domingo, 19 de abril de 2026

 

O VENTO será a tua herança. Direção: Daniel Petrie. Roteiro: Nedrick Young e Harold Jacob Smith. Intérpretes: Jack Lemmon, George C. Scott, Beau Bridges e outros. Estados Unidos: MGM, 1999. 1 vídeo (113 min), son., color (resenha)

Sofia Gambirasi Costa Shiraish, discente na disciplina Pesquisa Jurídica, curso de graduação em Direito da Faculdade de Direito da Universidade de Brasília – UnB.

 A longa-metragem “O Vento Será a Tua Herança” apresenta a dicotomia da interpretação da lei vigente na cidade de Hillmore, em que o professor Carter é condenado à prisão por ensinar a teoria da evolução de Charles Darwin. Nesse cenário, o município de maioria fundamentalista contesta o ensino científico da teoria evolutiva dentro das salas de aula ao dar prevalência ao que está escrito em Gênesis, na Bíblia Sagrada. Como se não bastasse, vigora determinada lei que criminaliza a doutrina evolucionista fora da perspectiva sagrada. Com isso, o filme toma o partido central, que é o julgamento do docente a partir de duas visões: uma positivista, representada pelo Sr. Drummond, e outra conservadora, pelo Sr. Brandy.

O doutor Brandy, por abraçar a ideologia cristã do julgamento, é recebido com tanto clamor dentro da cidade que lhe é concedido título de prestígio pelo próprio prefeito. Porém, durante o julgamento, o Dr. Drummond enfrentou vários obstáculos que transcendiam a ausência de reconhecimento público, como: a objeção constante do réu, o indeferimento das testemunhas acadêmicas pelo juiz e a acusação de apelo à jactância. Apesar dessas dificuldades, Drummond consegue, no fim do julgamento, a absolvição quase que completa da defesa: Carter teria que pagar apenas 100 dólares pela violação do estatuto, com direito a recurso.

Nesse cenário, é essencial fazer a análise detalhada da obra, a respeito dos resquícios do juízo de Deus dentro do próprio estatuto da cidade de Hillmore, em que a doutrina cristã se faz presente na consciência popular da criação do mundo. Porém, a partir da noção científica de ensino em que os macacos seriam os ancestrais do homem, a história toma lados e questionamentos sobre qual seria a perspectiva correta sobre a origem do ser humano. Embora o julgamento da ordem divina tenha sido categoria do Direito antes da existência do Estado, ele ainda se faz presente na história, todavia incrustado na legislação e na consciência popular da cidade.

A repressão do pensamento científico pelo fanatismo religioso interfere no livre pensar do acadêmico, o que leva a uma situação de oclocracia em que a lei deixa de ser guiada pela razão e toma rumo de ser levada por paixões, preconceitos e pela vontade da massa manipulável. A chegada do doutor Drummond anuncia essa tentativa de rever se a lei vigente se enquadra como justa, pois a prisão do docente que anuncia a verdade do conhecimento do mundo natural revela-se desarrazoada. Principalmente quando se faz presente a democracia dentro do Estado contemporâneo, em que a capacidade humana de agir, pensar e julgar logicamente é o principal motor da história, dando menos espaço às convenções religiosas, como no período medieval.

No final do julgamento, o promotor Brady, além de perder a moralidade do caso, acaba por falecer em frente ao tribunal após a decisão judicial. Esse ato simboliza o próprio processo do desencantamento do mundo, de Max Weber (2006), em que a legitimidade religiosa passa por uma transição racional e científica, uma vez que o mundo e o pensamento humano estavam além daquela restrição. Tendo visto isso, Kant (2001) também argumenta na “Crítica da Razão Pura” que o uso da metafísica é insuficiente para “o seguro caminho da ciência”. A aplicação do provérbio “O que perturba a sua casa herda o vento” (BÍBLIA, 2017) no título não foi de forma isolada, uma vez que a obra salienta o vazio da própria retórica do Sr. Brady, ao tentar defender a fé por meio do ataque às ciências. Portanto, a postura política que defende a manutenção da instituição social religiosa acaba por perder espaço dentro do âmbito judicial. Logo, conclui-se que o ordálio não construiu um legado na sociedade contemporânea, mas uma convenção marcada por crenças que a razão posteriormente tomou espaço.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

 

Modelo: BÍBLIA. Bíblia Sagrada: Nova Almeida Atualizada. Barueri: Sociedade Bíblica do Brasil, 2017.

 

KANT, Immanuel. Crítica da Razão Pura. Tradução de Manuela Pinto dos Santos e Alexandre Fradique Morujão. Lisboa: Edição da Fundação Calouste Gulbenkian, 2001.

 

WEBER, Max. A Ciência como Vocação. In: Ciência e Política: duas vocações. Tradução de Leonidas Hegenberg e Octany Silveira da Mota. 12. ed. São Paulo: Cultrix, 2006.

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