Como enxergar o que a nossa cultura não nos preparou para ver? Nesta
resenha, analiso o clássico cinematográfico Um Homem Chamado Cavalo (1970)
e sua conexão estrutural com o fenômeno Avatar (2009) sob a
lente da 'metáfora das caravelas', conceito de Octavio Paz evocado
pelo Professor José Geraldo de Sousa Júnior durante seu
depoimento na CPI do MST em junho de 2023. Uma reflexão sobre o
choque cultural, a invisibilidade do 'outro' e os ritos de passagem que
expandem a nossa cognição.
Quando o outro deixa de ser invisível: O despertar da cognição em Um
Homem Chamado Cavalo e Avatar
Daniella Meira Lima¹
Lançado em 1970, o filme Um Homem Chamado Cavalo é uma
obra que desafiou os clichês do faroeste ao trocar o tiroteio pela tentativa de
imersão antropológica, buscando retratar o modo de vida Sioux com um pouco mais
de autenticidade do que os faroestes clássicos da época. Para a época, a
produção foi revolucionária por utilizar diálogos em língua nativa e sem
legendas em vários momentos. Richard Harris entrega uma atuação visceral
como John Morgan, um aristocrata inglês que acaba encontrando um
destino brutal e transformador.
A produção baseia-se no conto homônimo de Dorothy M. Johnson,
publicado em 1950, que narra a luta de um homem para manter sua identidade
enquanto é reduzido à servidão. No entanto, o filme expande a narrativa de
Johnson ao transformar a resistência pragmática do conto em uma jornada espiritual
e psicológica de renascimento.
Capturado pelos Sioux enquanto caçava, Morgan é despido de sua
"civilidade" europeia para ser jogado em um mundo de regras
implacáveis. O filme nos transporta para dentro da aldeia, onde acompanhamos a
agonia de um homem que, de senhor de si, passa a ser um animal de carga —
tratado literalmente como um cavalo pela tribo.
O ponto de virada emocional ocorre por meio da relação de Morgan
com Erva Corça, interpretada por Corinna Tsopei. O que começa como
uma posse — Morgan a vê como uma chance de fuga e a tribo o vê como um escravo
indigno — floresce em um afeto genuíno que o obriga a querer não apenas
sobreviver, mas pertencer. Para desposá-la e ser aceito como um par, Morgan
precisa provar que não é mais um animal, mas um homem digno sob a ótica Sioux.
Essa desconstrução do protagonista permite conectar a obra à metáfora
epistemológica utilizada pelo Professor José Geraldo de Sousa
Júnior em seu depoimento na CPI do MST, em 14 de junho de 2023.
Ao evocar o pensamento de Octavio Paz, que dizia que os povos
originários não "viam" as caravelas. Essa ideia, às vezes chamada de
"o paradigma das caravelas" é usada para ilustrar como a percepção
humana é limitada pelo que conhecemos; se algo é completamente estranho à nossa
cultura, nossos olhos podem literalmente não "computar" aquela
imagem. A mente humana filtra e ignora o que é completamente estranho ao seu
repertório cultural. José Geraldo utilizou esse conceito para apontar que se
duas pessoas operam em planos cognitivos diferentes, elas estão em
"mundos" distintos e não conseguem enxergar os mesmos fatos.
O professor de certo modo também liga essa "cegueira" à forma
como populações marginalizadas são ignoradas pelas políticas públicas, que
focam apenas em indicadores financeiros e ignoram a dignidade humana, é o que
impede muitos de compreenderem o Direito Achado na Rua, que foca na produção
jurídica feita pelos movimentos sociais e não apenas no papel.
No filme, Morgan é essa "caravela": para os Sioux, ele não é
um lorde, mas um objeto sem humanidade reconhecível.
O despertar pela dor ocorre na icônica sequência da Dança do Sol (termo
traduzido no filme como Voto do Sol), um ritual de suspensão por
ganchos de osso que serve como a "chave" que rompe a barreira da
invisibilidade. É o amor por Erva Corça que o impulsiona a suportar o
insuportável. A dor física funciona como ponte cognitiva: para a tribo, o
sacrifício de Morgan finalmente dá "contorno" à sua humanidade. É o
momento em que a "caravela" ganha nome e significado. A
"cognição" Sioux não possuía categoria "nobreza europeia",
por isso Morgan era invisível em sua humanidade original e é rebaixado a
cavalo.
O interessante é que Morgan é quem sofria da "cegueira das
caravelas" no início. Ele olhava para os Sioux e via apenas
"selvagens". Ele não conseguia “enxergar" a complexidade da
estrutura social, religiosa e jurídica da tribo até que sua própria cognição
seja forçada a mudar pelo sofrimento e pela convivência.
No filme, Morgan só passa a "enxergar" a realidade quando abandona
seus códigos europeus.
Para John Morgan, o ritual funciona como uma "expansão de
consciência" forçada. Ele precisa abandonar sua lógica aristocrática, onde
o corpo é preservado e o status é herdado - para aceitar uma lógica onde o
status é conquistado pelo sofrimento.
Ele descobre um novo "Direito" e uma nova moralidade que não
estavam nos seus livros: o direito conquistado pelo rito, pela bravura e pela
inserção na comunidade.
A Dança do Sol é o momento em que a
"caravela" finalmente é vista: Morgan deixa de ser um objeto estranho
e passa a ter um lugar compreensível no quadro mental daquela sociedade.
O rito funciona como a "chave" de entendimento porque ele
opera a transição de John Morgan da condição de objeto para a de sujeito dentro
daquela cultura.
Na lógica da metáfora do Professor José Geraldo, é o momento em que a
"caravela" deixa de ser um borrão incompreensível e ganha um
significado concreto para quem observa.
O ritual elimina a barreira linguística: o sacrifício físico é uma linguagem
que a tribo entende perfeitamente.
Ao se submeter aos ganchos peitorais, Morgan comunica valores que são
caros àquela sociedade: coragem, resistência e devoção.
A dor torna-se a ponte cognitiva que faltava.
Essa dinâmica de renascimento e quebra da invisibilidade cultural
antecipa em décadas a estrutura central de Avatar (2009). No
filme de James Cameron, o protagonista Jake Sully — um fuzileiro naval enviado
para infiltrar-se no povo nativo de outro planeta (os Na'vi) — vive uma jornada
idêntica à de John Morgan. Jake também inicia sua trajetória como um elemento
"cego" e, ao mesmo tempo, invisível: para os militares humanos, os
nativos são apenas obstáculos ao lucro; para os nativos, Jake é um
"idiota" sem alma que não sabe "enxergar" a floresta.
Os humanos em Avatar sofrem da exata cegueira descrita
pelo Professor José Geraldo. Ao olharem para as árvores sagradas de Pandora,
enxergam apenas "madeira" e "minério". Falta-lhes a
cognição necessária para processar a inteligência biológica do planeta, pois
não possuem o referencial cultural para compreendê-la. Para a lógica
extrativista humana, a riqueza espiritual de Pandora é uma "caravela
invisível" eles só veem o que o lucro permite enxergar.
A conexão entre as obras atinge seu ápice na frase ritualística "Eu
vejo você" (Oel ngati kameie), usada insistentemente em Avatar.
Para quem assiste, fica claro que não se trata de visão ótica, mas de uma visão
epistemológica, significa: "Eu compreendo seu lugar no mundo e reconheço
sua existência". Assim como Morgan só passa a existir como homem para os
Sioux após a Dança do Sol, Jake Sully só é "visto" pelos Na’vi após
submeter-se aos ritos locais e domar o seu Ikran - uma
criatura alada que exige um elo neural e físico. Em ambos os filmes, o momento
em que a "cegueira das caravelas" termina é o exato instante em que o
"outro" deixa de ser um objeto ou um animal e passa a existir
plenamente na mente do observador.
Em suma, Um Homem Chamado Cavalo permanece uma obra
atemporal por capturar esse exato momento de choque. Ele nos lembra que o
respeito e a visão plena do próximo só ocorrem quando expandimos nosso
repertório mental para além de nossas próprias "caravelas". É uma
experiência psicológica profunda sobre identidade, sobrevivência e o respeito
conquistado pelo sacrifício; um filme sobre a dor de aprender a ver o que o
preconceito e a limitação cognitiva insistem em ocultar.
¹ Servidora Pública, Analista Judiciário - Apoio Especializado -
Psicologia no Tribunal Regional Federal da 1ª Região (TRF1). Psicóloga e Mestre
em Psicologia do Desenvolvimento Humano no Contexto Social pela Universidade de
Brasília (UnB). Graduanda em Direito pela Universidade de Brasília (UnB).
Este texto contou com a colaboração da Inteligência Artificial Gemini
(Google) para o suporte na articulação teórica e estruturação narrativa.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
AVATAR. Direção: James Cameron. Produção:
James Cameron e Jon Landau. Estados Unidos: 20th Century Fox, 2009. 1 DVD (162
min), son., color.
BRASIL. Congresso. Câmara dos Deputados. Comissão Parlamentar de
Inquérito (CPI) - Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MST). Depoimento
de José Geraldo de Sousa Júnior. Brasília, DF: Câmara dos Deputados, 14 jun.
2023. Disponível em: camara.leg.br. Acesso em: 29 abr. 2026.
GEMINI. Inteligência Artificial Gemini (Google): Suporte na
articulação teórica e estruturação narrativa de resenha crítica. Resposta à
consulta de Daniella Meira Lima em 29 abr. 2026.
JOHNSON, Dorothy M. Um homem chamado cavalo. In: JOHNSON,
Dorothy M. Indian country. New York: Ballantine Books, 1953.
PAZ, Octavio. O labirinto da solidão. Tradução de Ari
Roitman e Paulina Watch. 4. ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1999.
SOUSA JÚNIOR, José Geraldo de. O Direito achado na rua:
concepção e prática. Rio de Janeiro: Lumen Juris, 2015.
Um homem chamado cavalo. Direção: Elliot Silverstein.
Produção: Sandy Howard. Roteiro: Jack DeWitt. Intérpretes: Richard Harris, Manu
Tupou, Corinna Tsopei e outros. Estados Unidos: Cinema Center Films, 1970. 1
DVD (114 min), son., color.
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