sexta-feira, 19 de junho de 2026

 

                                     Os de dentro e os de fora.

 

João Guimarães Cesário

Graduando em Direito – Universidade de Brasília (UnB) Disciplina: Pesquisa Jurídica

 

O discurso de Washington Luís sobre a construção do parque da várzea do Carmo revela algo muito além de uma simples colocação preconceituosa. O discurso proferido pelo então prefeito da cidade de São Paulo revela uma invisibilidade do acesso ao direito à cidade proposto por Henri Lefebvre. O discurso do Dr. Washington Luís se inicia com este criticando a condição da paisagem sobre a qual será construído o parque da Várzea do Carmo “É uma vasta superfície chagosa, mal cicatrizada em alguns pontos, e, ainda escalavrada” (Torres, 1960).

Porém, para além da crítica à paisagem do local de construção do parque, posteriormente em seu discurso, o prefeito critica também aspectos sociais da várzea “Pela ausência de iluminação se reune e dorme e se enchacoa, à noite, a vasa da cidade, numa promiscuidade, nojosa composta de negros vagabundos” (Torres, 1960). Essa colocação do então prefeito da cidade ilustra uma questão extremamente relevante e muito mais atual do que parece ser: Quem pode usufruir livremente do direito à cidade?

 Em primeiro lugar, é necessário introduzir a teoria do direito à cidade de Henri Lefebvre. Segundo o autor, o direito à cidade não é simplesmente caracterizado pelo direito de ir e vir dentro da cidade, mas sim o direito de adequá-la conforme suas necessidades. O pilar central da teoria de Lefebvre é que a cidade, por conta do capitalismo, deixou de ser uma obra comunitária e de acesso do povo e passou a ser um produto, onde o espaço deixa ter uma relevância sociocultural e passa a ter uma importância meramente agregada ao seu valor financeiro (Lefebvre, 2009).

Nesse contexto, o discurso do prefeito praticamente responde o seguinte à reflexão proposta: podem acessar plenamente a cidade aqueles considerados moralmente respeitáveis, racialmente desejáveis e economicamente integrados. E, por mais retrógrada e colonialista que seja a visão do prefeito sobre tal reflexão, ela ainda se perpetua na sociedade hodierna.

Entretanto, a exclusão de populações historicamente marginalizadas do pleno direito à cidade manifesta-se hoje de forma mais sutil. A restrição desse direito aos povos periféricos foi progressivamente normalizada. Como exemplo dessa dinâmica, pode ser observada a marginalização da cultura periférica, fato observado diariamente pelas tentativas institucionais – como por exemplo a cpi dos pancadões, episódio em que a câmara municipal da cidade de São Paulo buscou ilegalizar a realização de bailes funk em comunidades periféricas – de abafar ou deslegitimar as formas de expressão cultural desses povos. A simples possibilidade de que manifestações culturais periféricas sejam tratadas como problema de ordem pública ilustra a naturalização de mecanismos de exclusão social.

Vale ressaltar que tais tentativas de silenciamento das vozes mais marginais da sociedade não acontecem de forma isolada ou ocasional, essas tentativas tornaram-se parte do cotidiano burocrático brasileiro: os julgamentos teratológicos acerca das causas indígenas e as tentativas constantes e frequentes de impedir a expressão da cultura do povo favelado são um exemplo cotidiano dessa rotina burocrática.

Tendo em vista essa prática, é válido que analisemos o panorama social do acesso deliberado ao espaço geográfico urbano por meio das lentes dos espoliados. Sob essa ótica, podemos analisar que a circulação dentro dos espaços urbanos para os espoliados deixa de ser uma atividade recreativa, e se torna uma necessidade constante de parecer pertencer a um espaço que, inicialmente, nunca nem foi planejado para incluí-los.

Sob essa perspectiva, é possível notar que o planejamento socioespacial da paisagem urbana conta com fatores problemáticos de inclusão. Essa dinâmica estabelece uma fronteira rígida, porém invisível. Pierre Bourdieu apresenta em sua teoria a violência simbólica: marca registrada das formas latentes de preconceito com os corpos historicamente periferizados (Loyola, 2003). Essa violência não é caracterizada por agressões físicas, mas sim por uma reprodução constante da dominação dos espoliadores, praticada por meio da naturalização das desigualdades e pela cumplicidade dos dominados, que são educados para reproduzir e internalizar todo o preconceito sofrido, esse efeito garante que o ciclo se renove e, portanto, que os espoliadores preservem sua posição.

Ademais, essa normalização institucional do preconceito com o uso deliberado do espaço urbano dos povos minoritários, é prevista pelo autor Norbert Elias em sua obra “Os estabelecidos e os Outsiders” (Elias, 2011), onde Elias propõe e ilustra as ferramentas usadas pelos chamados “estabelecidos” para a perpetuação de seu status social de superioridade e também as ferramentas para a renovação do preconceito com os chamados “outsiders” (Elias, 2011).

Elias também pontua em sua obra diversas ferramentas de controle da classe estabelecida para com os outsiders, como por exemplo a estigmatização social e o uso da fofoca (difamação e criação de preconceitos) (Elias, 2011). No discurso do então prefeito da terra da garoa, essas ferramentas são visíveis dado que este faz uso de palavras difamatórias para com os “outsiders” daquele espaço visando à reprodução da ideia de que eles não pertencem àquele lugar.

Sob esse viés, é possível analisar que o discurso do ex-prefeito da cidade de São Paulo e ex-presidente do Brasil, não é neutro em relação ao acesso e gozo do direito de acesso à cidade, o Dr. Washington Luís assume uma posição crítica e preconceituosa sobre quem deve acessar ou não a cidade. A posição do Dr. Washington Luís, pode ser jocosamente comparada ao comportamento do alienista machadiano (Assis, 2014), o Dr. Simão Bacamarte, uma vez que o prefeito, assim como o alienista, busca identificar e apartar os desviantes da ordem social (Assis, 2014).

Além disso, a posição higienista social assumida pelo prefeito, pode ser vista não só nesse discurso mas em toda a história da urbanização brasileira, que pareceu propositalmente excluir os personagens marginalizados de sua história. A obra prima de Aluísio Azevedo, “O Cortiço”, ilustra de forma dramática o sofrimento dos “outsiders” diante da urbanização da cidade maravilhosa, em seu romance, Azevedo, por meio dos personagens João Romão e Bertoleza, demonstra as formas de preconceito estrutural sofridas pelas camadas mais marginais da sociedade (Azevedo, 2016).

A construção do parque da várzea do Carmo, é a reprodução de um ideal existente na história brasileira desde a chegada dos primeiros colonizadores: a lógica eurocêntrica da reprodução dos costumes europeus em solo tupiniquim ignorando deliberadamente a tradição e cultura do povo brasileiro. Nesse cenário, é válido notar que essa lógica não ficou no passado, os grandes discursos de europeização dos espaços urbanos no Brasil e diminuição da importância da cultura marginal, são, ainda, traços coloniais brasileiros, os mesmos traços que construíram o parque Dom Pedro II, expurgaram o centro do Rio de Janeiro e contribuíram para a formação de regiões administrativas periféricas no Distrito Federal.

Dessa forma, é notável que as ferramentas de exclusão institucional impedem diariamente o pleno acesso e exercício do direito à cidade pelos povos historicamente prejudicados, uma vez que são cada vez mais empurrados para as margens da sociedade e tratados como não pertencentes ao imaginário urbano social.

Portanto, é notório que a questão colocada pelo discurso de Washington Luís permanece atual: quando uma cidade é planejada, quem é convidado a ocupá-la? Bem, a resposta continua visível na paisagem urbana: de um lado, aqueles cuja forma de viver é abraçada pelo espaço público e legitimada pelos costumes; de outro, aqueles cuja presença ainda parece ser um problema de ordem pública a ser solucionado.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

 

ASSIS, Machado de. O Alienista. Penguin-Companhia, 2014.

AZEVEDO, Aluísio. O cortiço. Penguin-Companhia, 2016.

ELIAS, Norbert. Os Estabelecidos e os Outsiders. Zahar, 2000.

LEFEBVRE, Henri. O direito à cidade. Centauro, 2009.

LOYOLA, Maria. Pierre Bourdieu. EdUERJ, 2003.

TORRES, Maria. Brás: história dos bairros de São Paulo. Prefeitura Municipal de São Paulo, 1960 .

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