quarta-feira, 6 de maio de 2026

 

Como enxergar o que a nossa cultura não nos preparou para ver? Nesta resenha, analiso o clássico cinematográfico Um Homem Chamado Cavalo (1970) e sua conexão estrutural com o fenômeno Avatar (2009) sob a lente da 'metáfora das caravelas', conceito de Octavio Paz evocado pelo Professor José Geraldo de Sousa Júnior durante seu depoimento na CPI do MST em junho de 2023. Uma reflexão sobre o choque cultural, a invisibilidade do 'outro' e os ritos de passagem que expandem a nossa cognição.

 

Quando o outro deixa de ser invisível: O despertar da cognição em Um Homem Chamado Cavalo e Avatar

Daniella Meira Lima¹

 

Lançado em 1970, o filme Um Homem Chamado Cavalo é uma obra que desafiou os clichês do faroeste ao trocar o tiroteio pela tentativa de imersão antropológica, buscando retratar o modo de vida Sioux com um pouco mais de autenticidade do que os faroestes clássicos da época. Para a época, a produção foi revolucionária por utilizar diálogos em língua nativa e sem legendas em vários momentos. Richard Harris entrega uma atuação visceral como John Morgan, um aristocrata inglês que acaba encontrando um destino brutal e transformador.

A produção baseia-se no conto homônimo de Dorothy M. Johnson, publicado em 1950, que narra a luta de um homem para manter sua identidade enquanto é reduzido à servidão. No entanto, o filme expande a narrativa de Johnson ao transformar a resistência pragmática do conto em uma jornada espiritual e psicológica de renascimento.

Capturado pelos Sioux enquanto caçava, Morgan é despido de sua "civilidade" europeia para ser jogado em um mundo de regras implacáveis. O filme nos transporta para dentro da aldeia, onde acompanhamos a agonia de um homem que, de senhor de si, passa a ser um animal de carga — tratado literalmente como um cavalo pela tribo.

O ponto de virada emocional ocorre por meio da relação de Morgan com Erva Corça, interpretada por Corinna Tsopei. O que começa como uma posse — Morgan a vê como uma chance de fuga e a tribo o vê como um escravo indigno — floresce em um afeto genuíno que o obriga a querer não apenas sobreviver, mas pertencer. Para desposá-la e ser aceito como um par, Morgan precisa provar que não é mais um animal, mas um homem digno sob a ótica Sioux.

Essa desconstrução do protagonista permite conectar a obra à metáfora epistemológica utilizada pelo Professor José Geraldo de Sousa Júnior em seu depoimento na CPI do MST, em 14 de junho de 2023. Ao evocar o pensamento de Octavio Paz, que dizia que os povos originários não "viam" as caravelas. Essa ideia, às vezes chamada de "o paradigma das caravelas" é usada para ilustrar como a percepção humana é limitada pelo que conhecemos; se algo é completamente estranho à nossa cultura, nossos olhos podem literalmente não "computar" aquela imagem. A mente humana filtra e ignora o que é completamente estranho ao seu repertório cultural. José Geraldo utilizou esse conceito para apontar que se duas pessoas operam em planos cognitivos diferentes, elas estão em "mundos" distintos e não conseguem enxergar os mesmos fatos.

O professor de certo modo também liga essa "cegueira" à forma como populações marginalizadas são ignoradas pelas políticas públicas, que focam apenas em indicadores financeiros e ignoram a dignidade humana, é o que impede muitos de compreenderem o Direito Achado na Rua, que foca na produção jurídica feita pelos movimentos sociais e não apenas no papel.

No filme, Morgan é essa "caravela": para os Sioux, ele não é um lorde, mas um objeto sem humanidade reconhecível.

O despertar pela dor ocorre na icônica sequência da Dança do Sol (termo traduzido no filme como Voto do Sol), um ritual de suspensão por ganchos de osso que serve como a "chave" que rompe a barreira da invisibilidade. É o amor por Erva Corça que o impulsiona a suportar o insuportável. A dor física funciona como ponte cognitiva: para a tribo, o sacrifício de Morgan finalmente dá "contorno" à sua humanidade. É o momento em que a "caravela" ganha nome e significado. A "cognição" Sioux não possuía categoria "nobreza europeia", por isso Morgan era invisível em sua humanidade original e é rebaixado a cavalo.

O interessante é que Morgan é quem sofria da "cegueira das caravelas" no início. Ele olhava para os Sioux e via apenas "selvagens". Ele não conseguia “enxergar" a complexidade da estrutura social, religiosa e jurídica da tribo até que sua própria cognição seja forçada a mudar pelo sofrimento e pela convivência.

No filme, Morgan só passa a "enxergar" a realidade quando abandona seus códigos europeus.

Para John Morgan, o ritual funciona como uma "expansão de consciência" forçada. Ele precisa abandonar sua lógica aristocrática, onde o corpo é preservado e o status é herdado - para aceitar uma lógica onde o status é conquistado pelo sofrimento.

Ele descobre um novo "Direito" e uma nova moralidade que não estavam nos seus livros: o direito conquistado pelo rito, pela bravura e pela inserção na comunidade.

Dança do Sol é o momento em que a "caravela" finalmente é vista: Morgan deixa de ser um objeto estranho e passa a ter um lugar compreensível no quadro mental daquela sociedade.

O rito funciona como a "chave" de entendimento porque ele opera a transição de John Morgan da condição de objeto para a de sujeito dentro daquela cultura.

Na lógica da metáfora do Professor José Geraldo, é o momento em que a "caravela" deixa de ser um borrão incompreensível e ganha um significado concreto para quem observa.

O ritual elimina a barreira linguística: o sacrifício físico é uma linguagem que a tribo entende perfeitamente.

Ao se submeter aos ganchos peitorais, Morgan comunica valores que são caros àquela sociedade: coragem, resistência e devoção.

A dor torna-se a ponte cognitiva que faltava.

Essa dinâmica de renascimento e quebra da invisibilidade cultural antecipa em décadas a estrutura central de Avatar (2009). No filme de James Cameron, o protagonista Jake Sully — um fuzileiro naval enviado para infiltrar-se no povo nativo de outro planeta (os Na'vi) — vive uma jornada idêntica à de John Morgan. Jake também inicia sua trajetória como um elemento "cego" e, ao mesmo tempo, invisível: para os militares humanos, os nativos são apenas obstáculos ao lucro; para os nativos, Jake é um "idiota" sem alma que não sabe "enxergar" a floresta.

Os humanos em Avatar sofrem da exata cegueira descrita pelo Professor José Geraldo. Ao olharem para as árvores sagradas de Pandora, enxergam apenas "madeira" e "minério". Falta-lhes a cognição necessária para processar a inteligência biológica do planeta, pois não possuem o referencial cultural para compreendê-la. Para a lógica extrativista humana, a riqueza espiritual de Pandora é uma "caravela invisível" eles só veem o que o lucro permite enxergar.

A conexão entre as obras atinge seu ápice na frase ritualística "Eu vejo você" (Oel ngati kameie), usada insistentemente em Avatar. Para quem assiste, fica claro que não se trata de visão ótica, mas de uma visão epistemológica, significa: "Eu compreendo seu lugar no mundo e reconheço sua existência". Assim como Morgan só passa a existir como homem para os Sioux após a Dança do Sol, Jake Sully só é "visto" pelos Na’vi após submeter-se aos ritos locais e domar o seu Ikran - uma criatura alada que exige um elo neural e físico. Em ambos os filmes, o momento em que a "cegueira das caravelas" termina é o exato instante em que o "outro" deixa de ser um objeto ou um animal e passa a existir plenamente na mente do observador.

Em suma, Um Homem Chamado Cavalo permanece uma obra atemporal por capturar esse exato momento de choque. Ele nos lembra que o respeito e a visão plena do próximo só ocorrem quando expandimos nosso repertório mental para além de nossas próprias "caravelas". É uma experiência psicológica profunda sobre identidade, sobrevivência e o respeito conquistado pelo sacrifício; um filme sobre a dor de aprender a ver o que o preconceito e a limitação cognitiva insistem em ocultar.

 

¹ Servidora Pública, Analista Judiciário - Apoio Especializado - Psicologia no Tribunal Regional Federal da 1ª Região (TRF1). Psicóloga e Mestre em Psicologia do Desenvolvimento Humano no Contexto Social pela Universidade de Brasília (UnB). Graduanda em Direito pela Universidade de Brasília (UnB).

Este texto contou com a colaboração da Inteligência Artificial Gemini (Google) para o suporte na articulação teórica e estruturação narrativa.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

AVATAR. Direção: James Cameron. Produção: James Cameron e Jon Landau. Estados Unidos: 20th Century Fox, 2009. 1 DVD (162 min), son., color.

 

BRASIL. Congresso. Câmara dos Deputados. Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) - Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MST). Depoimento de José Geraldo de Sousa Júnior. Brasília, DF: Câmara dos Deputados, 14 jun. 2023. Disponível em: camara.leg.br. Acesso em: 29 abr. 2026.

 

GEMINI. Inteligência Artificial Gemini (Google): Suporte na articulação teórica e estruturação narrativa de resenha crítica. Resposta à consulta de Daniella Meira Lima em 29 abr. 2026.

 

JOHNSON, Dorothy M. Um homem chamado cavalo. In: JOHNSON, Dorothy M. Indian country. New York: Ballantine Books, 1953.

 

PAZ, Octavio. O labirinto da solidão. Tradução de Ari Roitman e Paulina Watch. 4. ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1999.

 

SOUSA JÚNIOR, José Geraldo de. O Direito achado na rua: concepção e prática. Rio de Janeiro: Lumen Juris, 2015.

 

Um homem chamado cavalo. Direção: Elliot Silverstein. Produção: Sandy Howard. Roteiro: Jack DeWitt. Intérpretes: Richard Harris, Manu Tupou, Corinna Tsopei e outros. Estados Unidos: Cinema Center Films, 1970. 1 DVD (114 min), son., color.

 

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