Universidade e pertencimento. Por causa da honra
Por: José Geraldo de Sousa Junior (*) – Jornal Brasil Popular/DF


Neste 28 de setembro, celebração de 58 anos da Universidade Estadual do Rio Grande do Norte – UERN, a grande celebração culminou com a outorga de títulos honoríficos, entre eles o de Doutor Honoris Causa, que me foi outorgado. A matéria sobre a sessão solene e a transmissão, a cargo da TV UERN podem ser conferidas em https://portal.uern.br/blog/assembleia-universitaria-marca-comemoracoes-dos-58-anos-da-uern/; e em https://www.youtube.com/watch?v=kcwCX8XVOKk.
Numa cerimônia constituída pela Assembleia Universitária instalada na sede de Mossoró, na qual estiveram presentes as congregações de todos os campi (Assú, Pau dos Ferros, Patu, Apodi, Caicó, Natal), formada a mesa de honra presidida pela Reitora Cicília Raquel Maia Leite, se fizerem presentes, o vice-Reitor Francisco Dantas, a Governadora do Estado e chanceler da universidade professora Maria de Fátima Bezerra, autoridades municipais, estaduais e federais, depois de impostas as vestes talares, recebi ainda a distinção de falar em nome dos homenageados, tal como se descreve na matéria elaborada pela comunicação da UERN.

Em minha saudação, comecei com os agradecimentos ao Conselho Universitário da UERN, que acolheu a manifestação da Comissão Especial que o recomendou, pela concessão do Título de Doutor Honoris Causa. Sobretudo porque na convergência, da recomendação e da outorga, formalizada na Resolução nº 10/2026, se traduz o entendimento de que aqueles registros que marcam a minha trajetória guardam vínculos substantivos com os valores cultivados pela própria UERN, especialmente sua vocação democrática, inclusiva e transformadora e a defesa dos direitos humanos.
E logo procurei traduzir o significado de experiências que julgamos conhecer até o momento em que a vida nos desloca de lugar e nos permite vivê-las do outro lado. Como Reitor da Universidade de Brasília, presidi várias cerimônias de outorga do título de Doutor Honoris Causa. Acompanhei o rito universitário em toda a sua solenidade. Vi homens e mulheres receberem da Universidade uma de suas mais altas distinções e, estando no lugar institucional daquele que conferia a honraria, procurei muitas vezes traduzir em palavras o seu significado mas, somente naquele momento podendo compreender inteiramente a emoção que tantas vezes presenciei.
Porque uma coisa é proclamar, em nome de uma Universidade, o reconhecimento de uma trajetória. Outra é experimentar pessoalmente o que significa ser acolhido por uma comunidade universitária que decide associar à sua própria história alguma coisa da história daquele que homenageia.
Por isso, destaquei, o título de Doutor Honoris Causa da Universidade do Estado do Rio Grande do Norte confere também um sentimento que talvez seja ainda mais forte. O de responsabilidade.
Afinal, honoris causa — por causa da honra — não pode significar apenas a celebração do que passou. Se assim fosse, seria uma espécie de coroamento, e coroamentos sugerem conclusões. Prefiro compreender esta distinção como um gesto voltado para o futuro. Uma Universidade, quando concede sua honra, não reconhece apenas aquilo que alguém realizou. Ela identifica numa trajetória valores, escolhas e compromissos que considera dignos de serem inscritos em sua própria comunidade.
É nesse sentido que a distinção não é uma chegada, mas um pertencimento. E pertencer à UERN, ainda que por essa forma simbólica e generosa, tem para mim um significado muito particular.
Ao longo de minha vida acadêmica, fui me convencendo cada vez mais de que a Universidade é uma das mais extraordinárias invenções da experiência humana. Poucas instituições atravessaram tantos séculos transformando-se sem perder a sua vocação essencial. Reunir gerações em torno do conhecimento e fazer do conhecimento uma possibilidade de interrogar o presente e imaginar o futuro.
Mas a Universidade não existe fora da história. Ela se realiza em lugares concretos, em sociedades concretas, diante de necessidades concretas. E talvez por isso uma das perguntas decisivas de nosso tempo não seja apenas que conhecimento a Universidade produz, mas que presença ela constitui na sociedade.
Essa questão esteve fortemente colocada, quando a América Latina e o Sul global retomaram a reflexão sobre a educação superior como direito e bem público e sobre a responsabilidade das instituições universitárias diante das profundas desigualdades que ainda estruturam nossas sociedades. Quando a Universidade é uma mediadora estratégica do desenvolvimento social.
E a palavra estratégica importa. Porque não se trata de pensar a Universidade como uma instituição auxiliar, chamada depois que as decisões fundamentais já foram tomadas, apenas para fornecer quadros profissionais ou soluções técnicas. Trata-se de reconhecê-la como parte constitutiva da própria capacidade de uma sociedade compreender seus problemas, mobilizar seus conhecimentos, formar suas novas gerações e construir coletivamente alternativas para seu desenvolvimento.
Desenvolvimento, aqui, não pode ser reduzido a crescimento econômico. Uma sociedade se desenvolve quando amplia a liberdade de seus cidadãos; quando democratiza oportunidades; quando enfrenta desigualdades históricas; quando produz ciência e tecnologia sem perder de vista a dignidade humana; quando reconhece a diversidade de seus territórios e de suas culturas; quando transforma conhecimento em condições concretas para que as pessoas possam realizar seus projetos de vida.
É nessa perspectiva que a Universidade se torna uma instituição verdadeiramente pública. Porque integra o Estado, ao mesmo tempo que participa da construção do que é comum, em aliança com o social
E é justamente aí que encontro uma das razões mais fortes para a emoção de receber esta distinção da UERN. Porque a história desta Universidade mostra que territorializar o conhecimento é também democratizá-lo. A UERN não está simplesmente localizada no Rio Grande do Norte. Ela pertence à experiência histórica, cultural e social deste Estado. Sua presença em Mossoró e sua expansão por diferentes regiões fizeram da interiorização universitária algo maior do que uma distribuição geográfica de cursos e campi. Fizeram dela uma forma concreta de redistribuição de oportunidades.
Quando uma Universidade chega a um território, algo muda nesse território. Muda quando uma jovem ou um jovem que talvez jamais pudesse deslocar-se para um grande centro passa a encontrar perto de sua casa a possibilidade de formação universitária.
Muda quando uma família vê pela primeira vez uma filha ou um filho ingressar no ensino superior.
Muda quando professores formados pela Universidade chegam às escolas; quando profissionais de saúde chegam às comunidades; quando pesquisadores transformam problemas locais em questões científicas; quando a cultura de uma região deixa de ser percebida apenas como objeto de estudo e passa a participar da própria produção do conhecimento.
A Universidade, então, não está simplesmente no território. Ela passa a ser território.
Talvez seja esse um dos sentidos mais profundos da ideia de Universidade Social que a professora Cicília Maia tem afirmado como pude ler e comentar em seu livro A Universidade Social: desafios e avanços (https://estadodedireito.com.br/a-universidade-social-desafios-e-avancos-cicilia-raquel-maia-leite/).
O que me impressiona nessa formulação é que “social” não aparece como um adjetivo ornamental. Toda Universidade, evidentemente, está inserida numa sociedade. Mas nem toda Universidade assume da mesma maneira a responsabilidade decorrente dessa inserção.
A Universidade Social é aquela que se deixa interpelar pelo lugar onde está. Que não considera o território apenas o espaço físico de sua instalação, mas fonte de perguntas, experiências, saberes e desafios. É uma Universidade que produz excelência sem fazer da excelência um mecanismo de separação. Que amplia o acesso sem renunciar à qualidade. Que sabe que democratizar a entrada é indispensável, mas que democratizar a permanência é igualmente decisivo. Que pesquisa não apenas aquilo que interessa aos circuitos acadêmicos consolidados, mas também aquilo que importa à vida das comunidades que a sustentam.
E que compreende a extensão não como gesto unilateral de levar à sociedade um saber pronto, mas como capacidade de estabelecer com ela uma relação de escuta, intercâmbio e aprendizagem.
Tal Universidade não perde sua autonomia quando se aproxima da sociedade. É justamente sua autonomia que lhe permite aproximar-se criticamente dela.
Não perde rigor quando se compromete com o desenvolvimento social. Ao contrário. O compromisso amplia as perguntas que a ciência precisa formular e aumenta a responsabilidade sobre as respostas que produz.
Há nisso uma concepção de Universidade com a qual me identifico profundamente e que encontro, de maneira muito concreta, na história da UERN.
E talvez por isso seja impossível, para mim, receber uma honraria desta Universidade, em Mossoró, sem que a memória pessoal se misture à memória institucional
Mossoró não é apenas o lugar desta cerimônia. É uma cidade cuja história se constituiu sob o signo de fortes tradições de liberdade, de afirmação cívica, de cultura e de resistência. Uma cidade que fez de sua memória uma dimensão de sua identidade e que, exatamente por isso, compreende tão bem que nenhuma comunidade se projeta para o futuro apagando os caminhos pelos quais chegou até o presente. E uma cidade que inscreveu pioneiramente a cidadania feminina na vida pública, abrindo caminhos para para o voto e para a presença das mulheres na política, e que se situa numa geografia de emancipação, antecipando a abolição da escravatura (30 de setembro de 1883) e em cujo horizonte está Angicos, ali tão perto, onde Paulo Freire fez da alfabetização não apenas aprendizagem da palavra, mas aprendizagem da cidadania e leitura transformadora do mundo.
E aqui minha memória se torna também familiar. A UERN me devolve a lembrança de meu avô, Floriano Cavalcanti de Albuquerque, a quem já me referi quando estive na universidade para a Aula Inaugural do ano letivo de 2026. Professor e magistrado, cuja trajetória jurídica o levaria à direção da Faculdade de Direito da UFRN e seu professor emérito, à Presidência dos Tribunais (Eleitoral e de Justiça) e à Academia Norte-Rio-Grandense de Letras, mas cujo caminho na judicatura começou justamente em Pau dos Ferros, hoje uma das sedes em que a UERN realiza sua vocação de interiorização do conhecimento e de desenvolvimento social. Há, para mim, uma emoção particular nessa coincidência de geografias. Perceber que um lugar inscrito na memória de minha família pelo início da vida pública de meu avô integra hoje a cartografia de uma Universidade que me acolhe entre os seus doutores. Há lugares aos quais chegamos pela primeira vez e, entretanto, alguma coisa neles parece preceder a nossa chegada. Talvez porque nossos afetos também tenham geografia. Talvez porque a memória familiar crie pertencimentos que o tempo não desfaz.
Assim, receber em Mossoró uma distinção da UERN produz em mim um encontro inesperado de tempos. O menino que recebeu histórias de sua família; o professor que fez da Universidade o seu lugar de vida; o Reitor que tantas vezes presidiu cerimônias como esta; e o homem que hoje, tantos anos depois, se encontra aqui para receber a honra de pertencer simbolicamente a esta comunidade universitária.
Talvez seja também isso uma Universidade. Um lugar em que os tempos se encontram. Ela guarda memória, interpreta o presente e prepara futuros. E precisamos muito dessa capacidade neste momento histórico.
Vivemos um tempo em que a velocidade frequentemente ameaça a reflexão; em que a informação se multiplica sem necessariamente produzir conhecimento; em que as tecnologias ampliam extraordinariamente as capacidades humanas, mas também criam novas formas de desigualdade; em que a democracia é desafiada pela intolerância e pela dificuldade de reconhecer no outro alguém com quem continuamos compartilhando um mundo comum.
Nesse cenário, a Universidade torna-se ainda mais necessária. Não porque tenha respostas para tudo. Mas porque preserva o direito de perguntar. Porque ensina que o conhecimento exige paciência, método, dúvida, demonstração, confronto de ideias. Porque reúne diferenças sem exigir que deixem de ser diferenças. Porque guarda a memória contra a tentação do esquecimento. E porque continua sendo um dos poucos lugares da sociedade onde o futuro pode ser pensado antes de ser submetido à urgência dos interesses imediatos.
Por isso gosto de compreender a Universidade como lugar de conhecimento legítimo, de memória relevante e de futuro possível. Conhecimento legítimo porque submetido à crítica e à responsabilidade.
Também memória relevante porque nenhuma sociedade constrói um futuro democrático se desconhece ou falsifica a sua própria história.
É esse horizonte que o título conferido pela UERN descortina. Não oferece um coroamento. Oferece um pertencimento. E pertencimento traz responsabilidade. Responsabilidade de permanecer ligado a esta Universidade; de acompanhar sua caminhada; de defender a Universidade pública; de afirmar sua autonomia; de valorizar sua presença nos territórios; de sustentar a educação superior como direito e bem público; de continuar acreditando que o conhecimento pode ser uma poderosa mediação para um desenvolvimento que seja, antes de tudo, desenvolvimento humano e social.
Talvez seja esse, afinal, o sentido mais profundo de honoris causa. A honra não está apenas naquele que a recebe. Está também — e talvez sobretudo — na instituição que a concede e nas causas que ela escolhe reconhecer.
Receber a distinção da Universidade do Estado do Rio Grande do Norte, traz também a responsabilidade de honrá-la. E isso traz emoção que reúne muitos tempos. O tempo da memória familiar que se aviva em Mossoró, na minha ancestralidade potiguar; o tempo de uma vida vivida na Universidade.
Todos esses tempos parecem dizer a mesma coisa. A Universidade permanece. Permanecem as pessoas que ela forma, as perguntas que suscita, os horizontes que abre, as cidades que transforma, as esperanças que ajuda a tornar possíveis. É por isso que uma Universidade não pertence apenas ao lugar onde está. Pertence também ao futuro que ajuda a construir.
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