A juventude nas ruas: entre a percepção do risco e a reinvenção da esperança democrática
Por: José Geraldo de Sousa Junior (*) – Jornal Brasil Popular/DF

As mobilizações estudantis que se multiplicam pelo Brasil, nesses dias que sucedem o primeiro turno eleitoral, parecem anunciar algo que ultrapassa a disputa entre candidaturas. De Niterói a Curitiba, de Salvador a Brasília, passando por Recife, São Paulo, Porto Alegre, Uberlândia, Fortaleza, Natal e outras cidades, a juventude ocupa universidades, praças e ruas, convertendo inquietação em presença política. É mais do que uma reação eleitoral, trata-se da percepção de que estão em disputa as condições de possibilidade de seu próprio futuro.
Há um núcleo comum nessas manifestações. A defesa da democracia, da universidade pública, da ciência, dos direitos sociais e da liberdade. Mas há também uma consciência emergente de que a ameaça não se limita à alternância de governos. Ela alcança o pacto constitucional de 1988, a soberania nacional e as conquistas civilizatórias que asseguram à juventude não apenas oportunidades, mas o direito de imaginar e construir futuros.

O que impressiona é a passagem da apreensão à ação. Diante do avanço conservador e da possibilidade de regressão democrática, esses jovens recusam a resignação. Recolocam a política no espaço público, resgatando uma tradição histórica do movimento estudantil brasileiro. Compreender que a democracia não se preserva apenas nas instituições, mas se renova pela participação popular.
Há nisso uma pedagogia da esperança, no sentido freireano, que não confunde esperança com espera. A juventude parece compreender que seu destino não está previamente escrito, nem pode ser delegado aos cálculos eleitorais. Sua mobilização, embora não represente toda a diversidade das juventudes brasileiras, interpela a sociedade sobre o país que deseja legar às novas gerações.
Talvez resida aí seu significado mais profundo. Diante do risco de que o medo organize o futuro, esses estudantes reivindicam o direito de organizá-lo pela esperança. E, ao fazê-lo, recordam que a democracia não é uma herança definitivamente recebida, mas uma construção coletiva, permanentemente ameaçada e permanentemente reinventada. Não apenas resistir ao retrocesso, portanto, mas abrir caminhos para que o amanhã continue sendo uma possibilidade de emancipação.
Quando fui eleito Reitor da UnB (2008-2012) disse em meu discurso de posse, atento à formidável mobilização dos estudantes que me apoiaram, que “os estudantes acertam até quando erram”. Por que? Porque se a rebeldia marca as suas mobilizações, é possível que haja causas que que se deixem arrastar por alguns equívocos. Estou pensando em ações recentes como as mobilizações do “Vem pra Rua” e do MBL (Movimento Brasil Livre) de caráter liberal-conservador, que se deram em meados da década de 2010 e que se caracterizaram pela intensa articulação pelas redes sociais, pelo discurso de combate à corrupção e antipetismo, e pela defesa de pautas como o impeachment de Dilma Rousseff, a operação Lava Jato, a redução do Estado e as reformas econômicas de livre mercado, e que acabaram dando sustentação a carreiras com o mesmo viés ideológico de suas principais expressões hoje integradas às políticas neoliberais, negacionistas, entreguistas, anti-povo, golpistas.
Refiro-me ao legado do movimento estudantil brasileiro que reside em sua histórica condição de vanguarda crítica e caixa de ressonância dos anseios democráticos de toda a sociedade. Ao longo das décadas, o movimento extrapolou os limites dos muros universitários e escolares para se consolidar como um ator político fundamental na defesa do Estado Democrático de Direito, da soberania nacional e da garantia dos direitos civis. Desde a fundação da União Nacional dos Estudantes (UNE) em 1937, passando pela resistência ativa à Ditadura Militar — marcada por momentos de intensa mobilização popular como a Passeata dos 100 Mil —, até o protagonismo nas campanhas das Diretas Já! e nos movimentos do início dos anos 1990, a juventude organizada sempre assumiu o papel de ativista das liberdades fundamentais nos momentos mais críticos da história do país.
A agenda histórica de lutas do movimento estudantil caracteriza-se pela articulação constante entre reivindicações educacionais e grandes pautas de transformação social. No campo da educação, suas bandeiras incluem a consolidação de uma universidade pública, gratuita, laica e de qualidade, acompanhada de políticas de democratização do acesso e permanência, como as cotas sociais e raciais e a assistência estudantil. No entanto, essa agenda nunca se encerrou nas demandas do ensino. Ela abrange a defesa do patrimônio público, do desenvolvimento científico e tecnológico soberano, dos direitos humanos e do combate às desigualdades estruturais, como o racismo e a violência social, alinhando-se à preservação do pacto constitucional de 1988 e do meio ambiente.
A dimensão frequentemente qualificada como generosa ou altruísta nas intervenções estudantis decorre da própria natureza do seu objeto de luta. Diferente de corporações profissionais ou setores econômicos que mobilizam sua capacidade de pressão para obter privilégios restritos ou vantagens de mercado, os estudantes constituem um grupo social eminentemente transitório. As conquistas obtidas pelas suas mobilizações — sejam verbas para a educação público-gratuita, a ampliação do SUS ou a defesa das instituições democráticas — não se tornam propriedade privada daquela geração específica de ativistas. Trata-se da defesa do bem comum e de políticas públicas universalizáveis que permanecem como herança coletiva para toda a sociedade e para as futuras gerações. Movidos por um senso de responsabilidade histórica e pela recusa da resignação, os estudantes assumem o risco da ação pública para assegurar garantias civilizatórias que pertencem ao conjunto da população.
A mobilização estudantil, tão impressionante na UnB quanto tem sido Brasil afora, aciona com força que até os ambulantes perceberam e correram em número formidável ao ato, a centelha de esperança à qual alude Walter Benjamin, apoderando-se da memória e da ação no exato instante em que o perigo da barbárie fascista ameaça sufocar o futuro.
Diante de um cenário dantesco e apocalíptico, que se divisou depois do primeiro turno das eleições, a juventude recusa a apatia e o conforto do silêncio, compreendendo que a neutralidade é uma ilusão conivente com o horror. Essa postura engajada rejeita o que está no Canto III do Inferno de Dante, no qual os ignavos — aqueles que viveram sem infâmia e sem louvor, recusando-se a tomar partido — são rejeitados até pelo próprio abismo e condenados à irrelevância eterna.
Da mesma forma, evoca o duro alerta do Apocalipse (3:15-16) contra os mornos, destinados ao vômito divino por carecerem da firmeza que os tempos sombrios exigem. Ao tomar as ruas e marcar posição em defesa das liberdades democráticas, os estudantes renegam a fraqueza moral, provando que, perante a desumanização, a resistência e o compromisso ético são os únicos caminhos possíveis.
Como diz Júlia Natour, a estudante de Direito da UnB que foi uma das lideranças convocadoras do ato na Faculdade de Direito:
“O abalo e o espanto com o resultado de domingo precisam se transformar em movimento. O tempo de digerir os números já passou. Precisamos nos articular, tomar os espaços e garantir uma mobilização real nas próximas semanas.
Na onda nacional de mobilização dirigida pelos estudantes das universidades, a Faculdade de Direito, mais uma vez, marca posição em defesa das liberdades democráticas, contra o fascismo!
O que está em jogo no segundo turno é a soberania do Brasil.
É hora de trabalhar para eleger quem defende nosso futuro! A Democracia está na mão da juventude!”.
Nas mobilizações que tomam as universidades públicas do país, com a participação de secundaristas e com o apoio da juventude, os estudantes contrapõem-se frontalmente à agenda da extrema-direita e ao avanço de pautas autoritárias que ameaçam a soberania nacional e os direitos sociais. Rejeitam veementemente o desmantelamento da educação pública, os cortes orçamentários, a precarização da ciência, a privatização do ensino e os ataques às liberdades democráticas e de expressão. Em contrapartida, projetam para o país e para a sociedade uma plataforma de fortalecimento das instituições republicanas, da justiça social e da diversidade. Para o campo da educação e da universidade pública, a juventude exige o financiamento contínuo e garantido, a valorização do corpo docente e técnico, o fortalecimento das políticas de assistência e permanência estudantil, além da garantia da autonomia universitária e do incentivo à pesquisa e extensão comprometidas com as demandas populares e a defesa da democracia.
Nesses dias que antecedem o pleito do segundo turno, bate em nosso peito, um coração de estudante.
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