quarta-feira, 6 de maio de 2026

 

Mapa-Múndi Invertido: o Brasil no centro do Mundo com o Sul no Topo

Por: José Geraldo de Sousa Junior (*) – Jornal Brasil Popular/DF

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O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) lançou um novo mapa-múndi invertido, trazendo o Brasil no centro do mundo e com o Sul no topo da imagem (https://agenciabrasil.ebc.com.br/geral/noticia/2025-05/ibge-lanca-mapa-mundi-invertido-com-sul-no-topo).

Conforme a matéria da Agência Brasil, o lançamento é feito no ano em que o país tem ativa participação nos debates e perspectivas do Sul Global e do cenário mundial, em especial por presidir o Brics e o Mercosul e receber a Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COP30), em Belém, na Amazônia.

O novo mapa também traz destacados os países que compõem o Brics, o Mercosul, os países de língua portuguesa e do bioma amazônico, a cidade do Rio de Janeiro, como capital do Brics, a cidade de Belém, como capital da COP30, e o Ceará como sede do Triplo Fórum Internacional da Governança do Sul Global – Novos Indicadores e Temas Estratégicos para o Desenvolvimento e a Sustentabilidade na Era Digital, em junho, em Fortaleza.

Segundo diretora do IBGE ouvida na matéria, há também um viés político relacionado a essa questão Norte-Sul. “Como historicamente os primeiros mapas foram feitos majoritariamente por europeus, atribui-se a colocação da Europa na parte superior do mapa como uma questão de reforço da superioridade da Europa em relação aos países localizados na porção sul. Isso, na verdade, trouxe protestos dos países do Sul, principalmente dos latino-americanos. Gostaria de enfatizar que mapas são representações do mundo real. Os mapas podem ser bonitos ou feios, podem ser simples ou mais complexos, mas são sempre representações”.

Ainda na matéria, o meu colega na UnB, professor Rafael Sânzio Araújo dos Anjos, do Departamento de Geografia da universidade, destaca que há 20 anos pesquisadores brasileiros já realizam mapas com essa nova perspectiva. “Em 2007, eu publiquei este mesmo mapa-múndi do IBGE pela UnB com um mundo de cabeça para baixo e um mundo com o Brasil no centro. A primeira constatação é que o IBGE está em um tempo, mas as pesquisas brasileiras estão em outro tempo. Isso mostra um gap. Esse mapa serve para a gente melhorar a nossa autoestima, é a autoestima da nação. O IBGE, ao trazer esta cartografia do Brasil no centro do mundo, mexendo no eixo Sul-Norte, é que dá oficialidade. Esse é o grande trunfo de uma publicação como essa, é oficial”.

Rafael ressalta que as representações gráficas do mundo a partir do século 16 vão mostrar visões de terras conhecidas com os mapas orientados para o Polo Norte. “Os europeus nos impuseram o mapa a partir do século 16. A Europa moderna começa a fortalecer os seus estados. É quando ela inicia a diáspora e vai enriquecer com a África, com a América, com o Novo Mundo, e o Brasil está nesse bojo. As imagens aparecem como verdade. Desmistificar esse processo é muito importante. Uma boa maneira de fazer é mostrar uma outra imagem”.

Nos habituamos acriticamente a ver o mundo pelo mapa de Mercator, criado em 1569 para facilitar a navegação. Ele preserva ângulos, mas distorce tamanhos, ampliando o Norte e reduzindo o Sul. Assim, regiões como Europa e América do Norte parecem maiores e mais centrais, enquanto África e América do Sul são visualmente diminuídas, reforçando a ideia de superioridade do Norte. Com o tempo, esse mapa deixou de ser apenas técnico e passou a transmitir uma visão de mundo.

Mas a partir de meados do século XX, no contexto das mobilizações por descolonização, começaram a ser elaborados mapas contra-hegemônicos que tentam questionar essa lógica. A projeção de Gall-Peters, dos anos 1970, mantém as áreas reais dos continentes, fazendo o Sul aparecer com seu verdadeiro tamanho, embora distorça as formas. A proposta é clara. É preferível distorcer a aparência do que perpetuar desigualdades simbólicas. Outros modelos, como o mapa invertido, simplesmente colocam o Sul no topo, mostrando que “em cima” e “embaixo” são convenções culturais. Já a projeção Dymaxion elimina a ideia de centro, representando o planeta como um todo contínuo.

Esses mapas revelam que toda representação do mundo envolve escolhas e, portanto, poder. Aliás, Jorge Luis Borges, no ensaio “O Idioma Analítico de John Wilkins“, publicado em 1942, afirmava que “Sabidamente não há classificação do universo que não seja arbitrária e conjectural”.  O mesmo se pode dizer da cartografia, que cuida de escalas e projeções. Nenhum mapa é neutro ou totalmente fiel à realidade, pois todos são projeções de uma esfera em um plano. Pensadores críticos lembram que trocar um modelo por outro não resolve tudo, já que ambos continuam presos a uma lógica de representação única.

Antes mesmo dessas projeções, povos indígenas já produziam mapas baseados em experiências locais, sem depender de noções como Norte fixo ou escala global. Isso mostra que a ideia de um único “mapa correto” é, em si, uma construção histórica.

Na arte, essa crítica aparece com força na obra “América Invertida”, de 1943, que coloca o Sul no topo e afirma “nosso norte é o Sul”. A proposta é rejeitar a centralidade europeia e afirmar uma perspectiva própria. Tanto essa obra quanto os mapas alternativos compartilham a mesma intenção, que é questionar hierarquias e mostrar que representar o mundo também é um ato político.

Aliás, exatamente agora, em Brasília, está instalada a exposição (CCBB) “Nosso Norte é o Sul” – Joaquín Torres Garcia. A propósito remeto à resenha América invertida: “Nosso Norte é o Sul”. Joaquín Torres García, Notas sobre uma Exposição, de Isabela Marques Resende Dias, granduanda do Curso de Direito da UnB, disciplina Pesquisa Jurídica (1º/2026) – https://odireitoachadonarua.blogspot.com/.

Na sua resenha ela afirma que “o artista percebeu o viés passageiro que a modernidade estava inclinada a seguir e decidiu criar a teoria artística do Universalismo Construtivo, que une o passado pré-colombiano (arte produzida pelos povos nativos das Américas, como Maias, Astecas e Incas), as vanguardas e os símbolos primitivos, com o objetivo de tornar a arte do presente intemporal‒ mesmo com o passar dos anos, ela mantém sua importância e conectividade com o momento vigente, transcendendo o tempo ‒, o que torna o atual, eterno” e, “a partir do pensamento de querer romper com o momento vigente, Torres García desenvolveu sua obra mais famosa, o mapa da América invertida, produzida em 1943, que traz consigo a mensagem: “Nosso Norte é o Sul”. Ao inverter o mapa, trocar o Norte pelo Sul, o artista declara a urgência de a América-Latina iniciar seu processo de emancipação e desvincular-se dos modelos europeus que moldam o mundo e afetam a América do Sul desde a divisão proposta pelo Tratado de Tordesilhas. O mapa-múndi tradicional, que utiliza a projeção de Mercator, vigente desde o século XVI, é eurocêntrico, uma vez que distorce o tamanho dos continentes, para que o hemisfério norte pareça maior e mais centralizado. Esse modelo pretende destacar a hegemonia europeia sobre as outras nações e, portanto, legitimar qualquer modelo que coloca esses povos como superiores”.

Ainda, segundo Isabela, “o artista pretende desfazer a ideologia de que a linha do Equador não divide o mundo apenas em 2 hemisférios, mas também entre o bem e o mal, o superior e o inferior, o desenvolvido e o subdesenvolvido. Torres García acreditava na implementação de uma cultura globalizada‒ cujo objetivo é superar a dependência cultural euro e etnocêntrica em vigor‒, por esse motivo, ele criou o desenho da América Invertida, que possui um viés decolonial e propõe o protagonismo da América do Sul no contexto geopolítico e da produção artística e cultural”, concluindo que “a partir dessa obra, alguns artistas utilizaram da mesma crítica para realizar outras produções.

Muito importante a iniciativa do IBGE. Não se trata de um modismo ou de uma bravata midiática. Antes, tal como localizado nas disposições cartográficas contra-hegemônicas e artísticas, do que se trata é de abrir um imaginário epistemológico e político para traçar mapas que desenhem rotas favoráveis para navegar entre os escolhos de territórios de dragões, da metáfora de Luís Alberto Warat, o grande filosófo argentino, meu orientador no doutorado.

Isabela Reis, sobre a exposição “Nosso Norte, é o Sul” , alude a parte dela apresentando outros artistas que utilizaram a mesma crítica para realizar outras produções, “como Jaime Lauriano, que idealizou a “America Meridionalis: invenção, epistemicídio, contrato social e genocídio”,2019 , que, ao utilizar mapas antigos, adotados na época das grandes navegações, o artista denuncia os instrumentos de dominação explorados pelos colonizadores com o objetivo de confrontar a narrativa única que perdurou na história por séculos, de que a ocupação europeia no território foi pacífica. Além disso, o autor, ao trabalhar com a ideia de uma imposição ocidental do saber, a qual rebaixa e apaga as outras formas de conhecimento, também critica a necropolítica‒ controle dos corpos, que define quem merece viver ou não de acordo com a raça”.

Em Warat, trata-se de dar significado aos desenhos dos cartógrafos do período europeu das navegações que, à falta de registros para assinalar rotas de longo curso, por “mares nunca dantes navegados”, além da Taprobana” (Camões, Os Lusíadas, Canto Primeiro, estrofe 1), faziam ilustrações de monstros, de leviatãs, de terríveis adamastores (Os Lusíadas, Canto V, estrofe 37 até estrofe 60).

Cartógrafos e artistas, a seu modo, tanto quanto geógrafos e estatísticos (Rafael Sânzio, IBGE), abrem horizontes cognitivos para mapas e murais, como pudemos ver os que acompanharam a exposição da coleção Oswaldo Guayasamin – numa curadoria denominada Continente Mestiço – a primeira vez que o acervo foi exposto fora do Equador, completo, para homenagear a UnB no seu jubileu (50 anos) em 2012.

A obra de Guayasamin registra seu testemunho sobre a fragilidade humana nos vários continentes por onde passou sem remeter exclusivamente a um único espaço ou período no tempo. Sua arte de protesto denuncia a desigualdade social como violação da própria condição de humanidade. “Quando Guayasamin grita o sofrimento dos sujeitos de todos os povos, sua voz é mais poderosa e incontida que a do rio Apurimac”, define o literato peruano José Maria Arguedas, em ode ao artista (https://estadodedireito.com.br/guayasamin-continente-mestico/).

(*) José Geraldo de Sousa Junior é professor titular na Faculdade de Direito e ex-reitor da Universidade de Brasília (UnB)

 

PONTO de mutação. Direção: Bernt Capra. Estados Unidos: Paramount, 1990. Disponível em: [https://www.youtube.com/watch?v=Q-c5_xnRsTI&t=9s]. Acesso em: 4 maio 2026. (Resenha)

                                              

Bruno Cunha Rêgo Filgueiras Pohl

Graduando do Curso de Direito da UnB, disciplina     Pesquisa Jurídica, 1º/2026

O filme “Ponto de Mutação”, dirigido por Bernt Capra e inspirado nas ideias do físico Fritjof Capra, não é um filme comum, feito de grandes ações, conflitos visuais ou reviravoltas dramáticas. Sua força está no diálogo. A narrativa acompanha três personagens: Sonia, uma cientista; Jack, um político; e Thomas, um poeta, caminhando por Mont Saint-Michel, na França, enquanto discutem ciência, política, natureza, humanidade e o sentido da vida. O próprio filme é estruturado como uma longa conversa filosófica, na qual cada personagem representa uma forma diferente de compreender o mundo: a ciência, o poder político e a sensibilidade poética.

A primeira crítica do filme está voltada ao pensamento moderno ocidental, especialmente à influência de René Descartes. Em determinado momento, Sonia critica a visão cartesiana de mundo, segundo a qual a realidade poderia ser compreendida como uma máquina: bastaria desmontá-la em partes menores para entender o todo. Essa lógica aparece simbolicamente no filme quando os personagens observam mecanismos, engrenagens e estruturas antigas, criando uma metáfora visual para a ideia de mundo como relógio. A cientista questiona justamente isso: será que a vida pode ser reduzida a peças? Será que compreender uma árvore, um corpo humano, uma sociedade ou um planeta é apenas separar suas partes e analisá-las isoladamente?

Minha visão concorda bastante com Sonia. A personagem feminina apresenta uma crítica necessária ao modo como a humanidade aprendeu a pensar: de forma fragmentada, utilitária e dominadora. Ela mostra que a crise ambiental, a desigualdade social, a fome e a destruição da natureza não são problemas separados, mas sintomas de uma mesma forma de pensamento. Quando o filme cita o Brasil, especialmente a destruição da Amazônia, esse ponto fica ainda mais evidente. A fala sobre o desmatamento e a criação de gado na Amazônia mostra que uma decisão econômica aparentemente local está ligada a uma rede muito maior: dívida externa, consumo, mercado internacional, política, meio ambiente e sobrevivência humana. O Brasil aparece, portanto, como exemplo concreto de como a visão fragmentada transforma a natureza em mercadoria e esquece que a floresta é parte de um sistema vivo.

Essa discussão leva a uma pergunta profunda: o que é a vida? Do ponto de vista científico, o filme sugere que a vida não é uma coisa isolada, mas uma rede de relações. Anteriormente, Sonia havia dado o exemplo do átomo, explicando que tudo que existe é a partir de relações entre eles, e o Thomas tinha dado o exemplo da música, onde as notas só fazem sentido se tocadas com outras, isoladas são apenas barulhos, mas quando elas se relacionam formam música. Um ser vivo não existe separado do ambiente, assim como uma célula não existe separada do organismo, e uma pessoa não existe separada da sociedade. A vida, nessa perspectiva, é sistema, troca, equilíbrio, movimento e interdependência. A ciência apresentada por Sonia não é fria; pelo contrário, ela revela que tudo está conectado: o corpo, a mente, a natureza, a economia e a cultura.

Mas, embora eu concorde com as ideias da cientista, sobre a reflexão “o que é a vida? "acho que a visão mais bonita sobre o que é a vida aparece no olhar do poeta. Thomas parece compreender que a vida não pode ser explicada apenas por conceitos, fórmulas ou teorias. A vida também é mistério, sentimento, dor, beleza, memória e silêncio. Se Sonia mostra que a vida é uma rede, o poeta mostra que essa rede também pulsa. A vida não é apenas um sistema biológico; é também aquilo que nos atravessa quando olhamos o mar, quando sentimos medo, quando amamos alguém ou quando percebemos que fazemos parte de algo maior do que nós mesmos.

Por isso, a grande riqueza do filme está na complexidade do diálogo entre os três personagens. Jack, o político, representa o mundo prático, das decisões, do poder e das instituições. Sonia representa a ciência crítica, que tenta mostrar os limites do pensamento antigo. Thomas representa a poesia, a dúvida e a sensibilidade humana. Nenhum dos três, sozinho, dá conta da realidade. O político precisa da ciência para não tomar decisões superficiais; a cientista precisa da política para que suas ideias transformem o mundo; e ambos precisam do poeta para lembrar que a humanidade não vive apenas de dados, leis e projetos, mas também de sentido.

Nesse ponto, o filme também permite pensar sobre o que é o Direito. O Direito não deve ser visto apenas como um conjunto de normas escritas, frias e separadas da vida. Se seguirmos a crítica de Ponto de Mutação, o Direito também precisa deixar de ser apenas mecanicista, a partir disso existe o movimento do “Direito Achado na Rua”. Não se pode tratar os conflitos humanos como peças isoladas de uma máquina. Um problema ambiental, por exemplo, não é apenas uma infração administrativa; é uma questão social, econômica, cultural e ética. O Direito, então, deveria ser compreendido como uma forma de organizar a convivência humana dentro de uma realidade interdependente. Ele existe para proteger relações: entre pessoas, entre grupos, entre gerações e entre a humanidade e a natureza, sem ignorar questões culturais e sociais.

Assim, o filme defende uma verdadeira mudança de pensamento da humanidade. Não se trata apenas de trocar uma opinião por outra, mas de abandonar uma visão antiga, baseada na separação, no controle e na dominação, para adotar uma visão sistêmica, ecológica e integrada. Essa mudança é o “ponto de mutação”: o momento em que percebemos que os problemas do mundo não serão resolvidos com o mesmo tipo de pensamento que os criou.

Essa discussão pode ser relacionada ao filme “Doutor Estranho”, da Marvel. Stephen Strange começa sua história como um médico extremamente racional, arrogante e controlador. Ele acredita que tudo pode ser dominado pela técnica, pela precisão e pelo conhecimento científico tradicional. Após o acidente que destrói suas mãos, ele é obrigado a enfrentar os limites dessa visão. Ao entrar em contato com as artes místicas, Strange descobre que a realidade é mais ampla, complexa e interligada do que ele imaginava. Sua transformação lembra a crítica de Ponto de Mutação: o ser humano precisa superar a ilusão de controle absoluto e aceitar que há dimensões da existência que não cabem em uma lógica puramente mecânica.

Portanto, Ponto de Mutação é um filme importante porque nos obriga a pensar. Ele mostra que a crise da humanidade é também uma crise de percepção. O mundo não está em crise apenas porque faltam soluções, mas porque muitas vezes insistimos em enxergar a vida de forma quebrada, dividida e sem conexão. A cientista tem frazão ao defender uma visão sistêmica; porém, o poeta também tem razão ao lembrar que a vida não é apenas explicação, mas encantamento. Entre ciência e poesia, talvez esteja o caminho mais completo: compreender a vida como uma rede viva, mas também senti-la como mistério.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

MINDWALK. Direção: Bernt Capra. IMDb. Disponível em: https://www.imdb.com/pt/title/tt0100151/. Acesso em: 4 maio 2026

MINDWALK. In: WIKIPEDIA: the free encyclopedia. Disponível em: https://en.wikipedia.org/wiki/Mindwalk. Acesso em: 4 maio 2026.

SANTOS, Diego Rodrigues dos. Mindwalk: um convite à reflexão. Recanto das Letras. Disponível em: https://www.recantodasletras.com.br/redacoes/2120003. Acesso em: 4 maio 2026.

MINDWALK. In: WIKIPEDIA: the free encyclopedia. Disponível em: https://en.wikipedia.org/wiki/Mindwalk. Acesso em: 4 maio 2026.

DOUTOR ESTRANHO. Direção: Scott Derrickson. Produção: Kevin Feige. Estados Unidos: Marvel Studios, 2016. Filme (115 min).

SOUSA JUNIOR, José Geraldo de (org.); BERNARDINO, Alexandre; SOUSA, Nair Heloisa Bicalho de et al. O direito achado na rua: introdução crítica ao direito como liberdade. Brasília: Editora Universidade de Brasília, 2021.

 

 

América invertida: “Nosso Norte é o Sul”. Joaquín Torres García, Notas sobre uma Exposição

 

                 ISABELA MARQUES RESENDE DIAS, granduanda do Curso de Direito da UnB, disciplina Pesquisa Jurídica (1º/2026)

 

Joaquín Torres García (1874-1949) foi um artista uruguaio que começou sua carreira com desenhos e pinturas, principalmente de natureza-morta, que busca retratar objetos inanimados. Logo após a Primeira Guerra Mundial, em um momento de crise profissional, ele dedicou-se à criação de brinquedos desmontáveis de madeira, o que permitia a realização de diversos arranjos com as mesmas peças. Tais criações dialogavam com suas pinturas e se transformavam (eram adaptadas de acordo com as influências culturais) a cada cidade que o artista passava, como Barcelona, Paris e Nova York. Nesse mesmo período, a Europa presenciava a eclosão dos movimentos de vanguarda, que surgiram para romper com os padrões clássicos e tradicionais da arte e propor formas de expressão mais alinhadas à modernidade.

Diante desse momento, Torres García construiu uma relação de aproximação e distanciamento estratégicos em relação às vanguardas. Isso porque o artista visava interligar o passado, o presente e a eternidade, ou seja, almejava capturar ideais universais da Antiguidade ‒ sem recorrer ao naturalismo, pois acreditava que a verdadeira expressão artística transcende aquilo que é inteligível, por isso é necessário recorrer a uma visão espiritual para compreender a realidade em sua totalidade. Os movimentos vanguardistas que ele buscou relacionar-se foram o simbolismo, o cubismo, o muralismo e movimentos abstratos, com destaque para o neoplasticismo. Contudo, Torres García alega que, apesar de os modernos terem encontrado “as bases e fundamentos da verdadeira arte”, a eles carecia a humanidade, pois eles não são capazes de “construir uma catedral” para conectar o mundo material com o espiritual.

O artista percebeu o viés passageiro que a modernidade estava inclinada a seguir e decidiu criar a teoria artística do Universalismo Construtivo, que une o passado pré-colombiano (arte produzida pelos povos nativos das Américas, como Maias, Astecas e Incas), as vanguardas e os símbolos primitivos, com o objetivo de tornar a arte do presente intemporal‒ mesmo com o passar dos anos, ela mantém sua importância e conectividade com o momento vigente, transcendendo o tempo ‒, o que torna o atual, eterno.

A partir do pensamento de querer romper com o momento vigente, Torres García desenvolveu sua obra mais famosa, o mapa da América invertida, produzida em 1943, que traz consigo a mensagem: “Nosso Norte é o Sul”. Ao inverter o mapa, trocar o Norte pelo Sul, o artista declara a urgência de a América-Latina iniciar seu processo de emancipação e desvincular-se dos modelos europeus que moldam o mundo e afetam a América do Sul desde a divisão proposta pelo Tratado de Tordesilhas. O mapa-múndi tradicional, que utiliza a projeção de Mercator, vigente desde o século XVI, é eurocêntrico, uma vez que distorce o tamanho dos continentes, para que o hemisfério norte pareça maior e mais centralizado. Esse modelo pretende destacar a hegemonia europeia sobre as outras nações e, portanto, legitimar qualquer modelo que coloca esses povos como superiores.

O artista pretende desfazer a ideologia de que a linha do Equador não divide o mundo apenas em 2 hemisférios, mas também entre o bem e o mal, o superior e o inferior, o desenvolvido e o subdesenvolvido. Torres García acreditava na implementação de uma cultura globalizada‒ cujo objetivo é superar a dependência cultural euro e etnocêntrica em vigor‒, por esse motivo, ele criou o desenho da América Invertida, que possui um viés decolonial e propõe o protagonismo da América do Sul no contexto geopolítico e da produção artística e cultural.

A partir dessa obra, alguns artistas utilizaram da mesma crítica para realizar outras produções, como Jaime Lauriano, que idealizou a “America Meridionalis: invenção, epistemicídio, contrato social e genocídio”,2019 , que, ao utilizar mapas antigos, adotados na época das grandes navegações, o artista denuncia os instrumentos de dominação explorados pelos colonizadores com o objetivo de confrontar a narrativa única que perdurou na história por séculos, de que a ocupação europeia no território foi pacífica. Além disso, o autor, ao trabalhar com a ideia de uma imposição ocidental do saber, a qual rebaixa e apaga as outras formas de conhecimento, também critica a necropolítica‒ controle dos corpos, que define quem merece viver ou não de acordo com a raça.

Dessa forma, pode-se estabelecer uma relação entre a obra de Joaquín Torres García com os ideais defendidos pelo Direito Achado na Rua, visto que ambos pretendem rejeitar uma formalidade imposta e almejam disseminar uma releitura, um novo ponto de vista a partir dos marginalizados. A primeira, ao inverter o mapa da América do Sul, evidencia a possibilidade de se opor ao pensamento eurocêntrico aceito e consolidado mundialmente e propõe a adoção do Sul como um referencial. Já o segundo contrapõe-se ao ideal de que o direito legítimo nasce, apenas, das leis escritas e sugere o reconhecimento dos movimentos populares e das lutas sociais, ou seja, objetiva validar os anseios reais da população ao superar a barreira burocrática.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

MBEMBE, Achille. Necropolítica: biopoder, soberania, estado de exceção, política da morta. São Paulo:n-1 edições, 2018.

TORRES GARCÍA, Joaquín: 150 anos. Curadoria de Saulo di Tarso. Brasília: Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB), 2026. Exposição. Visitada em: 2 mai. 2026.

 

 

Como enxergar o que a nossa cultura não nos preparou para ver? Nesta resenha, analiso o clássico cinematográfico Um Homem Chamado Cavalo (1970) e sua conexão estrutural com o fenômeno Avatar (2009) sob a lente da 'metáfora das caravelas', conceito de Octavio Paz evocado pelo Professor José Geraldo de Sousa Júnior durante seu depoimento na CPI do MST em junho de 2023. Uma reflexão sobre o choque cultural, a invisibilidade do 'outro' e os ritos de passagem que expandem a nossa cognição.

 

Quando o outro deixa de ser invisível: O despertar da cognição em Um Homem Chamado Cavalo e Avatar

Daniella Meira Lima¹

 

Lançado em 1970, o filme Um Homem Chamado Cavalo é uma obra que desafiou os clichês do faroeste ao trocar o tiroteio pela tentativa de imersão antropológica, buscando retratar o modo de vida Sioux com um pouco mais de autenticidade do que os faroestes clássicos da época. Para a época, a produção foi revolucionária por utilizar diálogos em língua nativa e sem legendas em vários momentos. Richard Harris entrega uma atuação visceral como John Morgan, um aristocrata inglês que acaba encontrando um destino brutal e transformador.

A produção baseia-se no conto homônimo de Dorothy M. Johnson, publicado em 1950, que narra a luta de um homem para manter sua identidade enquanto é reduzido à servidão. No entanto, o filme expande a narrativa de Johnson ao transformar a resistência pragmática do conto em uma jornada espiritual e psicológica de renascimento.

Capturado pelos Sioux enquanto caçava, Morgan é despido de sua "civilidade" europeia para ser jogado em um mundo de regras implacáveis. O filme nos transporta para dentro da aldeia, onde acompanhamos a agonia de um homem que, de senhor de si, passa a ser um animal de carga — tratado literalmente como um cavalo pela tribo.

O ponto de virada emocional ocorre por meio da relação de Morgan com Erva Corça, interpretada por Corinna Tsopei. O que começa como uma posse — Morgan a vê como uma chance de fuga e a tribo o vê como um escravo indigno — floresce em um afeto genuíno que o obriga a querer não apenas sobreviver, mas pertencer. Para desposá-la e ser aceito como um par, Morgan precisa provar que não é mais um animal, mas um homem digno sob a ótica Sioux.

Essa desconstrução do protagonista permite conectar a obra à metáfora epistemológica utilizada pelo Professor José Geraldo de Sousa Júnior em seu depoimento na CPI do MST, em 14 de junho de 2023. Ao evocar o pensamento de Octavio Paz, que dizia que os povos originários não "viam" as caravelas. Essa ideia, às vezes chamada de "o paradigma das caravelas" é usada para ilustrar como a percepção humana é limitada pelo que conhecemos; se algo é completamente estranho à nossa cultura, nossos olhos podem literalmente não "computar" aquela imagem. A mente humana filtra e ignora o que é completamente estranho ao seu repertório cultural. José Geraldo utilizou esse conceito para apontar que se duas pessoas operam em planos cognitivos diferentes, elas estão em "mundos" distintos e não conseguem enxergar os mesmos fatos.

O professor de certo modo também liga essa "cegueira" à forma como populações marginalizadas são ignoradas pelas políticas públicas, que focam apenas em indicadores financeiros e ignoram a dignidade humana, é o que impede muitos de compreenderem o Direito Achado na Rua, que foca na produção jurídica feita pelos movimentos sociais e não apenas no papel.

No filme, Morgan é essa "caravela": para os Sioux, ele não é um lorde, mas um objeto sem humanidade reconhecível.

O despertar pela dor ocorre na icônica sequência da Dança do Sol (termo traduzido no filme como Voto do Sol), um ritual de suspensão por ganchos de osso que serve como a "chave" que rompe a barreira da invisibilidade. É o amor por Erva Corça que o impulsiona a suportar o insuportável. A dor física funciona como ponte cognitiva: para a tribo, o sacrifício de Morgan finalmente dá "contorno" à sua humanidade. É o momento em que a "caravela" ganha nome e significado. A "cognição" Sioux não possuía categoria "nobreza europeia", por isso Morgan era invisível em sua humanidade original e é rebaixado a cavalo.

O interessante é que Morgan é quem sofria da "cegueira das caravelas" no início. Ele olhava para os Sioux e via apenas "selvagens". Ele não conseguia “enxergar" a complexidade da estrutura social, religiosa e jurídica da tribo até que sua própria cognição seja forçada a mudar pelo sofrimento e pela convivência.

No filme, Morgan só passa a "enxergar" a realidade quando abandona seus códigos europeus.

Para John Morgan, o ritual funciona como uma "expansão de consciência" forçada. Ele precisa abandonar sua lógica aristocrática, onde o corpo é preservado e o status é herdado - para aceitar uma lógica onde o status é conquistado pelo sofrimento.

Ele descobre um novo "Direito" e uma nova moralidade que não estavam nos seus livros: o direito conquistado pelo rito, pela bravura e pela inserção na comunidade.

Dança do Sol é o momento em que a "caravela" finalmente é vista: Morgan deixa de ser um objeto estranho e passa a ter um lugar compreensível no quadro mental daquela sociedade.

O rito funciona como a "chave" de entendimento porque ele opera a transição de John Morgan da condição de objeto para a de sujeito dentro daquela cultura.

Na lógica da metáfora do Professor José Geraldo, é o momento em que a "caravela" deixa de ser um borrão incompreensível e ganha um significado concreto para quem observa.

O ritual elimina a barreira linguística: o sacrifício físico é uma linguagem que a tribo entende perfeitamente.

Ao se submeter aos ganchos peitorais, Morgan comunica valores que são caros àquela sociedade: coragem, resistência e devoção.

A dor torna-se a ponte cognitiva que faltava.

Essa dinâmica de renascimento e quebra da invisibilidade cultural antecipa em décadas a estrutura central de Avatar (2009). No filme de James Cameron, o protagonista Jake Sully — um fuzileiro naval enviado para infiltrar-se no povo nativo de outro planeta (os Na'vi) — vive uma jornada idêntica à de John Morgan. Jake também inicia sua trajetória como um elemento "cego" e, ao mesmo tempo, invisível: para os militares humanos, os nativos são apenas obstáculos ao lucro; para os nativos, Jake é um "idiota" sem alma que não sabe "enxergar" a floresta.

Os humanos em Avatar sofrem da exata cegueira descrita pelo Professor José Geraldo. Ao olharem para as árvores sagradas de Pandora, enxergam apenas "madeira" e "minério". Falta-lhes a cognição necessária para processar a inteligência biológica do planeta, pois não possuem o referencial cultural para compreendê-la. Para a lógica extrativista humana, a riqueza espiritual de Pandora é uma "caravela invisível" eles só veem o que o lucro permite enxergar.

A conexão entre as obras atinge seu ápice na frase ritualística "Eu vejo você" (Oel ngati kameie), usada insistentemente em Avatar. Para quem assiste, fica claro que não se trata de visão ótica, mas de uma visão epistemológica, significa: "Eu compreendo seu lugar no mundo e reconheço sua existência". Assim como Morgan só passa a existir como homem para os Sioux após a Dança do Sol, Jake Sully só é "visto" pelos Na’vi após submeter-se aos ritos locais e domar o seu Ikran - uma criatura alada que exige um elo neural e físico. Em ambos os filmes, o momento em que a "cegueira das caravelas" termina é o exato instante em que o "outro" deixa de ser um objeto ou um animal e passa a existir plenamente na mente do observador.

Em suma, Um Homem Chamado Cavalo permanece uma obra atemporal por capturar esse exato momento de choque. Ele nos lembra que o respeito e a visão plena do próximo só ocorrem quando expandimos nosso repertório mental para além de nossas próprias "caravelas". É uma experiência psicológica profunda sobre identidade, sobrevivência e o respeito conquistado pelo sacrifício; um filme sobre a dor de aprender a ver o que o preconceito e a limitação cognitiva insistem em ocultar.

 

¹ Servidora Pública, Analista Judiciário - Apoio Especializado - Psicologia no Tribunal Regional Federal da 1ª Região (TRF1). Psicóloga e Mestre em Psicologia do Desenvolvimento Humano no Contexto Social pela Universidade de Brasília (UnB). Graduanda em Direito pela Universidade de Brasília (UnB).

Este texto contou com a colaboração da Inteligência Artificial Gemini (Google) para o suporte na articulação teórica e estruturação narrativa.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

AVATAR. Direção: James Cameron. Produção: James Cameron e Jon Landau. Estados Unidos: 20th Century Fox, 2009. 1 DVD (162 min), son., color.

 

BRASIL. Congresso. Câmara dos Deputados. Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) - Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MST). Depoimento de José Geraldo de Sousa Júnior. Brasília, DF: Câmara dos Deputados, 14 jun. 2023. Disponível em: camara.leg.br. Acesso em: 29 abr. 2026.

 

GEMINI. Inteligência Artificial Gemini (Google): Suporte na articulação teórica e estruturação narrativa de resenha crítica. Resposta à consulta de Daniella Meira Lima em 29 abr. 2026.

 

JOHNSON, Dorothy M. Um homem chamado cavalo. In: JOHNSON, Dorothy M. Indian country. New York: Ballantine Books, 1953.

 

PAZ, Octavio. O labirinto da solidão. Tradução de Ari Roitman e Paulina Watch. 4. ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1999.

 

SOUSA JÚNIOR, José Geraldo de. O Direito achado na rua: concepção e prática. Rio de Janeiro: Lumen Juris, 2015.

 

Um homem chamado cavalo. Direção: Elliot Silverstein. Produção: Sandy Howard. Roteiro: Jack DeWitt. Intérpretes: Richard Harris, Manu Tupou, Corinna Tsopei e outros. Estados Unidos: Cinema Center Films, 1970. 1 DVD (114 min), son., color.