quarta-feira, 21 de outubro de 2026

 

40 Horas de Angicos: a memória de uma experiência que continua a educar.

Lido para Você, por José Geraldo de Sousa Junior, articulista do Jornal Estado de Direito.

40 Horas de Angicos: a memória de uma experiência que continua a educar. Higo Lima, Passos Júnior, Renata Jaguaribe. Mossoró: EDUFERSA, 2022, 111 p.

 

A obra 40 Horas de Angicos: Memórias dos alunos de Paulo Freire no RN, de Higo Lima, José Francisco dos Passos Júnior e Renata Jaguaribe, publicada pela EdUFERSA em edição física de 2022 e digital de 2023, constitui mais que um registro comemorativo de uma experiência educacional. Integra um amplo projeto de recuperação da memória social, política e pedagógica de um acontecimento que, nascido no sertão potiguar em 1963, adquiriu dimensão universal. A demonstração de que alfabetizar não significa apenas ensinar a decifrar palavras, mas criar condições para que homens e mulheres se reconheçam como sujeitos de sua própria história. 

O significado da publicação está, sobretudo, no deslocamento do lugar de onde essa história é contada. A experiência de Angicos costuma ser narrada a partir de Paulo Freire, de sua formulação pedagógica, do método de alfabetização e de sua repercussão nacional e internacional. Sem diminuir a centralidade do educador, a obra devolve a palavra àqueles que constituíram a razão de ser da experiência: os educandos, homens e mulheres do sertão, cujas vidas foram atravessadas pela descoberta da leitura, da escrita e, fundamentalmente, da possibilidade de interpretar criticamente o mundo.

A partir de mais de sete horas de gravações com 19 integrantes da turma pioneira, complementadas por documentação e arquivos públicos, os autores constroem uma coletânea de crônicas que recupera a realidade de Angicos, os encontros dos Círculos de Cultura, a dimensão humana de Paulo Freire, a interrupção do projeto pelo golpe militar de 1964 e as marcas deixadas na trajetória dos participantes. O procedimento narrativo permite reconhecer que a memória não é simples reprodução do acontecido. É elaboração de uma experiência cujo significado permanece ativo na consciência de quem a viveu. 

Nesse sentido, a obra memorializa tanto um acontecimento pedagógico quanto uma transformação da condição de seus protagonistas. A alfabetização, compreendida como prática de liberdade, rompe com a concepção do educando como destinatário passivo de um conhecimento produzido por outros. Nos Círculos de Cultura, a experiência social, o trabalho, a linguagem e a realidade concreta dos participantes tornavam-se matéria do processo educativo. Aprender a ler a palavra significava também descobrir a possibilidade de pronunciar o mundo, de formular perguntas sobre ele e de nele intervir.

Angicos representa, assim, uma passagem decisiva da educação concebida como concessão à educação reconhecida como direito e como exercício de cidadania. Não se trata apenas de incorporar pessoas à cultura letrada, mas de reconhecer que já eram portadoras de cultura, saberes, memória e capacidade de interpretação da realidade. A pedagogia freireana não inventa o sujeito popular; reconhece sua existência histórica e oferece mediações para que sua palavra adquira expressão pública.

A força desse testemunho se amplia quando considerada a ruptura histórica que atingiu a experiência. O golpe de 1964 interrompeu um projeto que anunciava possibilidades de democratização do conhecimento e de participação popular. A lembrança de Francisca de Brito, registrada no acervo da UFERSA, de que os estudantes precisavam frequentar escondidos os encontros, introduz uma dimensão frequentemente secundarizada nas narrativas celebratórias: a alfabetização foi também objeto de medo, vigilância e perseguição. A memória de Angicos é, por isso, inseparável da memória da violência política que procurou impedir a emergência de novos sujeitos na vida pública. 

É justamente essa dimensão que permite compreender o alcance do projeto institucional desenvolvido pela Universidade Federal Rural do Semi-Árido. A publicação não constitui uma iniciativa isolada, mas integra um conjunto articulado de ações de documentação, produção cultural, preservação patrimonial, reconhecimento público e difusão educativa.

É o que recolho das dedicatórias pessoais de dois autores da publicação, Passos Júnior e Higo Lima: “Para o Profº Zé Geraldo, Por meio de nosso texto, o registro da gênese do trabalho de Paulo Freire, no sertão de Angicos – RN” (Passos Júnior); “Prof. Zé Geraldo, que esta leitura seja um conforto perante histórias transformadas pela força da educação, empatia e afetos!” (Yigo Lima), um adendo ao que indicaram na apresentação, lembrando que “essa história – tão ricamente vivida – precisa ser ouvida, ser assistida e, de certo modo, também precisa ser lida. Aqui. Tem-se uma boa conversa com alguns dos estudantes do educador Paulo Freire, que vivenciaram a experiência pioneira do Projeto 40 Horas em Angicos”.

O documentário 40 Horas na Memória: resgate da experiência dos alunos de Paulo Freire em Angicos/RN, lançado em 2013, por ocasião do cinquentenário, constitui um primeiro movimento dessa restituição da palavra. Com trinta minutos de duração, direção de Passos Júnior e roteiro de Renata Jaguaribe, reúne os depoimentos dos 19 estudantes em suas próprias residências. A escolha do ambiente doméstico não é meramente estética: restitui às narrativas sua territorialidade, seus vínculos afetivos e a oralidade que lhes confere autenticidade. A presença do cordelista Hailton Mangabeira acrescenta a linguagem poética popular como mediação entre a experiência vivida e sua transmissão às novas gerações. 

O livro prolonga esse gesto documental, convertendo a oralidade em narrativa escrita sem retirar dos estudantes sua condição de protagonistas. A exposição fotográfica itinerante Memórias de 1963: o legado das 40 Horas de Angicos acrescenta a imagem como suporte de reconhecimento. Rostos, nomes e testemunhos deixam de figurar como ilustrações de uma história atribuída exclusivamente a seu idealizador e passam a constituir o próprio patrimônio que se pretende salvaguardar.

O Memorial Paulo Freire, em Angicos, oferece a esse conjunto uma referência territorial e institucional. A memória deixa de depender apenas da evocação comemorativa para encontrar um lugar de preservação, encontro, pesquisa e transmissão. A cidade não comparece simplesmente como cenário de uma experiência célebre. Afirma-se como território produtor de conhecimento pedagógico, cuja contribuição integra a história da educação brasileira e mundial.

A criação da Comenda Mérito Paulo Freire, aprovada por unanimidade pelo Conselho Universitário da UFERSA, confere outra dimensão a esse reconhecimento. Destinada a pessoas que tenham prestado serviços relevantes à educação popular, à democratização do conhecimento, ao pensamento crítico e ao enfrentamento das desigualdades, teve sua edição inaugural realizada em 5 de abril de 2023, no adro do Memorial, homenageando os estudantes participantes do projeto de memória. A celebração reconheceu também monitores dos Círculos de Cultura e preservou a lembrança de participantes já falecidos, entre eles, o meu muito estimado Marcos José de Castro Guerra então, estudante do curso de Direito e presidente da União Estadual dos Estudantes, destacado monitor do projeto e que vim a conhecer depois do retorno de seu exílio https://comissaodaverdade.ufrn.br/noticia.php?id=12322509&utm_source=chatgpt.com. 

Faço referência a Marcos Guerra porque ele de fato desempenhou um papel político e pedagógico fundamental no contexto da célebre experiência das “40 Horas de Angicos”, realizada no sertão do Rio Grande do Norte em 1963.   Estudante da Faculdade de Direito da UFRN e presidente da União Estadual dos Estudantes (UEE-RN, seção local da UNE), Marcos Guerra atuou como um dos principais coordenadores em campo da experiência de alfabetização de adultos liderada por Paulo Freire. De fato, ele foi a ponte decisiva entre a liderança estudantil, a comunidade acadêmica e as estruturas tanto estaduais quanto federais para articular os monitores universitários que atuaram nos Círculos de Cultura em Angicos. Por isso também, isto é, por seu papel de liderança estudantil e do engajamento em projetos de educação popular e conscientização política, foi perseguido e preso pelas forças de repressão com a eclosão do golpe militar de 1964.  

De Marcos Guerra vale consultar seu artigo As 40 horas de Angicos, da UFRN, da UNE e Paulo Freire (Rio Grande do Norte, 1963), publicado em Revista Educação em Questão, Natal, v. 33, pág. 234-242, set./dez. 2013 e que pode ser consultado em https://www.academia.edu/34312683/AS_40_HORAS_DE_ANGICOS_a_UFRN_a_UNE_e_PAULO_revista_educacao_em_questao_pdf.

Muito importante, pois, a publicação, a inciativa e o gesto da UFERSA, que representam uma inversão simbólica de grande significado. A universidade não homenageia apenas o educador consagrado, mas reconhece como portadores de mérito aqueles que, na condição de educandos, contribuíram para produzir uma das experiências mais importantes da educação popular. A homenagem deixa de ser simples distinção individual e converte-se em reconhecimento de uma autoria coletiva.

Esse conjunto permite compreender a celebração como exercício de responsabilidade pública da universidade. Ao articular comunicação, pesquisa documental, literatura, cinema, fotografia, memória oral e reconhecimento institucional, a UFERSA demonstra que a preservação de um patrimônio educativo não se esgota na conservação de documentos. Exige manter vivas as condições de sua interpretação, assegurar a presença de seus protagonistas e atualizar as perguntas que a experiência continua a dirigir à sociedade.

A atualidade de Angicos reside precisamente nessa capacidade de interpelar o presente. Num tempo em que a educação pode ser reduzida a desempenho, treinamento e adaptação funcional às exigências econômicas, a experiência freireana recorda que o conhecimento só realiza plenamente sua finalidade pública quando amplia a autonomia humana, democratiza a palavra e permite a participação consciente na vida coletiva.

É também nesse horizonte que a celebração ultrapassa o campo estritamente pedagógico e alcança a dimensão dos direitos humanos e da cidadania. A educação emancipatória não consiste em preparar indivíduos para ocupar lugares previamente definidos na ordem social, mas em reconhecer sua capacidade de participar da própria construção dessa ordem. A memória dos alfabetizandos de Angicos demonstra que os sujeitos populares não são apenas destinatários de políticas públicas: são produtores de cultura, conhecimento e transformação social.

Por isso, o projeto Paulo Freire – 40 Horas na Memória pode ser compreendido como uma pedagogia da própria memória. Seu alcance não está somente em impedir que uma experiência seja esquecida, mas em impedir que seus protagonistas sejam novamente silenciados. Ao reunir suas vozes, imagens, histórias e trajetórias, a universidade realiza, no presente, um gesto coerente com o princípio fundador daquela experiência: ninguém educa o outro como objeto de sua ação; a educação se realiza na relação entre sujeitos que, mediatizados pelo mundo, aprendem a transformá-lo.

Angicos permanece, assim, como patrimônio e como promessa. Patrimônio de uma experiência que demonstrou a possibilidade de converter a alfabetização em exercício de liberdade; promessa de que a universidade, a escola e a sociedade possam continuar criando condições para que aqueles historicamente privados da palavra pública se reconheçam autores de sua própria história. Celebrar as 40 Horas é, nesse sentido, mais que recordar Paulo Freire. É reconhecer, na memória viva de seus educandos, que a emancipação não se concede, constrói-se coletivamente, e que a educação só se torna verdadeiramente pública quando ninguém é excluído da possibilidade de dizer sua palavra sobre o mundo.

Como registra Valquíria Félix da Silva, no posfácio (Uma experiência ‘sempre-viva’), o que forma essa memória é o aprendizado de que aquele processo, das 40 horas, representava “um grande movimento (que) estaria sendo posto em ação na sua terra, dirigido a eles em primeira mão, através de um projeto voltado para atender ao sonho de todo ser humano – o de retirar a venda dos olhos do corpo físico e da alma, a fim de desvendar a oculta beleza do saber e, mais que isso, fazer despertar consciências, possibilitando reconhecerem-se como valorosos, independentemente de suas condições, e de se fazerem reconhecidos como ser humano, ser social e político”.

O livro traz uma singularidade inscrita na disposição de seus autores relativamente ao modo de captação dos registros, isto é, dos depoimentos que lhe dão conteúdo e que procurou ser leal ao próprio método freireano investido nas 40 Horas. Os autores seguiram “um roteiro aberto, quase uma conversa, mas ancorado em cinco situações-chave: ‘Como era a cidade de Angicos na época?’, ‘Como aconteciam os círculos?’, ‘Como era Paulo Freire?’. ‘O que mais marcou dessa experiência?’ e ‘Quka foi seu legado?’. A intenção era obter relatos espontâneos. Sem interferência de terceiros ou preparação prévia. As locações onde ocorreram as filmagens dos depoimentos facilitaram a memória; as entrevistas foram realizadas na sala de estar das residências, no avarandado e até na calçada das casas dos ex-alunos”.

Na reconstrução narrativas que forma a matéria do livro, conduzida pelos autores, as falas foram situadas de modo a seguir uma “sequência lógica capaz de responder às cinco questões norteadoras”. 

Por isso, fecho com Marcos Guerra, no artigo citado. Para ele, Angicos não foi a aplicação de uma simples técnica acelerada de alfabetização, mas uma experiência de educação popular na qual Paulo Freire investiu uma concepção de conhecimento, liberdade e cidadania. Sem cartilha e recusando a transmissão vertical do saber, partia-se da investigação do universo vocabular e da experiência concreta dos educandos, dos quais emergiam palavras e situações geradoras, problematizadas nos Círculos de Cultura. O método articulava diálogo, leitura e escrita à compreensão crítica da realidade. Não se alfabetizava primeiro para conscientizar depois; aprender a palavra era, simultaneamente, aprender a “ler o mundo”. Por isso Freire preferia compreender sua proposta como método de conhecimento. Em Angicos, o trabalhador não era tomado como alguém vazio de saber, mas como sujeito de cultura e experiência. As “40 horas” designavam, assim, menos uma façanha de rapidez pedagógica que a demonstração de que alfabetizar podia significar despertar um saber socialmente silenciado e fazer do educando sujeito do conhecimento, da cidadania e da transformação de sua realidade.

É disso que se nutre as memórias dos alunos de Paulo Freire no Rio Grande do Norte. E é esse o valor do livro 40 Horas de Angicos.

 

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