Carta em Movimento
Gildemar da Paixão Trindade Irlanda, Dublin, 2026
Caro professor,
Escrevo esta carta em movimento entre o aeroporto que me recebeu, as ruas que me chamam e a universidade que me espera.
Quando cheguei, o vento gelado acariciou meu rosto e marcou meu primeiro contato com a Irlanda. A madrugada fria, gelada e chuvosa me convidou a adentrá-la. Um corpo mal agasalhado, mas ainda quente. As portas automáticas do aeroporto de Dublin se abriram antes mesmo da minha aproximação, parecia que elas já sabiam que, depois de atravessá-las, não haveria mais volta.
A educação me permitiu viver muitas experiências e conhecer lugares novos, sem sombra de dúvidas, foi uma das experiências mais marcantes. Pude sair pela primeira vez do quilombo para conhecer a capital da Bahia, Salvador, justamente para cursar minha primeira graduação. Os congressos me permitiram conhecer outras cidades do Brasil. Recentemente, conheci a capital do Brasil, Brasília, ao ser aprovado no programa de pós-graduação em Direito na Universidade de Brasília, na linha de pesquisa “O Direito Achado na Rua”. Conhecer outro país estava fora de cogitação, sobretudo pela dificuldade com a língua, mas, mais uma vez, a educação possibilitou essa experiência e cá estou em Dublin, na Irlanda.
As primeiras semanas foram difíceis . Milhares de quilômetros separavam meu corpo físico do calor do meu quilombo, Paramirim das Crioulas. O frio e o clima nunca antes experimentado trataram logo de desajustar minha saúde e me fizeram aquietar, rever, reajustar e me aquecer. Aproveitei esse tempo para pensar: o que vim fazer em Dublin?
Além das minhas obrigações com a University College Dublin (UCD), universidade que me recebe para meu período sanduíche, percebi que os espaços da rua, justamente a rua, com sua singularidade, seriam o ambiente para responder ao meu questionamento.
Na rua, tive a oportunidade de ver a diversidade cultural, étnica e racial que compõe a cidade de Dublin, com pessoas de todo canto do mundo. Foi na rua também que, a caminho da faculdade, presenciei pela primeira vez um protesto em solo irlandês. Máquinas agrícolas pesadas no centro de Dublin impediam o fluxo normal do trânsito, bagunçando a rotina e transformando o cotidiano. Nesse dia, não consegui chegar ao campus universitário, mas pude perceber que, neste país, assim como no Brasil, o “direito se faz em um processo de libertação” e que ele “nasce na rua, no clamor dos espoliados e oprimidos” (LYRA FILHO; SOUSA JÚNIOR). Naquele cenário, os agricultores buscavam um combustível mais barato, protestando pelo alto custo do combustível e viram na rua a possibilidade de garantir seus direitos de poder produzir, plantar e colher, nas terras frias de Dublin.
Centro de Dublin, Irlanda, 2026
Acervo do Autor 2026
Sigo nas ruas de Dublin e na universidade também, observando, aprendendo e acumulando experiências, pois sei que são esses espaços que me oferecerão possibilidades emancipatórias.
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