domingo, 30 de agosto de 2026

 

A Globo e as Sabatinas do Presidente Lula e do Senador Flavio Bolsonaro

Por: José Geraldo de Sousa Junior (*) – Jornal Brasil Popular/DF

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Caio Suetônio Tranquilo foi um historiador, biógrafo e alto funcionário imperial romano. Nasce por volta de 70 d.C., ainda no governo de Vespasiano, em Hipona ou Roma. Família de ordem equestre, não senatorial. Sua carreira pública acontece sob Trajano (98-117) e Adriano (117-138). Foi secretário imperial ab epistulis – chefe da correspondência e dos arquivos imperiais – de Adriano, por volta de 121-122 d.C. É isso que dá acesso dele aos arquivos de Augusto, cartas pessoais de César, testamentos, processos.

É desse material que Suetônio extrai os elementos de suas crônicas, e o faz criando um modelo que vai dominar toda a biografia até hoje. O modelo biográfico por species, não cronológico. Ele não está fazendo história no sentido de Tito Lívio ou Tácito. Ele está fazendo crônica biográfica. A expressão mais elaborada desse modelo, sua obra principal é De Vita Caesarum – A Vida dos Doze Césares, escrita entre 119 e 122, em algumas edições também chamada A Vida Escandalosa dos 12 Césares.

O sentido estilístico da obra se apoia numa estrutura cujas categorias, não se baseiam em linha do tempo, mas em registros biográficos, dos personagens, os césares, sua origem e ancestralidade, os hábitos cotidianos o que comiam, como dormiam, vícios sexuais. Mesmo no âmbito público, feitos, guerras, obras, o registro é sobre como morreram, que prodígios realizaram, seus testamentos. Um prontuário de um césar. Daí vem a expressão “vida suetoniana“.

Sobressai o gosto pelo anedótico e pelo privado. Para os historiadores clássicos, a história era res publica. Para Suetônio, a história é o detalhe íntimo que revela o caráter. Ele troca o discurso político pela fofoca documentada. O que César fazia na cama, quanto Calígula bebia, se Nero cantava desafinado. É um estilo anticlassicista, sensacionalista e colecionista de curiosidades – o que os romanos chamavam de curiositas. Isso tem uma função política. Mostrar que o poder absoluto corrompe a natureza humana. O monstro privado explica o tirano público.

O sentido estilístico de Suetônio é traçar a biografia moderna como inventário moral do homem por trás do poder. Ele abandona a cronologia épica da historiografia para criar a crônica do caráter, onde o detalhe banal e escandaloso vale mais que a batalha.

Confesso que não pude deixar de surpreender o modelo de Suetônio, na estrutura de debate que a Globo faz a pretexto de sabatinar candidatos à presidência da República. A ênfase no escândalo, no moral, no caráter, na ideologia ao invés da dimensão programática das candidaturas e de projetos de sociedade.

Para mim, apesar da performance dos jornalistas e até por causa deles, ficou evidente a troca da estrutura programática pela estrutura de caráter.  As perguntas, as ênfases, a postura, se voltam por inteiro para focalizar a vida do entrevistado, que postula a governança, dividindo-a em cortes morais. O que importa não é o que ele construiu, mas quem ele é. Seus hábitos, sexualidade, vícios, os sinais de caráter, temperamento, conduta escandalosa. O objetivo? Levar o público a julgar o pleiteante à governança pela adequação moral, não pelo projeto de Estado.

Me chamou a atenção, artigo de Luis Nassif publicado no dia 27 (https://www.ihu.unisinos.br/670239-a-imprensa-quer-eleger-flavio-bolsonaro-artigo-de-luis-nassif), lembrando que enquanto “Há dois projetos de país em curso: um democrático e outro capaz de destruir qualquer veleidade de construção de uma Nação minimamente civilizada”, o que deveria estar na agenda de avaliação é o que significa “abrir mão de qualquer propósito de industrialização, de avanço tecnológico e de políticas de inclusão. A lógica colonial é a extração de riquezas e de matérias-primas (terras raras, alimentos sem processamento, minérios) para processamento nos Estados Unidos”; o que “Significa fechar definitivamente o mercado de trabalho para os filhos da classe média, com a extinção de postos na engenharia, na indústria e no comércio e destruir as políticas de inclusão dos filhos das classes pobres”; portanto, como nos posicionarmos, inclusive em face das candidaturas, diante de um mundo e do Brasil que “enfrentam um momento de ruptura provocado por novas tecnologias, a desconstrução das sociedades por uma financeirização feroz e, agora, pela extração de riqueza pelas plataformas, trazem uma enorme incógnita pela frente”.

Percebo que num modelo de sabatina, em formato de debate televisivo de emissora aberta, uma exigência do próprio meio – tempo curto, audiência massiva, necessidade de conflito – a entrevista tendente a reproduzir a mesma lógica – da coisa pública para os mores – desvia o debate sobre projeto de sociedade, modelo econômico, política externa, e entra a pergunta sobre passado pessoal, processo judicial, declaração polêmica, contradição familiar ou religiosa. Escapa da cronologia para a anedota. Como em Suetônio, vale mais o flagrante moral, a frase fora de contexto, o escândalo sexual ou financeiro, do que a exposição sistemática de um programa de governo. O diz-se (dicitur) de Suetônio vira o “é verdade que…?” da sabatina.

Em Suetônio, Calígula é cruel no governo porque é perverso na alcova. Na sabatina suetoniana, o candidato será um mau gestor porque tem um defeito de caráter. O pessoal explica o político. Por que isso acontece? Não é só escolha ideológica da emissora, é lógica do formato. Debate programático exige tempo longo, dados e abstração. Debate suetoniano gera identificação imediata, emoção e clivagem moral. É mais televisivo. A crítica que se faz – tanto à direita quanto à esquerda – é justamente essa. Quando a sabatina segue esse modelo, o eleitor sai sabendo tudo sobre o caráter do candidato e quase nada sobre o que ele vai fazer com o orçamento, com o SUS, com o Banco Central, com o Mercosul, com o Banco Master, com o Lulinha, com o Dark Horse, com o tarifaço, com o BRICS e como assegurará a soberania do país. É a transformação da política em biografia moral escandalosa.

Voltando ao artigo de Nassif, no que ele interpela a mídia, a sua questão é a de saber o quanto esse modelo, oculta que “estamos prestes a ingressar na mais decisiva luta política da história, aquela que marcará o destino do país, como nação autônoma ou como uma possessão dos Estados Unidos, um Porto Rico com mais riquezas minerais”, especialmente quando o “mundo atravessa uma mudança estrutural e colocou o Brasil em uma encruzilhada definitiva: a democracia ou a barbárie”.

Acompanhei as entrevistas do Presidente Lula e do Senador Flávio Bolsonaro na Globo, numa pauta preparada para exumar sua subjetividade quando nomeados assepticamente como candidatos, na maneira como o roteiro designava os entrevistados, para aferir o que seria o seu argumento oculto. E este artigo é um modo de organizar minha participação em transmissão do Diário do Centro do Mundo – DCM (Sabadão do DCM), numa conversa com seu âncora professor Adriano Viaro, sobre as entrevistas, conforme https://www.youtube.com/watch?v=tWi4SHPaYZQ.

Para mim, o que se pode designar em termos explicativos do enredo da sabatina, independentemente das posições dos entrevistados, está em percebê-la como uma forma de representar não os interesses da cidadania, mas os interesses do mercado? Mas o que é hoje o mercado, num sistema mundo financeirizado e conduzido pelos negócios. Por trás da crise de Gaza, negociadores norte-americanos que são empresários e querem desenvolver planos imobiliários; ou, à luz dos mais recentes inquéritos no Brasil, a identificação de uma formidável infiltração nos sistemas financeiros nacional e internacional, do crime organizado?

No debate político atual, “mercado” deixou de ser aquele conceito do manual de economia – lugar neutro de troca entre oferta e demanda, um mecanismo que precifica juros, câmbio, risco. Quando o jornal diz “o mercado reagiu mal“, está falando de um conjunto de operadores financeiros que calculam rentabilidade futura do Estado. É real, mas é só a camada de superfície.

Ou mercado como forma de poder no capitalismo financeirizado, o sentido que mais importa hoje, no sistema-mundo pós-1970, organizado como centro da acumulação que saiu da fábrica para a finança. O que chamamos de mercado é um bloco de gestores de ativos – fundos de investimento, bancos de investimento, seguradoras, private equity – que controlam mais PIB que muitos países. Um sistema no qual tudo vira ativo negociável. Terra, dívida pública, moradia, dado, guerra, reconstrução. O lucro não vem mais só de produzir mercadoria, mas de extrair renda de um ativo. Por isso o mercado não é ” “fora” do Estado. Ele é dentro do Estado, precificando o Estado o tempo todo. O Estado financia sua dívida no mercado, o mercado precisa do Estado para garantir contratos e propriedade.

Além disso, ainda seguindo Nassif, um mercado como rede híbrida – legal, cinza e ilegal. Veja-se, por exemplo Gaza e os negociadores-empresários incluindo arranjos nepotistas. É o que a geografia crítica chama de acumulação por espoliação e reconstrução. Um território destruído vira uma fronteira de valorização. Um negociador que é empresário não está em contradição. Ele está operando exatamente na lógica do mercado financeiro atual. A guerra produz um vazio fundiário, o vazio é lido como “oportunidade imobiliária, resort, corredor logístico“. Não é cinismo individual, é a forma como o capital vê o espaço hoje.

No Brasil, mostra Nassif, com a infiltração do crime organizado no sistema financeiro, conforme os inquéritos recentes da PF, COAF e MP sobre PCC/escritórios do crime mostram esse outro lado. Quando o sistema financeiro é global, digital e baseado em volume de transações, a distinção entre dinheiro lícito e ilícito fica técnica, não moral. Fintechs, fundos de investimento, corretoras de cripto, factoring, mercado de combustíveis e de apostas viram vasos comunicantes. O crime não está “infiltrado” no mercado como um corpo estranho. Ele usa a mesma infraestrutura de intermediação financeira que o mercado legal usa.

Num debate político, quando alguém diz “defender o mercado” ou “combater o mercado“, é preciso perguntar o que é o mercado e de qual mercado estamos falando?  A discussão passa a ser sobre quem manda no projeto de desenvolvimento – o Estado ou a carteira de ativos; e em última análise, sobre soberania mesmo – quem controla o território e o sistema de pagamentos.

Na estrutura e no roteiro da sabatina da Globo transparece uma adesão consciente ou inconsciente a uma narrativa que quer conduzir o debate numa fuga estrutural dessas questões que não é inocente porque deixa transparecer uma afinidade eletiva, partindo de uma emissora que é ela mesma um grande grupo econômico financeirizado, que faz naturalmente um roteiro onde o mercado é juiz, nunca réu.

Isso fica muito visível. O roteiro da sabatina da Globo News/ Jornal Nacional tem um quadro fixo de perguntas que são o vocabulário da sabaina: “Como o senhor vai fazer o mercado ter confiança?”; “Vai furar o teto de gastos? Vai dar calote?”; “Qual seu compromisso com o equilíbrio fiscal”? Nisso, “mercado” aparece como um ator externo, neutro e técnico, que precisa ser acalmado. O candidato não debate o que é o mercado, ele presta contas ao mercado. Essa é a sintonia direta. É a linguagem do agente financeiro que virou linguagem do jornalismo econômico.

Aqui mercado é poder. Dita a forma e ritmo da sabatina. Veja-se o tempo que é gasto em escândalo moral e caráter. Quase nunca entra na sabatina pergunta do tipo Qual sua política para os 5 fundos que detêm 40% da dívida pública?; Como regular private equity na saúde e educação?; Qual o limite da financeirização da moradia?. Ao focar no indivíduo e não na arquitetura de poder econômico, a sabatina mantém o debate na superfície. Não porque alguém mandou censurar, mas porque discutir as questões de fundo exige contradizer a própria fonte do telejornal – os analistas de mercado que são os comentaristas do telejornal.

Principalmente quando o tema, mesmo sob o verniz do econômico embala a sabatina, isto é, a perspectiva híbrida, cinza, da discussão sobre mercado, e introduz o tema do crime organizado no sistema financeiro, o que aparece aí é a questão como caso de polícia, não como questão econômica. Entra como: “operação da PF prendeu…”

Não entra “como o desenho do nosso sistema de fintechs, bets e fundos permite a lavagem?” O roteiro separa. De um lado, economia séria. Do outro, segurança pública. Impede o eleitor de conectar as duas coisas – que é exatamente o que os inquéritos atuais no Brasil estão mostrando, principalmente porque o jornalismo econômico brasileiro aprendeu a falar a língua do operador de mercado desde os anos 90, aderindo ao foco no caráter, no escândalo, na confiabilidade pessoal, e não no projeto de sociedade que se decide hoje.

Não é que a Globo seja contra discutir. É que a estrutura da sabatina não foi feita para discutir isso. A sabatina da Globo opera com um roteiro montado para que o mercado como precificador seja o árbitro. Isso aparece nas perguntas-padrão que se repetem em toda eleição desde 2002: “Vai respeitar o teto / arcabouço?”; “Como vai garantir confiança do mercado?”; “De onde vem o dinheiro?”. Aqui o “mercado” não é objeto de debate, é sujeito que julga o candidato. O candidato tem que se explicar para ele. Isso é uma escolha editorial consciente do jornalismo econômico de emissora aberta.

Afinal, parte de um sistema em que mercado forma um bloco de poder, do qual a emissora é também parte, a sabatina segue um roteiro muito consciente, de prevenir que entre no debate certos temas – fundos, rentismo, financeirização de saúde, educação, terra, reforma agrária, escala 6x 1. E não entra justamente porque o tempo foi ocupado pela estrutura suetoniana, vale dizer, caráter, escândalo, vida pregressa, contradição moral. É muito mais seguro para o formato perguntar “o senhor é honesto?” do que perguntar “qual sua política para quem detém a dívida pública brasileira?”. O primeiro gera corte, o segundo exige uma discussão de projeto que romperia a neutralidade técnica que a emissora quer passar. Essa é a adesão inconsciente. Ao transformar política em biografia moral, esvazia-se o debate de projeto econômico.

Crime organizado no sistema financeiro, quando aparece na Globo, aparece no editor de Polícia, não no de Economia. O roteiro não permite que o candidato seja sabatinado sobre como a arquitetura financeira – fintechs, bets, FIPs, cripto – viabiliza a lavagem. Se juntasse, teria que admitir que mercado legal e ilegal compartilham a mesma tubulação.

Bem que o presidente Lula, com a experiência acumulada de três mandatos e uma longa trajetória, além de seu carisma, soube escapar dessa artimanha e inserir no contexto da sabatina, conceitos firmes designativos de uma pauta de políticas e de um repositório de entregas, com impacto amplo no nacional e no internacional.

Ao Senador, sem biografia, enredado no arranjo privado do agir público, restou o silêncio de argumentação e a pobreza de realizações. Mas em todo caso, num modo de conforto, seja porque nada interpelante lhe foi proposto, seja porque no formato da sabatina, o método lhe protege, porque pode responder com bordões, com evasivas, reverberando o eco cameral algorítmico e, tal como li em várias análises, com muita, muita mentira.

https://www.folhademocrata.com.br/noticia/da-tragedia-do-poder-a-soberania-por-jose-geraldo

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