domingo, 30 de agosto de 2026

 

A Globo e as Sabatinas do Presidente Lula e do Senador Flavio Bolsonaro

Por: José Geraldo de Sousa Junior (*) – Jornal Brasil Popular/DF

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Caio Suetônio Tranquilo foi um historiador, biógrafo e alto funcionário imperial romano. Nasce por volta de 70 d.C., ainda no governo de Vespasiano, em Hipona ou Roma. Família de ordem equestre, não senatorial. Sua carreira pública acontece sob Trajano (98-117) e Adriano (117-138). Foi secretário imperial ab epistulis – chefe da correspondência e dos arquivos imperiais – de Adriano, por volta de 121-122 d.C. É isso que dá acesso dele aos arquivos de Augusto, cartas pessoais de César, testamentos, processos.

É desse material que Suetônio extrai os elementos de suas crônicas, e o faz criando um modelo que vai dominar toda a biografia até hoje. O modelo biográfico por species, não cronológico. Ele não está fazendo história no sentido de Tito Lívio ou Tácito. Ele está fazendo crônica biográfica. A expressão mais elaborada desse modelo, sua obra principal é De Vita Caesarum – A Vida dos Doze Césares, escrita entre 119 e 122, em algumas edições também chamada A Vida Escandalosa dos 12 Césares.

O sentido estilístico da obra se apoia numa estrutura cujas categorias, não se baseiam em linha do tempo, mas em registros biográficos, dos personagens, os césares, sua origem e ancestralidade, os hábitos cotidianos o que comiam, como dormiam, vícios sexuais. Mesmo no âmbito público, feitos, guerras, obras, o registro é sobre como morreram, que prodígios realizaram, seus testamentos. Um prontuário de um césar. Daí vem a expressão “vida suetoniana“.

Sobressai o gosto pelo anedótico e pelo privado. Para os historiadores clássicos, a história era res publica. Para Suetônio, a história é o detalhe íntimo que revela o caráter. Ele troca o discurso político pela fofoca documentada. O que César fazia na cama, quanto Calígula bebia, se Nero cantava desafinado. É um estilo anticlassicista, sensacionalista e colecionista de curiosidades – o que os romanos chamavam de curiositas. Isso tem uma função política. Mostrar que o poder absoluto corrompe a natureza humana. O monstro privado explica o tirano público.

O sentido estilístico de Suetônio é traçar a biografia moderna como inventário moral do homem por trás do poder. Ele abandona a cronologia épica da historiografia para criar a crônica do caráter, onde o detalhe banal e escandaloso vale mais que a batalha.

Confesso que não pude deixar de surpreender o modelo de Suetônio, na estrutura de debate que a Globo faz a pretexto de sabatinar candidatos à presidência da República. A ênfase no escândalo, no moral, no caráter, na ideologia ao invés da dimensão programática das candidaturas e de projetos de sociedade.

Para mim, apesar da performance dos jornalistas e até por causa deles, ficou evidente a troca da estrutura programática pela estrutura de caráter.  As perguntas, as ênfases, a postura, se voltam por inteiro para focalizar a vida do entrevistado, que postula a governança, dividindo-a em cortes morais. O que importa não é o que ele construiu, mas quem ele é. Seus hábitos, sexualidade, vícios, os sinais de caráter, temperamento, conduta escandalosa. O objetivo? Levar o público a julgar o pleiteante à governança pela adequação moral, não pelo projeto de Estado.

Me chamou a atenção, artigo de Luis Nassif publicado no dia 27 (https://www.ihu.unisinos.br/670239-a-imprensa-quer-eleger-flavio-bolsonaro-artigo-de-luis-nassif), lembrando que enquanto “Há dois projetos de país em curso: um democrático e outro capaz de destruir qualquer veleidade de construção de uma Nação minimamente civilizada”, o que deveria estar na agenda de avaliação é o que significa “abrir mão de qualquer propósito de industrialização, de avanço tecnológico e de políticas de inclusão. A lógica colonial é a extração de riquezas e de matérias-primas (terras raras, alimentos sem processamento, minérios) para processamento nos Estados Unidos”; o que “Significa fechar definitivamente o mercado de trabalho para os filhos da classe média, com a extinção de postos na engenharia, na indústria e no comércio e destruir as políticas de inclusão dos filhos das classes pobres”; portanto, como nos posicionarmos, inclusive em face das candidaturas, diante de um mundo e do Brasil que “enfrentam um momento de ruptura provocado por novas tecnologias, a desconstrução das sociedades por uma financeirização feroz e, agora, pela extração de riqueza pelas plataformas, trazem uma enorme incógnita pela frente”.

Percebo que num modelo de sabatina, em formato de debate televisivo de emissora aberta, uma exigência do próprio meio – tempo curto, audiência massiva, necessidade de conflito – a entrevista tendente a reproduzir a mesma lógica – da coisa pública para os mores – desvia o debate sobre projeto de sociedade, modelo econômico, política externa, e entra a pergunta sobre passado pessoal, processo judicial, declaração polêmica, contradição familiar ou religiosa. Escapa da cronologia para a anedota. Como em Suetônio, vale mais o flagrante moral, a frase fora de contexto, o escândalo sexual ou financeiro, do que a exposição sistemática de um programa de governo. O diz-se (dicitur) de Suetônio vira o “é verdade que…?” da sabatina.

Em Suetônio, Calígula é cruel no governo porque é perverso na alcova. Na sabatina suetoniana, o candidato será um mau gestor porque tem um defeito de caráter. O pessoal explica o político. Por que isso acontece? Não é só escolha ideológica da emissora, é lógica do formato. Debate programático exige tempo longo, dados e abstração. Debate suetoniano gera identificação imediata, emoção e clivagem moral. É mais televisivo. A crítica que se faz – tanto à direita quanto à esquerda – é justamente essa. Quando a sabatina segue esse modelo, o eleitor sai sabendo tudo sobre o caráter do candidato e quase nada sobre o que ele vai fazer com o orçamento, com o SUS, com o Banco Central, com o Mercosul, com o Banco Master, com o Lulinha, com o Dark Horse, com o tarifaço, com o BRICS e como assegurará a soberania do país. É a transformação da política em biografia moral escandalosa.

Voltando ao artigo de Nassif, no que ele interpela a mídia, a sua questão é a de saber o quanto esse modelo, oculta que “estamos prestes a ingressar na mais decisiva luta política da história, aquela que marcará o destino do país, como nação autônoma ou como uma possessão dos Estados Unidos, um Porto Rico com mais riquezas minerais”, especialmente quando o “mundo atravessa uma mudança estrutural e colocou o Brasil em uma encruzilhada definitiva: a democracia ou a barbárie”.

Acompanhei as entrevistas do Presidente Lula e do Senador Flávio Bolsonaro na Globo, numa pauta preparada para exumar sua subjetividade quando nomeados assepticamente como candidatos, na maneira como o roteiro designava os entrevistados, para aferir o que seria o seu argumento oculto. E este artigo é um modo de organizar minha participação em transmissão do Diário do Centro do Mundo – DCM (Sabadão do DCM), numa conversa com seu âncora professor Adriano Viaro, sobre as entrevistas, conforme https://www.youtube.com/watch?v=tWi4SHPaYZQ.

Para mim, o que se pode designar em termos explicativos do enredo da sabatina, independentemente das posições dos entrevistados, está em percebê-la como uma forma de representar não os interesses da cidadania, mas os interesses do mercado? Mas o que é hoje o mercado, num sistema mundo financeirizado e conduzido pelos negócios. Por trás da crise de Gaza, negociadores norte-americanos que são empresários e querem desenvolver planos imobiliários; ou, à luz dos mais recentes inquéritos no Brasil, a identificação de uma formidável infiltração nos sistemas financeiros nacional e internacional, do crime organizado?

No debate político atual, “mercado” deixou de ser aquele conceito do manual de economia – lugar neutro de troca entre oferta e demanda, um mecanismo que precifica juros, câmbio, risco. Quando o jornal diz “o mercado reagiu mal“, está falando de um conjunto de operadores financeiros que calculam rentabilidade futura do Estado. É real, mas é só a camada de superfície.

Ou mercado como forma de poder no capitalismo financeirizado, o sentido que mais importa hoje, no sistema-mundo pós-1970, organizado como centro da acumulação que saiu da fábrica para a finança. O que chamamos de mercado é um bloco de gestores de ativos – fundos de investimento, bancos de investimento, seguradoras, private equity – que controlam mais PIB que muitos países. Um sistema no qual tudo vira ativo negociável. Terra, dívida pública, moradia, dado, guerra, reconstrução. O lucro não vem mais só de produzir mercadoria, mas de extrair renda de um ativo. Por isso o mercado não é ” “fora” do Estado. Ele é dentro do Estado, precificando o Estado o tempo todo. O Estado financia sua dívida no mercado, o mercado precisa do Estado para garantir contratos e propriedade.

Além disso, ainda seguindo Nassif, um mercado como rede híbrida – legal, cinza e ilegal. Veja-se, por exemplo Gaza e os negociadores-empresários incluindo arranjos nepotistas. É o que a geografia crítica chama de acumulação por espoliação e reconstrução. Um território destruído vira uma fronteira de valorização. Um negociador que é empresário não está em contradição. Ele está operando exatamente na lógica do mercado financeiro atual. A guerra produz um vazio fundiário, o vazio é lido como “oportunidade imobiliária, resort, corredor logístico“. Não é cinismo individual, é a forma como o capital vê o espaço hoje.

No Brasil, mostra Nassif, com a infiltração do crime organizado no sistema financeiro, conforme os inquéritos recentes da PF, COAF e MP sobre PCC/escritórios do crime mostram esse outro lado. Quando o sistema financeiro é global, digital e baseado em volume de transações, a distinção entre dinheiro lícito e ilícito fica técnica, não moral. Fintechs, fundos de investimento, corretoras de cripto, factoring, mercado de combustíveis e de apostas viram vasos comunicantes. O crime não está “infiltrado” no mercado como um corpo estranho. Ele usa a mesma infraestrutura de intermediação financeira que o mercado legal usa.

Num debate político, quando alguém diz “defender o mercado” ou “combater o mercado“, é preciso perguntar o que é o mercado e de qual mercado estamos falando?  A discussão passa a ser sobre quem manda no projeto de desenvolvimento – o Estado ou a carteira de ativos; e em última análise, sobre soberania mesmo – quem controla o território e o sistema de pagamentos.

Na estrutura e no roteiro da sabatina da Globo transparece uma adesão consciente ou inconsciente a uma narrativa que quer conduzir o debate numa fuga estrutural dessas questões que não é inocente porque deixa transparecer uma afinidade eletiva, partindo de uma emissora que é ela mesma um grande grupo econômico financeirizado, que faz naturalmente um roteiro onde o mercado é juiz, nunca réu.

Isso fica muito visível. O roteiro da sabatina da Globo News/ Jornal Nacional tem um quadro fixo de perguntas que são o vocabulário da sabaina: “Como o senhor vai fazer o mercado ter confiança?”; “Vai furar o teto de gastos? Vai dar calote?”; “Qual seu compromisso com o equilíbrio fiscal”? Nisso, “mercado” aparece como um ator externo, neutro e técnico, que precisa ser acalmado. O candidato não debate o que é o mercado, ele presta contas ao mercado. Essa é a sintonia direta. É a linguagem do agente financeiro que virou linguagem do jornalismo econômico.

Aqui mercado é poder. Dita a forma e ritmo da sabatina. Veja-se o tempo que é gasto em escândalo moral e caráter. Quase nunca entra na sabatina pergunta do tipo Qual sua política para os 5 fundos que detêm 40% da dívida pública?; Como regular private equity na saúde e educação?; Qual o limite da financeirização da moradia?. Ao focar no indivíduo e não na arquitetura de poder econômico, a sabatina mantém o debate na superfície. Não porque alguém mandou censurar, mas porque discutir as questões de fundo exige contradizer a própria fonte do telejornal – os analistas de mercado que são os comentaristas do telejornal.

Principalmente quando o tema, mesmo sob o verniz do econômico embala a sabatina, isto é, a perspectiva híbrida, cinza, da discussão sobre mercado, e introduz o tema do crime organizado no sistema financeiro, o que aparece aí é a questão como caso de polícia, não como questão econômica. Entra como: “operação da PF prendeu…”

Não entra “como o desenho do nosso sistema de fintechs, bets e fundos permite a lavagem?” O roteiro separa. De um lado, economia séria. Do outro, segurança pública. Impede o eleitor de conectar as duas coisas – que é exatamente o que os inquéritos atuais no Brasil estão mostrando, principalmente porque o jornalismo econômico brasileiro aprendeu a falar a língua do operador de mercado desde os anos 90, aderindo ao foco no caráter, no escândalo, na confiabilidade pessoal, e não no projeto de sociedade que se decide hoje.

Não é que a Globo seja contra discutir. É que a estrutura da sabatina não foi feita para discutir isso. A sabatina da Globo opera com um roteiro montado para que o mercado como precificador seja o árbitro. Isso aparece nas perguntas-padrão que se repetem em toda eleição desde 2002: “Vai respeitar o teto / arcabouço?”; “Como vai garantir confiança do mercado?”; “De onde vem o dinheiro?”. Aqui o “mercado” não é objeto de debate, é sujeito que julga o candidato. O candidato tem que se explicar para ele. Isso é uma escolha editorial consciente do jornalismo econômico de emissora aberta.

Afinal, parte de um sistema em que mercado forma um bloco de poder, do qual a emissora é também parte, a sabatina segue um roteiro muito consciente, de prevenir que entre no debate certos temas – fundos, rentismo, financeirização de saúde, educação, terra, reforma agrária, escala 6x 1. E não entra justamente porque o tempo foi ocupado pela estrutura suetoniana, vale dizer, caráter, escândalo, vida pregressa, contradição moral. É muito mais seguro para o formato perguntar “o senhor é honesto?” do que perguntar “qual sua política para quem detém a dívida pública brasileira?”. O primeiro gera corte, o segundo exige uma discussão de projeto que romperia a neutralidade técnica que a emissora quer passar. Essa é a adesão inconsciente. Ao transformar política em biografia moral, esvazia-se o debate de projeto econômico.

Crime organizado no sistema financeiro, quando aparece na Globo, aparece no editor de Polícia, não no de Economia. O roteiro não permite que o candidato seja sabatinado sobre como a arquitetura financeira – fintechs, bets, FIPs, cripto – viabiliza a lavagem. Se juntasse, teria que admitir que mercado legal e ilegal compartilham a mesma tubulação.

Bem que o presidente Lula, com a experiência acumulada de três mandatos e uma longa trajetória, além de seu carisma, soube escapar dessa artimanha e inserir no contexto da sabatina, conceitos firmes designativos de uma pauta de políticas e de um repositório de entregas, com impacto amplo no nacional e no internacional.

Ao Senador, sem biografia, enredado no arranjo privado do agir público, restou o silêncio de argumentação e a pobreza de realizações. Mas em todo caso, num modo de conforto, seja porque nada interpelante lhe foi proposto, seja porque no formato da sabatina, o método lhe protege, porque pode responder com bordões, com evasivas, reverberando o eco cameral algorítmico e, tal como li em várias análises, com muita, muita mentira.

https://www.folhademocrata.com.br/noticia/da-tragedia-do-poder-a-soberania-por-jose-geraldo

quinta-feira, 27 de agosto de 2026

 

Da tragédia do poder à soberania. Política internacional segundo o Corolário Donroe

Por: José Geraldo de Sousa Junior (*) – Jornal Brasil Popular/DF

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Shakespeare talvez tenha compreendido antes de muitos teóricos da política que o poder se torna particularmente perigoso quando deixa de sentir necessidade de parecer virtuoso. Ricardo III não perturba apenas pela ambição, sentimento demasiadamente comum entre os homens e quase constitutivo da política, mas pela desenvoltura com que transforma a ausência de escrúpulos em método de conquista e exercício do poder. Há um momento nas tragédias em que a máscara já não encobre o rosto. Passa a ser o próprio rosto. A dissimulação torna-se desnecessária porque a força adquiriu confiança suficiente para apresentar-se como virtude.

Não seria difícil reconhecer nessa antiga dramaturgia algo da perplexidade produzida pela política internacional segundo o Corolário Donroe. Não porque um presidente norte-americano possa ser simplesmente convertido em personagem shakespeariano, mas porque Shakespeare oferece tipos universais para compreender aquilo que a história incessantemente repõe sob novas formas. A ambição que se torna desmedida, o poder que exige adulação, o governante que confunde lealdade com submissão e, sobretudo, a corte que descobre méritos naquilo que ontem reconheceria como vício.

Mas Shakespeare não está sozinho nessa advertência. Muitos séculos antes dele, Santo Agostinho, em A Cidade de Deus, já havia formulado uma das perguntas mais desconcertantes da filosofia política ocidental. Retirada a justiça, que são os reinos senão grandes associações de ladrões? E ilustrou-a com o célebre encontro de Alexandre com o pirata capturado. Interrogado pelo imperador sobre com que direito levava desassossego aos mares, o pirata devolveu-lhe a acusação. Faço-o com meu pequeno barco aquilo que tu fazes com uma grande esquadra; porque o faço com uma embarcação, chamam-me ladrão; porque o fazes com uma frota, e desassossega-a a terra toda, chamam-te imperador.

Dezesseis séculos depois, a pergunta continua sem resposta satisfatória. A envergadura da esquadra modifica a natureza do ato?

Essa questão atravessa de maneira inquietante o nosso tempo. As relações internacionais não são necessariamente constituídas por desinteressada amizade entre os povos. Estados disputam mercados, territórios, tecnologias, recursos naturais, energia, rotas comerciais e posições estratégicas. Impérios sempre existiram e hegemonias não se estabelecem de modo inocente. Mas uma das grandes construções civilizatórias da modernidade consistiu precisamente em afirmar que nem mesmo a força basta a si própria. Criaram-se tratados, organizações internacionais, mecanismos multilaterais e princípios de reciprocidade, autodeterminação, não intervenção, solução pacífica dos conflitos e igualdade jurídica dos Estados. Não se aboliu o poder. Procurou-se submetê-lo ao direito, para assegurar previsibilidade e transmitir confiança.

O inquietante na nova política da força é justamente a tentativa de desfazer essa mediação. A assimetria volta a querer apresentar-se como argumento suficiente. Como disponho do maior mercado, portanto posso determinar condições; controlo instrumentos financeiros, portanto posso transformá-los em punição; possuo superioridade militar, portanto posso redesenhar as margens do admissível; por isso mesmo, reivindico o privilégio de definir quem são os piratas, os terroristas, os inimigos. E a régua da minha ação, não é o direito internacional, é minha própria moralidade.

Há nisso algo mais profundo que rudeza. Trata-se de uma concepção transacional e hierarquizada das relações internacionais na qual aliados se convertem em clientes, adversários em inimigos, tratados em negócios revogáveis e soberanias alheias em variáveis sujeitas à conveniência da potência predominante. A diplomacia perde progressivamente a qualidade de espaço da reciprocidade para adquirir a linguagem da cobrança. Quanto paga, quanto compra, quanto concede, quanto obedece.

Mas nenhuma hegemonia se sustenta apenas pela força daquele que manda. É nesse ponto que Étienne de La Boétie atravessa os séculos para encontrar Agostinho e Shakespeare. O enigma do Discurso da Servidão Voluntária não está em saber por que o poderoso deseja dominar. Está em compreender por que tantos se dispõem a servi-lo. O poder do tirano não termina em suas mãos; ramifica-se pelos interesses daqueles que esperam beneficiar-se de sua força. Formam-se círculos de favorecimento e dependência até que a obediência dispense a ordem. Chega-se então à forma talvez mais acabada da servidão voluntária. A obediência antecipada.

O cortesão já não espera saber o desejo do rei. Procura adivinhá-lo. O aliado subalternizado não aguarda a pressão da potência. Oferece previamente aquilo que imagina que ela exigirá. E atores internos de países soberanos podem chegar ao extremo de solicitar ao poder estrangeiro que intervenha, sancione, tarife ou constranja seu próprio país quando acreditam que disso resultarão vantagens para sua facção.

Shakespeare reconheceria a corte. La Boétie reconheceria o servo. Agostinho talvez perguntasse apenas quem, afinal, está conduzindo a esquadra.

Entretanto, a analogia literária possui um limite, e é justamente quando o alcançamos que a reflexão política precisa tornar-se mais grave. Porque as tragédias de Shakespeare terminam com cadáveres no palco; nas tragédias geopolíticas contemporâneas os cadáveres não são personagens. São pessoas.

Há um momento em que já não se pode falar apenas em retórica agressiva, imprevisibilidade diplomática ou transacionalismo internacional. Guerras, ocupações, deslocamentos forçados, bloqueios, fome utilizada como instrumento de pressão e populações civis submetidas a bombardeios transformam conceitos abstratos em corpos. A estatística, nesse ponto, não consegue disfarçar o despotismo espoliativo. Ao contrário, denuncia-o. Quando dezenas de milhares de mortos se acumulam, quando crianças passam a constituir parcelas aterradoras das vítimas, quando cidades são convertidas em escombros e multidões são privadas das condições elementares de sobrevivência, a linguagem asséptica dos “interesses estratégicos” torna-se moralmente insuficiente.

É nesse ponto que se desfaz também um dos mitos mais persistentes da ordem internacional contemporânea. O de que a hegemonia ocidental encontraria fundamento último numa superioridade ética decorrente da democracia, dos direitos humanos e do Estado de Direito. Esses valores possuem extraordinária importância civilizatória justamente porque deveriam limitar o poder de quem os proclama. Mas, quando direitos humanos valem para determinadas vítimas e tornam-se negociáveis diante de outras; quando o direito internacional é exigido dos adversários e relativizado para os aliados; quando a morte de populações inteiras é absorvida pela contabilidade dos interesses geopolíticos, já não estamos diante de uma ética universal. Estamos diante de uma moral seletiva administrada pela força. Um cadáver não se torna menos cadáver porque a bomba que o matou partiu do lado geopoliticamente conveniente. Uma criança soterrada não pergunta antes de morrer qual tratado de segurança justificava o explosivo. E nenhum cálculo estratégico consegue transformar os escombros sob os quais famílias inteiras desapareceram em argumento moralmente aceitável.

Aproximando-se da realidade brasileira hoje, vale ouvir um sermão do padre Antonio Vieira. No Sermão do Bom Ladrão, Vieira recupera precisamente o pirata de Agostinho e transforma a antiga indagação numa das mais fortes ironias de nossa língua: “o roubar pouco é culpa, o roubar muito é grandeza”. Se os pequenos roubam, são ladrões; quando os grandes pilham povos inteiros, o vocabulário do poder encontra nomes mais respeitáveis para a mesma apropriação. Vieira sabia que o domínio não se exerce apenas pelas armas. Exerce-se também pela capacidade de nomear.

Porque a coerção pode passar a chamar-se pressão diplomática; a ingerência, advertência; a sanção, correção; a subalternidade, pragmatismo. E quando forças políticas ou vozes midiáticas domésticas celebram a possibilidade de uma potência estrangeira constranger instituições brasileiras porque esperam obter vantagem contra adversários internos, a questão deixa de ser interpretação da realidade e passa a se constituir uma modalidade extrema de servidão voluntária quando alguém prefere ver seu país diminuído a ver seu adversário fortalecido.

É quando a soberania deixa de ser palavra antiga e recupera toda a sua densidade democrática. Não soberania como isolamento, autarquia ou hostilidade a um país ou a qualquer povo. O Brasil precisa dos Estados Unidos, da Rússia, da China, da Europa, da América Latina, da África, da Oceania e de todos os espaços de cooperação capazes de responder às emergências de nosso tempo, tal como os BRICS. Precisamente por isso necessita relacionar-se com eles como sujeito, não como vassalo.

Foi essa a dimensão que a palavra recuperou no discurso do presidente Lula à 80ª Assembleia Geral das Nações Unidas, ao afirmar a democracia e a soberania brasileiras como valores inegociáveis e recusar qualquer forma de tutela. A afirmação transcende um governo e encontra seu verdadeiro fundamento na Constituição, relevo para a independência nacional, a autodeterminação dos povos, a não intervenção, igualdade entre os Estados, defesa da paz, solução pacífica dos conflitos e cooperação entre os povos para o progresso da humanidade.

Soberania, nessa chave, não é licença para o mais forte fazer o que deseja dentro de suas fronteiras. Soberania é a condição jurídica e política pela qual povos livres podem cooperar sem converter interdependência em submissão. É também a condição do multilateralismo autêntico. Somente sujeitos que se reconhecem reciprocamente em sua dignidade podem construir regras comuns sem transformar a comunidade internacional numa corte organizada em torno do soberano mais poderoso, prevenindo que a ética do ocidente, ou o seu mito, sejam soterrados nos escombros de Gaza (https://brasilpopular.com/a-defesa-da-soberania-e-as-emergencias-do-nosso-tempo/).

Talvez possamos, então, retornar aos nossos antigos interlocutores. Shakespeare ensinou que a tragédia do poder não se explica apenas pelo rei, mas também pela corte que o cerca. La Boétie mostrou que a dominação necessita daqueles que aprendem a desejá-la. Agostinho perguntou que diferença moral existe entre o pequeno barco e a grande esquadra quando se retira a justiça. E Vieira, falando já desde uma experiência histórica que também constitui o Brasil, advertiu que o privilégio dos grandes começa justamente quando conseguem chamar de grandeza aquilo que nos pequenos seria reconhecido como rapina.

Talvez o mais inquietante não seja a existência do déspota, mas a transformação das mentalidades que tornam suportável servi-lo. Nenhuma sociedade está definitivamente imunizada pela cultura, pelo direito ou pela experiência democrática. Conquistas civilizatórias não são aquisições irreversíveis. O medo, o ressentimento, a insegurança e, sobretudo, o desejo de participar vicariamente da força do poderoso podem produzir uma espécie de anestesia ética.

La Boétie percebeu que o servo termina por desejar algo do poder que o submete; Shakespeare mostrou a corte descobrindo virtudes nos vícios do rei; Agostinho advertiu que a grandeza da ação correcional pode fazer esquecer a injustiça da pilhagem. O vórtice começa justamente aí. Primeiro tolera-se o aviltamento porque atinge o adversário; depois deslumbra-se com a força que o pratica; finalmente oferece-se a ela a própria lealdade. A renúncia patriótica apresenta-se então sob o nome de alinhamento, e a servidão, como pragmatismo. Pensando com Vieira vale advertir que a derradeira vitória do poder não consiste em obrigar alguém a ajoelhar-se, mas em convencê-lo de que estar de joelhos é uma posição de grandeza.