Verdade, gênero e Direito em O
Último Duelo
Ana
Letícia Tavares de Oliveira
Graduanda em Direito, Faculdade de
Direito da UnB, disciplina Pesquisa Jurídica
O ÚLTIMO DUELO.
Direção: Ridley Scott. Roteiro: Ben Affleck, Matt Damon e Nicole Holofcener.
Estados Unidos: 20th Century Studios, 2021. 1 filme (152 min), sonoro,
colorido.
Lançado em 2021, o filme
“O Último Duelo”, dirigido por Ridley Scott e roteirizado por Ben Affleck, Matt
Damon e Nicole Holofcener, adapta para o cinema a obra homônima de Eric Jager,
publicada em 2004. O livro é fundamentado em registros históricos coletados
pelo autor após a leitura de um relato medieval sobre a lendária disputa entre
os cavaleiros Jean de Carrouges e Jacques Le Gris, fato que o levou a escrever
a obra em questão. A história é baseada em acontecimentos reais, contudo, como
alerta o autor na nota que precede o prólogo, as fontes consultadas por vezes
se contradizem. Quando isso ocorre, Eric Jager recorre à imaginação para, em
suas palavras, “preencher alguns hiatos” (JAGER, 2004).
O filme retrata a
história do último duelo judicial por combate sancionado pelo Parlamento de
Paris, ocorrido no ano de 1386. A narrativa é dividida em três partes: “A
verdade segundo Jean de Carrouges”, “A verdade segundo Jacques Le Gris” e “A
verdade segundo Marguerite de Carrouges”. Sua estrutura segue o modelo do filme
japonês “Rashomon”, dirigido por Akira Kurosawa, ao apresentar os
acontecimentos por meio de diferentes perspectivas dos personagens, conforme
afirmaram os roteiristas Matt Damon e Nicole Holofcener em entrevista ao canal
“Collider Interviews” (DAMON; HOLOFCENER, 2021, 28s). Esse tipo de narrativa
costuma estar associado à ideia de que a verdade é subjetiva, uma vez que
demonstra como um mesmo acontecimento pode ser interpretado e lembrado de
maneiras distintas pelas pessoas que o vivenciaram. Nesse caso, entretanto, os
roteiristas optaram por seguir um caminho diferente, ainda que inspirados por
essa estrutura, o que transforma significativamente a forma como o espectador
compreende o julgamento retratado no filme.
Na primeira parte do
filme, intitulada “A verdade segundo Jean de Carrouges”, é apresentada a
trajetória do cavaleiro Jean de Carrouges, que lutou na Guerra dos Cem Anos ao
lado de seu amigo Jacques Le Gris, um escudeiro instruído e dotado de grande
influência na corte do conde Pierre d'Alençon. Com o passar dos anos, Le Gris
passa a receber favores, terras e prestígio graças às suas relações na corte,
enquanto Carrouges acumula frustrações decorrentes de derrotas políticas e
dificuldades financeiras. Nesse contexto, Carrouges casa-se com Marguerite de
Thibouville, uma jovem nobre, rica e inteligente que, conforme os costumes da
época, levaria terras como parte de seu dote. Contudo, devido à influência
exercida por Le Gris junto à corte, o feudo que Carrouges esperava obter por
meio do casamento é concedido ao antigo amigo, intensificando a rivalidade
entre os dois homens.
A partir desse momento,
inicia-se uma grande rivalidade entre os dois cavaleiros. Nesse contexto de
inimizade, Le Gris passa a demonstrar interesse por Marguerite, esposa de
Carrouges. Aproveitando-se da ausência do marido, que se encontrava em Paris,
ele dirige-se à residência do casal e estupra Marguerite. A cena é retratada de
maneira violenta e angustiante, evidenciando uma realidade vivenciada por
muitas mulheres da época e que, infelizmente, ainda encontra paralelos na
sociedade contemporânea. Após o ocorrido, Marguerite relata o crime ao marido
em busca de justiça pela violência sofrida. Carrouges, retratado como um marido
atencioso e compreensivo, acolhe o relato da esposa com aparente solidariedade
e demonstra disposição para responsabilizar o agressor. Em uma sociedade na
qual as mulheres possuíam pouca autonomia jurídica, cabia ao marido conduzir a
acusação, uma vez que o estupro era frequentemente compreendido não como uma
violência contra a mulher, mas como uma ofensa à honra e à autoridade de seu
guardião masculino.
Na segunda parte do
filme, intitulada “A verdade segundo Jacques Le Gris”, os acontecimentos são
recontados desde o início da narrativa até o julgamento, agora sob a perspectiva
do escudeiro. Embora os fatos centrais permaneçam os mesmos, pequenas
diferenças na forma como são apresentados evidenciam como indivíduos distintos
podem interpretar uma mesma situação de maneiras completamente divergentes. Na
visão de Le Gris, Marguerite demonstrava interesse por ele, de modo que a
relação entre ambos teria sido consensual, ainda que socialmente condenável por
configurar adultério. Mesmo após a acusação de estupro, o escudeiro mantém sua
versão dos fatos e nega ter cometido qualquer crime. O aspecto mais perturbador
dessa narrativa é que Le Gris não utiliza esse argumento apenas como estratégia
de defesa perante a justiça, mas parece genuinamente acreditar que suas ações
foram legítimas.
Na terceira parte do
filme, o modelo narrativo associado a “Rashomon”, no qual a verdade se dissolve
em perspectivas conflitantes, é parcialmente rompido. O capítulo recebe o
título de “A verdade segundo Marguerite de Carrouges”, contudo, ao ser
apresentado na tela, a palavra “verdade” é destacada de forma enfática,
indicando a intenção dos roteiristas de atribuir maior credibilidade à
narrativa de Marguerite. Ao estabelecer a perspectiva feminina como a versão
verdadeira dos acontecimentos, o diretor e os roteiristas demonstram grande
brilhantismo ao romper com a lógica tradicional que inspirou a obra, sugerindo
que a verdade pode, de fato, ser encontrada e que ela corresponde ao relato da
vítima.
É também a partir desse
momento que a imagem de Jean de Carrouges, criada ao longo do primeiro capítulo
desde sua própria perspectiva, passa a ser desconstruída. O homem honrado,
compreensivo e amoroso dá lugar a uma figura marcada pelo egoísmo, pelo orgulho
e pelo desejo de controle. Na cena em que Marguerite relata a violência
sofrida, Carrouges demonstra desconfiança em relação ao testemunho da esposa e
decide levar a acusação adiante não apenas em busca de justiça, mas também pela
oportunidade de restaurar sua honra e fortalecer sua posição social. Dessa
forma, o filme evidencia como, em uma sociedade patriarcal, até mesmo a busca
por justiça é subordinada aos interesses e ambições dos homens.
O filme é extremamente
impactante, pois retrata de forma crua as dificuldades enfrentadas pelas
mulheres na Idade Média. O sofrimento de Marguerite não se restringe ao
terrível estupro que sofreu, mas também à infelicidade de sua vida conjugal e à
impossibilidade de buscar justiça por conta própria. Marguerite não possuía
autonomia para recorrer diretamente às instituições de justiça, uma vez que as
mulheres eram severamente restringidas ao âmbito doméstico, sendo-lhes
atribuídas principalmente as funções de garantir a continuidade da linhagem
familiar e cuidar do lar. Em Feminismo e Política, os cientistas políticos
Flávia Biroli e Luis Felipe Miguel discutem como a exclusão das mulheres da
esfera pública constitui um dos mecanismos de perpetuação das desigualdades e
violências vivenciadas no âmbito privado, ao colocarem que:
“a
preservação da esfera privada em relação à intervenção do Estado e mesmo às
normas e aos valores majoritários na esfera pública significou, em larga
medida, a preservação de relações de autoridade que limitaram a autonomia das
mulheres.” (BIROLI e MIGUEL, 2014, p. 32)
O aspecto mais
significativo da trajetória de Marguerite é o fato de que, mesmo correndo o
risco de ser ridicularizada, desacreditada e punida, ela decide denunciar a
violência sofrida. Em entrevista à revista “Los Angeles Times”, o roteirista e
ator Matt Damon afirmou que a escolha de destacar a perspectiva de Marguerite
foi fundamental, especialmente por se tratar de uma época em que se esperava
que as mulheres permanecessem em silêncio (ZEMLER, 2021). O filme é impactante
não apenas por evidenciar como as mulheres foram historicamente excluídas dos
espaços públicos, conforme discutem Biroli e Miguel, mas também por demonstrar
sua capacidade de resistência diante das injustiças e sua disposição para
romper o silêncio que lhes era imposto.
Outro aspecto que torna
a obra tão bem construída é sua representação do Direito antes da modernidade.
Atualmente, o Direito está intrinsecamente relacionado às leis escritas e
formalmente reconhecidas pelo Estado. Entretanto, o filme transporta o
espectador para a Idade Média, período em que a maior parte da população não
sabia ler nem escrever e no qual não existiam constituições, como nos dias
atuais. Nesse contexto, o Direito se apresenta de forma bastante distinta da
contemporânea. Diante da acusação de estupro contra Le Gris, surge uma questão
fundamental: como determinar a verdade sem os instrumentos jurídicos modernos?
A resposta encontrada pela sociedade medieval é o duelo judicial. Le Gris e
Carrouges submetem-se a um combate no qual se acreditava que Deus revelaria a
verdade por meio da vitória de um dos cavaleiros. A derrota de Le Gris seria
interpretada como uma demonstração divina da veracidade da acusação feita por
Marguerite. Por outro lado, se saísse vencedor, ela seria considerada mentirosa
e condenada à morte na fogueira.
Embora o filme mostre a
existência de instituições políticas, como o Parlamento de Paris, bem como a
influência dos senhores feudais e da monarquia no desenrolar do julgamento, a
Igreja Católica e a palavra de Deus por ela transmitida são constantemente
retratadas como elementos centrais da ordem jurídica medieval. O tribunal não
trabalha com provas, perícias e argumentação jurídica nos moldes atuais, mas
fundamenta suas decisões em concepções religiosas. A lógica do duelo judicial
baseava-se na crença de que Deus não permitiria a vitória de um mentiroso, uma
vez que a justiça divina prevaleceria sobre os interesses humanos. Argumentos
dessa natureza seriam considerados incompatíveis com os critérios de
racionalidade jurídica adotados pelos sistemas contemporâneos. Durante o
julgamento, quando se descobre que Marguerite está grávida, é levantada a
hipótese de que a gravidez pressuporia algum grau de consentimento da mulher,
tornando impossível a concepção em decorrência de um estupro. Essa é uma das
cenas mais chocantes do filme, pois evidencia como crenças religiosas, valores
morais e conhecimentos limitados sobre o corpo humano influenciavam a
compreensão dos fatos jurídicos. Embora tais concepções pareçam absurdas sob a
ótica contemporânea, sua representação na obra permite compreender aspectos
importantes da formação histórica do Direito e das transformações que levaram
ao surgimento dos sistemas jurídicos modernos.
O filme O Último Duelo
é uma obra extremamente impactante e relevadora. Os roteiristas e o diretor
foram brilhantes ao utilizarem o modelo narrativo de Rashômon, promovendo
adaptações que evidenciam a importância da perspectiva feminina na compreensão
dos acontecimentos retratados. A obra demonstra grande profundidade ao abordar
as dificuldades enfrentadas pelas mulheres na época, como casamentos abusivos,
violência sexual e a impossibilidade de buscar justiça de forma autônoma, além
de retratar um sistema jurídico fortemente influenciado pela Igreja Católica. A
produção de Ridley Scott mostra-se extremamente relevante para os debates
contemporâneos sobre violência de gênero e para a compreensão da construção
histórica do Direito. Ao mesmo tempo, consegue envolver o espectador por meio
de uma narrativa instigante e de atuações marcantes.
REFERÊNCIAS
BIBLIOGRÁFICAS
BIROLI, Flávia; MIGUEL,
Luis Felipe. Feminismo e política. São Paulo: Boitempo, 2014.
COLLIDER INTERVIEWS.
The Last Duel: Matt Damon and Nicole Holofcener on Using the Rashomon
Storytelling Device. YouTube, 3 nov. 2021. Disponível em:
https://www.youtube.com/watch?v=LVfvOB9uLrU. Acesso em: 9 jun. 2026.
JAGER, Eric. O último
duelo. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2021.
O ÚLTIMO duelo.
Direção: Ridley Scott. Roteiro: Ben Affleck, Matt Damon e Nicole Holofcener.
Estados Unidos: 20th Century Studios, 2021. 1 filme (152 min), son., color.
ZEMLER, Emily. Yes,
"The Last Duel" is a true story. Here's what's historical fact and
fiction. Los Angeles Times, 15 out. 2021. Disponível em:
https://www.latimes.com/entertainment-arts/movies/story/2021-10-15/last-duel-history-fact-fiction-affleck-damon.
Acesso em: 10 jun. 2026.
