quarta-feira, 6 de maio de 2026

 

Mapa-Múndi Invertido: o Brasil no centro do Mundo com o Sul no Topo

Por: José Geraldo de Sousa Junior (*) – Jornal Brasil Popular/DF

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O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) lançou um novo mapa-múndi invertido, trazendo o Brasil no centro do mundo e com o Sul no topo da imagem (https://agenciabrasil.ebc.com.br/geral/noticia/2025-05/ibge-lanca-mapa-mundi-invertido-com-sul-no-topo).

Conforme a matéria da Agência Brasil, o lançamento é feito no ano em que o país tem ativa participação nos debates e perspectivas do Sul Global e do cenário mundial, em especial por presidir o Brics e o Mercosul e receber a Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COP30), em Belém, na Amazônia.

O novo mapa também traz destacados os países que compõem o Brics, o Mercosul, os países de língua portuguesa e do bioma amazônico, a cidade do Rio de Janeiro, como capital do Brics, a cidade de Belém, como capital da COP30, e o Ceará como sede do Triplo Fórum Internacional da Governança do Sul Global – Novos Indicadores e Temas Estratégicos para o Desenvolvimento e a Sustentabilidade na Era Digital, em junho, em Fortaleza.

Segundo diretora do IBGE ouvida na matéria, há também um viés político relacionado a essa questão Norte-Sul. “Como historicamente os primeiros mapas foram feitos majoritariamente por europeus, atribui-se a colocação da Europa na parte superior do mapa como uma questão de reforço da superioridade da Europa em relação aos países localizados na porção sul. Isso, na verdade, trouxe protestos dos países do Sul, principalmente dos latino-americanos. Gostaria de enfatizar que mapas são representações do mundo real. Os mapas podem ser bonitos ou feios, podem ser simples ou mais complexos, mas são sempre representações”.

Ainda na matéria, o meu colega na UnB, professor Rafael Sânzio Araújo dos Anjos, do Departamento de Geografia da universidade, destaca que há 20 anos pesquisadores brasileiros já realizam mapas com essa nova perspectiva. “Em 2007, eu publiquei este mesmo mapa-múndi do IBGE pela UnB com um mundo de cabeça para baixo e um mundo com o Brasil no centro. A primeira constatação é que o IBGE está em um tempo, mas as pesquisas brasileiras estão em outro tempo. Isso mostra um gap. Esse mapa serve para a gente melhorar a nossa autoestima, é a autoestima da nação. O IBGE, ao trazer esta cartografia do Brasil no centro do mundo, mexendo no eixo Sul-Norte, é que dá oficialidade. Esse é o grande trunfo de uma publicação como essa, é oficial”.

Rafael ressalta que as representações gráficas do mundo a partir do século 16 vão mostrar visões de terras conhecidas com os mapas orientados para o Polo Norte. “Os europeus nos impuseram o mapa a partir do século 16. A Europa moderna começa a fortalecer os seus estados. É quando ela inicia a diáspora e vai enriquecer com a África, com a América, com o Novo Mundo, e o Brasil está nesse bojo. As imagens aparecem como verdade. Desmistificar esse processo é muito importante. Uma boa maneira de fazer é mostrar uma outra imagem”.

Nos habituamos acriticamente a ver o mundo pelo mapa de Mercator, criado em 1569 para facilitar a navegação. Ele preserva ângulos, mas distorce tamanhos, ampliando o Norte e reduzindo o Sul. Assim, regiões como Europa e América do Norte parecem maiores e mais centrais, enquanto África e América do Sul são visualmente diminuídas, reforçando a ideia de superioridade do Norte. Com o tempo, esse mapa deixou de ser apenas técnico e passou a transmitir uma visão de mundo.

Mas a partir de meados do século XX, no contexto das mobilizações por descolonização, começaram a ser elaborados mapas contra-hegemônicos que tentam questionar essa lógica. A projeção de Gall-Peters, dos anos 1970, mantém as áreas reais dos continentes, fazendo o Sul aparecer com seu verdadeiro tamanho, embora distorça as formas. A proposta é clara. É preferível distorcer a aparência do que perpetuar desigualdades simbólicas. Outros modelos, como o mapa invertido, simplesmente colocam o Sul no topo, mostrando que “em cima” e “embaixo” são convenções culturais. Já a projeção Dymaxion elimina a ideia de centro, representando o planeta como um todo contínuo.

Esses mapas revelam que toda representação do mundo envolve escolhas e, portanto, poder. Aliás, Jorge Luis Borges, no ensaio “O Idioma Analítico de John Wilkins“, publicado em 1942, afirmava que “Sabidamente não há classificação do universo que não seja arbitrária e conjectural”.  O mesmo se pode dizer da cartografia, que cuida de escalas e projeções. Nenhum mapa é neutro ou totalmente fiel à realidade, pois todos são projeções de uma esfera em um plano. Pensadores críticos lembram que trocar um modelo por outro não resolve tudo, já que ambos continuam presos a uma lógica de representação única.

Antes mesmo dessas projeções, povos indígenas já produziam mapas baseados em experiências locais, sem depender de noções como Norte fixo ou escala global. Isso mostra que a ideia de um único “mapa correto” é, em si, uma construção histórica.

Na arte, essa crítica aparece com força na obra “América Invertida”, de 1943, que coloca o Sul no topo e afirma “nosso norte é o Sul”. A proposta é rejeitar a centralidade europeia e afirmar uma perspectiva própria. Tanto essa obra quanto os mapas alternativos compartilham a mesma intenção, que é questionar hierarquias e mostrar que representar o mundo também é um ato político.

Aliás, exatamente agora, em Brasília, está instalada a exposição (CCBB) “Nosso Norte é o Sul” – Joaquín Torres Garcia. A propósito remeto à resenha América invertida: “Nosso Norte é o Sul”. Joaquín Torres García, Notas sobre uma Exposição, de Isabela Marques Resende Dias, granduanda do Curso de Direito da UnB, disciplina Pesquisa Jurídica (1º/2026) – https://odireitoachadonarua.blogspot.com/.

Na sua resenha ela afirma que “o artista percebeu o viés passageiro que a modernidade estava inclinada a seguir e decidiu criar a teoria artística do Universalismo Construtivo, que une o passado pré-colombiano (arte produzida pelos povos nativos das Américas, como Maias, Astecas e Incas), as vanguardas e os símbolos primitivos, com o objetivo de tornar a arte do presente intemporal‒ mesmo com o passar dos anos, ela mantém sua importância e conectividade com o momento vigente, transcendendo o tempo ‒, o que torna o atual, eterno” e, “a partir do pensamento de querer romper com o momento vigente, Torres García desenvolveu sua obra mais famosa, o mapa da América invertida, produzida em 1943, que traz consigo a mensagem: “Nosso Norte é o Sul”. Ao inverter o mapa, trocar o Norte pelo Sul, o artista declara a urgência de a América-Latina iniciar seu processo de emancipação e desvincular-se dos modelos europeus que moldam o mundo e afetam a América do Sul desde a divisão proposta pelo Tratado de Tordesilhas. O mapa-múndi tradicional, que utiliza a projeção de Mercator, vigente desde o século XVI, é eurocêntrico, uma vez que distorce o tamanho dos continentes, para que o hemisfério norte pareça maior e mais centralizado. Esse modelo pretende destacar a hegemonia europeia sobre as outras nações e, portanto, legitimar qualquer modelo que coloca esses povos como superiores”.

Ainda, segundo Isabela, “o artista pretende desfazer a ideologia de que a linha do Equador não divide o mundo apenas em 2 hemisférios, mas também entre o bem e o mal, o superior e o inferior, o desenvolvido e o subdesenvolvido. Torres García acreditava na implementação de uma cultura globalizada‒ cujo objetivo é superar a dependência cultural euro e etnocêntrica em vigor‒, por esse motivo, ele criou o desenho da América Invertida, que possui um viés decolonial e propõe o protagonismo da América do Sul no contexto geopolítico e da produção artística e cultural”, concluindo que “a partir dessa obra, alguns artistas utilizaram da mesma crítica para realizar outras produções.

Muito importante a iniciativa do IBGE. Não se trata de um modismo ou de uma bravata midiática. Antes, tal como localizado nas disposições cartográficas contra-hegemônicas e artísticas, do que se trata é de abrir um imaginário epistemológico e político para traçar mapas que desenhem rotas favoráveis para navegar entre os escolhos de territórios de dragões, da metáfora de Luís Alberto Warat, o grande filosófo argentino, meu orientador no doutorado.

Isabela Reis, sobre a exposição “Nosso Norte, é o Sul” , alude a parte dela apresentando outros artistas que utilizaram a mesma crítica para realizar outras produções, “como Jaime Lauriano, que idealizou a “America Meridionalis: invenção, epistemicídio, contrato social e genocídio”,2019 , que, ao utilizar mapas antigos, adotados na época das grandes navegações, o artista denuncia os instrumentos de dominação explorados pelos colonizadores com o objetivo de confrontar a narrativa única que perdurou na história por séculos, de que a ocupação europeia no território foi pacífica. Além disso, o autor, ao trabalhar com a ideia de uma imposição ocidental do saber, a qual rebaixa e apaga as outras formas de conhecimento, também critica a necropolítica‒ controle dos corpos, que define quem merece viver ou não de acordo com a raça”.

Em Warat, trata-se de dar significado aos desenhos dos cartógrafos do período europeu das navegações que, à falta de registros para assinalar rotas de longo curso, por “mares nunca dantes navegados”, além da Taprobana” (Camões, Os Lusíadas, Canto Primeiro, estrofe 1), faziam ilustrações de monstros, de leviatãs, de terríveis adamastores (Os Lusíadas, Canto V, estrofe 37 até estrofe 60).

Cartógrafos e artistas, a seu modo, tanto quanto geógrafos e estatísticos (Rafael Sânzio, IBGE), abrem horizontes cognitivos para mapas e murais, como pudemos ver os que acompanharam a exposição da coleção Oswaldo Guayasamin – numa curadoria denominada Continente Mestiço – a primeira vez que o acervo foi exposto fora do Equador, completo, para homenagear a UnB no seu jubileu (50 anos) em 2012.

A obra de Guayasamin registra seu testemunho sobre a fragilidade humana nos vários continentes por onde passou sem remeter exclusivamente a um único espaço ou período no tempo. Sua arte de protesto denuncia a desigualdade social como violação da própria condição de humanidade. “Quando Guayasamin grita o sofrimento dos sujeitos de todos os povos, sua voz é mais poderosa e incontida que a do rio Apurimac”, define o literato peruano José Maria Arguedas, em ode ao artista (https://estadodedireito.com.br/guayasamin-continente-mestico/).

(*) José Geraldo de Sousa Junior é professor titular na Faculdade de Direito e ex-reitor da Universidade de Brasília (UnB)

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