sábado, 5 de setembro de 2026

 

Advocacia e emancipação na perspectiva do trabalho. O fim da escala 6 x 1

Por: José Geraldo de Sousa Junior (*) – Jornal Brasil Popular/DF

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A convite da Associação Gaúcha da Advocacia Trabalhista – AGETRA, da Rede Lado e do Grupo de Pesquisa Trabalho e Capital da Universidade Federal do Rio Grande do Sul participei da sessão inaugural do Curso Direito do Trabalho Contemporâneo: Atuação Estratégica na Defesa do Trabalhador. E quero evocar uma circunstância que confere a este encontro significado especial.

Há quarenta e quatro anos, em 1982, Roberto Lyra Filho dirigiu-se precisamente à advocacia trabalhista gaúcha, a convite da AATRS e de seu então presidente, Tarso Genro, para realizar uma das mais instigantes intervenções de sua trajetória intelectual. Dessa conferência resultou o livro Direito do Capital e Direito do Trabalho, publicado pelo editor gaúcho Sergio Antonio Fabris, com cujo sele editorial publiquei também meus primeiros livros. Era outro Brasil. Vivíamos ainda sob a ditadura, mas o movimento sindical reaparecia vigorosamente, greves rompiam os limites impostos pelo regime, novos sujeitos políticos se organizavam e essas energias sociais desembocariam, poucos anos depois, no processo constituinte.

Por isso participar da sessão inaugural foi uma oportunidade para retornar a Lyra Filho, quando se completa 100 anos de seu nascimento (1926) e 40 de sua morte (1986) depois, portanto, da Constituição de 1988, da reforma trabalhista, da expansão da terceirização, da pejotização, da uberização e da plataformização do trabalho, quando a racionalidade econômica neoliberal penetra não apenas a legislação, mas a própria interpretação constitucional.  Por isso, podendo repetir a pergunta que atravessa sua reflexão. Avançamos, afinal, do Direito do Capital para o Direito do Trabalho?

Para Lyra Filho, Direito do Capital e Direito do Trabalho não designavam simplesmente dois ramos jurídicos, mas duas racionalidades sociais em conflito. O Direito do Capital é o direito da sociedade em que o trabalho permanece subordinado à acumulação, à apropriação privada de seus resultados e à desigual distribuição do poder econômico e social. O Direito do Trabalho, em seu horizonte mais radical, não é simplesmente o conjunto das normas da CLT. É o direito de uma sociedade emancipada da dominação do capital.

Por isso ele podia afirmar que ainda estamos muito distantes da sociedade em que todo o Direito seja Direito do Trabalho. Não pretendia transformar o Direito Civil ou Constitucional em capítulos da CLT. Dizia algo muito maior. Que uma sociedade verdadeiramente emancipada será aquela em que mulheres e homens não precisem alienar a própria dignidade para assegurar as condições materiais de sua existência.

Mas ainda vivemos no Direito do Capital. E é precisamente por isso que precisamos do Direito do Trabalho.

O Direito do Trabalho nasce dentro da sociedade capitalista e não elimina a relação capital-trabalho. Entretanto, introduz nela aquilo que o mercado jamais produziria espontaneamente.  Limites à mercantilização do ser humano. O mercado não inventou a jornada de oito horas. Não inventou férias, descanso semanal, salário mínimo, liberdade sindical ou direito de greve. Esses direitos não nasceram da racionalidade econômica. Nasceram da luta contra os efeitos dessa racionalidade.

Aqui se encontra a aproximação fundamental com aquilo que, na Universidade de Brasília, a partir da Nova Escola Jurídica Brasileira – NAIR de Roberto Lyra Filho, desenvolvemos como O Direito Achado na Rua. Antes de serem normas, os direitos foram conflitos. Antes de serem artigos de lei, foram reivindicações. Antes de entrarem nos códigos, estiveram nas ruas. Antes de serem reconhecidos pelo Estado, foram enunciados por sujeitos sociais capazes de dizer que aquilo que experimentamos como opressão não é destino; aquilo que nos apresentam como natural é injustiça; aquilo que nos é negado pode ser afirmado como direito.

Os trabalhadores arrancaram direitos ao capital. Arrancaram limites à jornada, associação, greve, férias, previdência, negociação coletiva. No Brasil, ajudaram a arrancar do processo constituinte uma Constituição que colocou os valores sociais do trabalho entre seus fundamentos e os direitos sociais no catálogo dos direitos fundamentais.

Uma das operações ideológicas mais eficientes do neoliberalismo consiste justamente em apagar essa memória. Quando desaparece a luta que produziu o direito, o direito social começa a parecer privilégio. Férias tornam-se custo. Descanso torna-se improdutividade. Sindicato torna-se obstáculo. Proteção torna-se burocracia. Em vez de elevar o desprotegido à condição daquele que possui direitos, rebaixa-se aquele que ainda possui direitos à condição do desprotegido.

É nesse terreno que aparecem os “dispositivos de reversibilidade dos direitos humanos do trabalho”, na forte formulação de José Eymard Loguércio, em tese para obter o seu doutorado na UnB. Não é necessário revogar formalmente um direito. Pode-se conservar a palavra e inverter-lhe o sentido, conservar a Constituição e modificar sua racionalidade interpretativa.

A Constituição afirma dignidade da pessoa humana, valores sociais do trabalho, redução das desigualdades e valorização do trabalho humano. Mas uma racionalidade econômica procura reorganizar esses fundamentos a partir da liberdade econômica, da autonomia privada, da eficiência e da competitividade. A questão constitucional decisiva passa a ser: qual desses conjuntos de valores organiza hermeneuticamente o outro? A Constituição econômica permanece submetida à Constituição social ou a Constituição social passa a ser reinterpretada segundo as exigências do mercado?

A terceirização, a prevalência do negociado sobre o legislado, a fragilização sindical e, dramaticamente, a pejotização tornam visível esse conflito. A liberdade muda de sujeito. Em lugar da liberdade do ser humano diante dos poderes que o subordinam, emerge a liberdade do agente econômico diante das normas que limitam seu poder. A terceirização aparece como liberdade empresarial; a pejotização, como liberdade contratual; a redução da proteção, como autonomia. O Direito do Capital aprendeu a falar a linguagem da liberdade.

Essa operação alcança uma nova intensidade no trabalho em plataformas. A fábrica não desapareceu, mas o capataz pode transformar-se em algoritmo. O relógio de ponto, em login. A punição, em redução de chamadas. A demissão, em desativação. O salário, em pagamento por tarefa. E o empregador procura desaparecer atrás da palavra plataforma. Quanto mais sofisticados se tornam os mecanismos de controle, mais se proclama que não existe subordinação.

Por isso uma das tarefas fundamentais da crítica jurídica contemporânea é trazer novamente o trabalhador à cena. O algoritmo fragmenta; a experiência comum pode reunir. A plataforma proclama milhares de empreendedores individuais; a experiência compartilhada começa a revelar milhares de pessoas submetidas às mesmas formas de controle. O sofrimento percebido coletivamente revela uma estrutura; a estrutura produz consciência; a consciência pode produzir organização; a organização produz reivindicação; e a reivindicação coletiva pode produzir direito.

É nesse ponto que a aprovação, pela Comissão de Constituição e Justiça do Senado, da proposta de fim da escala 6×1 adquire uma significação que ultrapassa largamente uma alteração técnica na duração do trabalho.

À primeira vista, poderíamos dizer que estamos diante de uma discussão sobre jornada. Não estamos. Ou, pelo menos, não estamos apenas diante disso. Tampouco se trata, fundamentalmente, de decidir se determinada escala é mais ou menos conveniente à produtividade, se empresas terão de reorganizar turnos ou se a economia absorverá os custos da mudança. Esses problemas existem e devem ser enfrentados. Mas eles não constituem o fundamento normativo da questão.

A disputa é sobre o tempo de vida. Quanto da existência humana pode legitimamente ser apropriado pelo trabalho? Quanto tempo precisa permanecer disponível para descanso, família, cuidado, cultura, educação, amizade, participação política, amor, convivência e ócio? Que sociedade produzimos quando seis dos sete dias da semana podem ser organizados prioritariamente pelas necessidades da produção?

A luta histórica pela redução da jornada nunca foi simplesmente uma luta por algumas horas a menos. Quando trabalhadores do século XIX reivindicavam limites para a duração do trabalho, afirmavam uma ideia civilizatória extraordinária. O capital não pode possuir integralmente o nosso tempo. Há uma dimensão da existência que não pode ser apropriada pelo contrato.

É essa mesma questão que retorna no século XXI. Não queremos voltar ao século XX. Queremos impedir que o século XXI restaure condições de exploração que as lutas do século XIX já haviam denunciado. E queremos produzir direitos capazes de responder às formas contemporâneas de exploração. O paradoxo de nosso tempo está precisamente em que sociedades dotadas de extraordinária capacidade tecnológica para elevar a produtividade podem simultaneamente recriar a disponibilidade quase integral do trabalhador, permanentemente conectado, convocável, avaliado por algoritmos, responsabilizado individualmente pelo risco e privado do tempo necessário à própria realização humana.

Por isso o fim da escala 6×1 não deve ser reduzido a uma questão de utilidade econômica. É uma questão de dignidade humana investida no trabalho digno. É uma disputa acerca do bem-viver. O Direito do Trabalho existe porque o contrato não pode dispor integralmente da vida. Há alguma coisa na pessoa que trabalha que não pode tornar-se mercadoria.

Esta a razão para na sessão inaugural do curso convocar a responsabilidade da advocacia trabalhista. Certamente precisamos de uma advocacia tecnicamente excelente, capaz de conhecer profundamente o processo, os precedentes, as provas, os recursos e as técnicas de litigância. Mas isso não basta. Se precedentes e interpretações constitucionais podem participar da transformação estrutural do Direito do Trabalho, a advocacia precisa perguntar também que concepção de sociedade está implícita numa decisão? Que ideia de trabalhador ela pressupõe? Que noção de liberdade mobiliza? Quais sujeitos foram ouvidos? Quais experiências permaneceram invisíveis?

A Constituição não pertence aos tribunais. Os tribunais são seus intérpretes institucionais, mas não seus porteiros ou síndicos. Trabalhadores, sindicatos, movimentos sociais e advocacia também são intérpretes da Constituição. Aqueles que lutam para realizar direitos que a Constituição promete e a realidade nega são, em sentido profundo, coautores permanentes do processo constitucional.

Uma advocacia emancipatória pode ajudar a transformar sofrimento silencioso em questão jurídica, questão individual em questão coletiva, aproximar sindicatos, movimentos sociais, universidades e instituições, construir estratégias de litigância e disputar a formação dos precedentes. Não fala no lugar do sujeito para silenciá-lo tecnicamente; cria condições para que sua voz ingresse na linguagem jurídica sem perder sua autonomia.

Retorno, então, a Roberto Lyra Filho e à belíssima metáfora com que conclui Direito do Capital e Direito do Trabalho. No parto do futuro, dizia ele, os juristas democratas não são a criança. A criança é a nova sociedade. Também não são os parteiros, porque o parteiro é o próprio povo trabalhador. Aos juristas cabe fabricar os berços, as mantas, o enxoval jurídico para aquilo que está nascendo, evitando que a dogmática reacionária os transforme em fabricantes de caixões e mortalhas.

Os juristas podem escolher de que lado trabalham. Podem construir categorias jurídicas capazes de acolher direitos que estão nascendo ou utilizar a dogmática para sepultá-los. Podem transformar a Constituição em instrumento de abertura emancipatória ou em técnica de legitimação da desigualdade.

A luta pelo fim da escala 6×1 oferece agora uma imagem extremamente concreta dessa escolha. O movimento social colocou novamente diante do Direito uma reivindicação que emerge da experiência real de milhões de trabalhadores. Trabalhar com dignidade, mas também viver. A aprovação da proposta na Comissão de Constituição e Justiça do Senado não encerra essa disputa; ao contrário, mostra o trânsito pelo qual uma experiência social de injustiça procura converter-se em reconhecimento constitucional.

É justamente esse trânsito que interessa a O Direito Achado na Rua. Passar da experiência da opressão à consciência da injustiça; da consciência à organização; da organização à reivindicação; da reivindicação à enunciação de novos direitos.

A advocacia trabalhista encontra aí uma responsabilidade histórica. Dar lastro jurídico à legitimidade dessa luta não significa substituir os trabalhadores que a produziram. Significa reconhecer juridicamente aquilo que a experiência social já tornou visível. O tempo de vida não pode ser inteiramente subordinado ao tempo do capital.

Ser estratégica, portanto, não é apenas saber vencer processos. É reconhecer onde o Direito está sendo produzido. Nos tribunais, certamente, mas também nos sindicatos, nas greves, nas ruas, nas pesquisas e nas novas formas de organização coletiva.

O trabalhador, mostrou Roberto Lyra Filho, e esse é também o programa de O Direito Achado na Rua, não é mero destinatário da Constituição. É sujeito constituinte permanente de seu sentido e de sua realização.

Ainda estamos sob o Direito do Capital, agora revestido de plataforma, algoritmo, empreendedorismo e falsa liberdade. Por isso a tarefa não é restaurar nostalgicamente o passado, mas impedir a reversão dos direitos conquistados e produzir os novos direitos de que necessitamos para enfrentar novas e antigas formas de exploração. Um trânsito emancipatório, na perspectiva democrática de um constitucionalismo achado na rua.

domingo, 30 de agosto de 2026

 

A Globo e as Sabatinas do Presidente Lula e do Senador Flavio Bolsonaro

Por: José Geraldo de Sousa Junior (*) – Jornal Brasil Popular/DF

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Caio Suetônio Tranquilo foi um historiador, biógrafo e alto funcionário imperial romano. Nasce por volta de 70 d.C., ainda no governo de Vespasiano, em Hipona ou Roma. Família de ordem equestre, não senatorial. Sua carreira pública acontece sob Trajano (98-117) e Adriano (117-138). Foi secretário imperial ab epistulis – chefe da correspondência e dos arquivos imperiais – de Adriano, por volta de 121-122 d.C. É isso que dá acesso dele aos arquivos de Augusto, cartas pessoais de César, testamentos, processos.

É desse material que Suetônio extrai os elementos de suas crônicas, e o faz criando um modelo que vai dominar toda a biografia até hoje. O modelo biográfico por species, não cronológico. Ele não está fazendo história no sentido de Tito Lívio ou Tácito. Ele está fazendo crônica biográfica. A expressão mais elaborada desse modelo, sua obra principal é De Vita Caesarum – A Vida dos Doze Césares, escrita entre 119 e 122, em algumas edições também chamada A Vida Escandalosa dos 12 Césares.

O sentido estilístico da obra se apoia numa estrutura cujas categorias, não se baseiam em linha do tempo, mas em registros biográficos, dos personagens, os césares, sua origem e ancestralidade, os hábitos cotidianos o que comiam, como dormiam, vícios sexuais. Mesmo no âmbito público, feitos, guerras, obras, o registro é sobre como morreram, que prodígios realizaram, seus testamentos. Um prontuário de um césar. Daí vem a expressão “vida suetoniana“.

Sobressai o gosto pelo anedótico e pelo privado. Para os historiadores clássicos, a história era res publica. Para Suetônio, a história é o detalhe íntimo que revela o caráter. Ele troca o discurso político pela fofoca documentada. O que César fazia na cama, quanto Calígula bebia, se Nero cantava desafinado. É um estilo anticlassicista, sensacionalista e colecionista de curiosidades – o que os romanos chamavam de curiositas. Isso tem uma função política. Mostrar que o poder absoluto corrompe a natureza humana. O monstro privado explica o tirano público.

O sentido estilístico de Suetônio é traçar a biografia moderna como inventário moral do homem por trás do poder. Ele abandona a cronologia épica da historiografia para criar a crônica do caráter, onde o detalhe banal e escandaloso vale mais que a batalha.

Confesso que não pude deixar de surpreender o modelo de Suetônio, na estrutura de debate que a Globo faz a pretexto de sabatinar candidatos à presidência da República. A ênfase no escândalo, no moral, no caráter, na ideologia ao invés da dimensão programática das candidaturas e de projetos de sociedade.

Para mim, apesar da performance dos jornalistas e até por causa deles, ficou evidente a troca da estrutura programática pela estrutura de caráter.  As perguntas, as ênfases, a postura, se voltam por inteiro para focalizar a vida do entrevistado, que postula a governança, dividindo-a em cortes morais. O que importa não é o que ele construiu, mas quem ele é. Seus hábitos, sexualidade, vícios, os sinais de caráter, temperamento, conduta escandalosa. O objetivo? Levar o público a julgar o pleiteante à governança pela adequação moral, não pelo projeto de Estado.

Me chamou a atenção, artigo de Luis Nassif publicado no dia 27 (https://www.ihu.unisinos.br/670239-a-imprensa-quer-eleger-flavio-bolsonaro-artigo-de-luis-nassif), lembrando que enquanto “Há dois projetos de país em curso: um democrático e outro capaz de destruir qualquer veleidade de construção de uma Nação minimamente civilizada”, o que deveria estar na agenda de avaliação é o que significa “abrir mão de qualquer propósito de industrialização, de avanço tecnológico e de políticas de inclusão. A lógica colonial é a extração de riquezas e de matérias-primas (terras raras, alimentos sem processamento, minérios) para processamento nos Estados Unidos”; o que “Significa fechar definitivamente o mercado de trabalho para os filhos da classe média, com a extinção de postos na engenharia, na indústria e no comércio e destruir as políticas de inclusão dos filhos das classes pobres”; portanto, como nos posicionarmos, inclusive em face das candidaturas, diante de um mundo e do Brasil que “enfrentam um momento de ruptura provocado por novas tecnologias, a desconstrução das sociedades por uma financeirização feroz e, agora, pela extração de riqueza pelas plataformas, trazem uma enorme incógnita pela frente”.

Percebo que num modelo de sabatina, em formato de debate televisivo de emissora aberta, uma exigência do próprio meio – tempo curto, audiência massiva, necessidade de conflito – a entrevista tendente a reproduzir a mesma lógica – da coisa pública para os mores – desvia o debate sobre projeto de sociedade, modelo econômico, política externa, e entra a pergunta sobre passado pessoal, processo judicial, declaração polêmica, contradição familiar ou religiosa. Escapa da cronologia para a anedota. Como em Suetônio, vale mais o flagrante moral, a frase fora de contexto, o escândalo sexual ou financeiro, do que a exposição sistemática de um programa de governo. O diz-se (dicitur) de Suetônio vira o “é verdade que…?” da sabatina.

Em Suetônio, Calígula é cruel no governo porque é perverso na alcova. Na sabatina suetoniana, o candidato será um mau gestor porque tem um defeito de caráter. O pessoal explica o político. Por que isso acontece? Não é só escolha ideológica da emissora, é lógica do formato. Debate programático exige tempo longo, dados e abstração. Debate suetoniano gera identificação imediata, emoção e clivagem moral. É mais televisivo. A crítica que se faz – tanto à direita quanto à esquerda – é justamente essa. Quando a sabatina segue esse modelo, o eleitor sai sabendo tudo sobre o caráter do candidato e quase nada sobre o que ele vai fazer com o orçamento, com o SUS, com o Banco Central, com o Mercosul, com o Banco Master, com o Lulinha, com o Dark Horse, com o tarifaço, com o BRICS e como assegurará a soberania do país. É a transformação da política em biografia moral escandalosa.

Voltando ao artigo de Nassif, no que ele interpela a mídia, a sua questão é a de saber o quanto esse modelo, oculta que “estamos prestes a ingressar na mais decisiva luta política da história, aquela que marcará o destino do país, como nação autônoma ou como uma possessão dos Estados Unidos, um Porto Rico com mais riquezas minerais”, especialmente quando o “mundo atravessa uma mudança estrutural e colocou o Brasil em uma encruzilhada definitiva: a democracia ou a barbárie”.

Acompanhei as entrevistas do Presidente Lula e do Senador Flávio Bolsonaro na Globo, numa pauta preparada para exumar sua subjetividade quando nomeados assepticamente como candidatos, na maneira como o roteiro designava os entrevistados, para aferir o que seria o seu argumento oculto. E este artigo é um modo de organizar minha participação em transmissão do Diário do Centro do Mundo – DCM (Sabadão do DCM), numa conversa com seu âncora professor Adriano Viaro, sobre as entrevistas, conforme https://www.youtube.com/watch?v=tWi4SHPaYZQ.

Para mim, o que se pode designar em termos explicativos do enredo da sabatina, independentemente das posições dos entrevistados, está em percebê-la como uma forma de representar não os interesses da cidadania, mas os interesses do mercado? Mas o que é hoje o mercado, num sistema mundo financeirizado e conduzido pelos negócios. Por trás da crise de Gaza, negociadores norte-americanos que são empresários e querem desenvolver planos imobiliários; ou, à luz dos mais recentes inquéritos no Brasil, a identificação de uma formidável infiltração nos sistemas financeiros nacional e internacional, do crime organizado?

No debate político atual, “mercado” deixou de ser aquele conceito do manual de economia – lugar neutro de troca entre oferta e demanda, um mecanismo que precifica juros, câmbio, risco. Quando o jornal diz “o mercado reagiu mal“, está falando de um conjunto de operadores financeiros que calculam rentabilidade futura do Estado. É real, mas é só a camada de superfície.

Ou mercado como forma de poder no capitalismo financeirizado, o sentido que mais importa hoje, no sistema-mundo pós-1970, organizado como centro da acumulação que saiu da fábrica para a finança. O que chamamos de mercado é um bloco de gestores de ativos – fundos de investimento, bancos de investimento, seguradoras, private equity – que controlam mais PIB que muitos países. Um sistema no qual tudo vira ativo negociável. Terra, dívida pública, moradia, dado, guerra, reconstrução. O lucro não vem mais só de produzir mercadoria, mas de extrair renda de um ativo. Por isso o mercado não é ” “fora” do Estado. Ele é dentro do Estado, precificando o Estado o tempo todo. O Estado financia sua dívida no mercado, o mercado precisa do Estado para garantir contratos e propriedade.

Além disso, ainda seguindo Nassif, um mercado como rede híbrida – legal, cinza e ilegal. Veja-se, por exemplo Gaza e os negociadores-empresários incluindo arranjos nepotistas. É o que a geografia crítica chama de acumulação por espoliação e reconstrução. Um território destruído vira uma fronteira de valorização. Um negociador que é empresário não está em contradição. Ele está operando exatamente na lógica do mercado financeiro atual. A guerra produz um vazio fundiário, o vazio é lido como “oportunidade imobiliária, resort, corredor logístico“. Não é cinismo individual, é a forma como o capital vê o espaço hoje.

No Brasil, mostra Nassif, com a infiltração do crime organizado no sistema financeiro, conforme os inquéritos recentes da PF, COAF e MP sobre PCC/escritórios do crime mostram esse outro lado. Quando o sistema financeiro é global, digital e baseado em volume de transações, a distinção entre dinheiro lícito e ilícito fica técnica, não moral. Fintechs, fundos de investimento, corretoras de cripto, factoring, mercado de combustíveis e de apostas viram vasos comunicantes. O crime não está “infiltrado” no mercado como um corpo estranho. Ele usa a mesma infraestrutura de intermediação financeira que o mercado legal usa.

Num debate político, quando alguém diz “defender o mercado” ou “combater o mercado“, é preciso perguntar o que é o mercado e de qual mercado estamos falando?  A discussão passa a ser sobre quem manda no projeto de desenvolvimento – o Estado ou a carteira de ativos; e em última análise, sobre soberania mesmo – quem controla o território e o sistema de pagamentos.

Na estrutura e no roteiro da sabatina da Globo transparece uma adesão consciente ou inconsciente a uma narrativa que quer conduzir o debate numa fuga estrutural dessas questões que não é inocente porque deixa transparecer uma afinidade eletiva, partindo de uma emissora que é ela mesma um grande grupo econômico financeirizado, que faz naturalmente um roteiro onde o mercado é juiz, nunca réu.

Isso fica muito visível. O roteiro da sabatina da Globo News/ Jornal Nacional tem um quadro fixo de perguntas que são o vocabulário da sabaina: “Como o senhor vai fazer o mercado ter confiança?”; “Vai furar o teto de gastos? Vai dar calote?”; “Qual seu compromisso com o equilíbrio fiscal”? Nisso, “mercado” aparece como um ator externo, neutro e técnico, que precisa ser acalmado. O candidato não debate o que é o mercado, ele presta contas ao mercado. Essa é a sintonia direta. É a linguagem do agente financeiro que virou linguagem do jornalismo econômico.

Aqui mercado é poder. Dita a forma e ritmo da sabatina. Veja-se o tempo que é gasto em escândalo moral e caráter. Quase nunca entra na sabatina pergunta do tipo Qual sua política para os 5 fundos que detêm 40% da dívida pública?; Como regular private equity na saúde e educação?; Qual o limite da financeirização da moradia?. Ao focar no indivíduo e não na arquitetura de poder econômico, a sabatina mantém o debate na superfície. Não porque alguém mandou censurar, mas porque discutir as questões de fundo exige contradizer a própria fonte do telejornal – os analistas de mercado que são os comentaristas do telejornal.

Principalmente quando o tema, mesmo sob o verniz do econômico embala a sabatina, isto é, a perspectiva híbrida, cinza, da discussão sobre mercado, e introduz o tema do crime organizado no sistema financeiro, o que aparece aí é a questão como caso de polícia, não como questão econômica. Entra como: “operação da PF prendeu…”

Não entra “como o desenho do nosso sistema de fintechs, bets e fundos permite a lavagem?” O roteiro separa. De um lado, economia séria. Do outro, segurança pública. Impede o eleitor de conectar as duas coisas – que é exatamente o que os inquéritos atuais no Brasil estão mostrando, principalmente porque o jornalismo econômico brasileiro aprendeu a falar a língua do operador de mercado desde os anos 90, aderindo ao foco no caráter, no escândalo, na confiabilidade pessoal, e não no projeto de sociedade que se decide hoje.

Não é que a Globo seja contra discutir. É que a estrutura da sabatina não foi feita para discutir isso. A sabatina da Globo opera com um roteiro montado para que o mercado como precificador seja o árbitro. Isso aparece nas perguntas-padrão que se repetem em toda eleição desde 2002: “Vai respeitar o teto / arcabouço?”; “Como vai garantir confiança do mercado?”; “De onde vem o dinheiro?”. Aqui o “mercado” não é objeto de debate, é sujeito que julga o candidato. O candidato tem que se explicar para ele. Isso é uma escolha editorial consciente do jornalismo econômico de emissora aberta.

Afinal, parte de um sistema em que mercado forma um bloco de poder, do qual a emissora é também parte, a sabatina segue um roteiro muito consciente, de prevenir que entre no debate certos temas – fundos, rentismo, financeirização de saúde, educação, terra, reforma agrária, escala 6x 1. E não entra justamente porque o tempo foi ocupado pela estrutura suetoniana, vale dizer, caráter, escândalo, vida pregressa, contradição moral. É muito mais seguro para o formato perguntar “o senhor é honesto?” do que perguntar “qual sua política para quem detém a dívida pública brasileira?”. O primeiro gera corte, o segundo exige uma discussão de projeto que romperia a neutralidade técnica que a emissora quer passar. Essa é a adesão inconsciente. Ao transformar política em biografia moral, esvazia-se o debate de projeto econômico.

Crime organizado no sistema financeiro, quando aparece na Globo, aparece no editor de Polícia, não no de Economia. O roteiro não permite que o candidato seja sabatinado sobre como a arquitetura financeira – fintechs, bets, FIPs, cripto – viabiliza a lavagem. Se juntasse, teria que admitir que mercado legal e ilegal compartilham a mesma tubulação.

Bem que o presidente Lula, com a experiência acumulada de três mandatos e uma longa trajetória, além de seu carisma, soube escapar dessa artimanha e inserir no contexto da sabatina, conceitos firmes designativos de uma pauta de políticas e de um repositório de entregas, com impacto amplo no nacional e no internacional.

Ao Senador, sem biografia, enredado no arranjo privado do agir público, restou o silêncio de argumentação e a pobreza de realizações. Mas em todo caso, num modo de conforto, seja porque nada interpelante lhe foi proposto, seja porque no formato da sabatina, o método lhe protege, porque pode responder com bordões, com evasivas, reverberando o eco cameral algorítmico e, tal como li em várias análises, com muita, muita mentira.

https://www.folhademocrata.com.br/noticia/da-tragedia-do-poder-a-soberania-por-jose-geraldo