A contribuição da crítica decolonial, inspirada em autores como Frantz Fanon, Aníbal Quijano e Ailton Krenak, amplia ainda mais esse horizonte. A questão não consiste apenas em democratizar o acesso às tecnologias, mas em questionar os modelos de racionalidade que as sustentam. A lógica da exploração ilimitada da natureza, da mercantilização da educação e da instrumentalização das relações humanas não desaparece com a digitalização; muitas vezes, ela se intensifica.
Por isso, a defesa da dignidade humana na era da inteligência artificial exige mais do que regulamentação técnica. Exige uma renovação das bases éticas e culturais da própria sociedade. Exige recolocar a justiça social, a democracia, os direitos humanos e o bem comum no centro dos processos de inovação. O que a Encíclica Magnifica Humanitas propõe, pede a melhor política (Francisco. Fratelli Tutti, nº 154) para se realizar.
A síntese proposta por Magnifica Humanitas aponta precisamente nessa direção. Frente às promessas de um pós-humanismo tecnológico, a Encíclica reafirma um humanismo relacional, solidário e transcendente. Frente à lógica da eficiência absoluta, reafirma a centralidade da pessoa. Frente à pretensão de substituir o discernimento humano por sistemas automatizados, reafirma a liberdade e a responsabilidade moral.
Talvez a questão decisiva do nosso tempo não seja o que as máquinas serão capazes de fazer, mas que humanidade desejamos preservar e promover em meio à transformação digital. A resposta a essa pergunta determinará não apenas o futuro da tecnologia, mas o futuro da própria civilização.
(*) José Geraldo de Sousa Junior é professor titular na Faculdade de Direito e ex-reitor da Universidade de Brasília (UnB)
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