quinta-feira, 16 de abril de 2020

CARTAS DA QUARENTENA


Cartas da Quarentena (Com a suspensão do semestre letivo 1/2020, na UnB, como medida sanitária em face da pandemia – coronavírus – a disciplina Pesquisa Jurídica, turma B, foi convertida em atividade livre, conversível em atividades complementares voluntárias, apropriáveis no histórico escolar). Na nota aos estudantes com essa orientação/proposta, o grupo de monitores explicou: “Conforme todos sabem, o calendário acadêmico foi suspenso devido a quarentena contra o coronavirus. Todavia, as atividades de Pesquisa Jurídica continuarão ativas a fim de proporcioná-los a oportunidade de não só manter a mente ativa durante o isolamento, como também de adiantar as dinâmicas da matéria. Ou seja, tanto o moodle quanto o classroom continuarão ativos e seguindo a programação inicial; aquele com as resenhas e esse com as vídeo aulas, os textos e as atividades. Mas, respeitando a suspensão, todas essas atividades serão facultativas, quem optar por fazer as dinâmicas ganhará horas complementares.
As atividades aqui no classroom serão sem prazo e toda a monitoria se dispõe para ajudá-los no que precisarem. Atenciosamente,Equipe de monitoria de Pesquisa Jurídica. 
Uma das atividades propostas consistiu em pedir que os participantes escrevessem Cartas da Quarentena, não só para exercitarem suas angústias sem sucumbir a elas, como para refletirem sobre as exigências éticas e solidárias de reconstrução social após a superação da pandemia.
A seguir, algumas Cartas chamaram a atenção da equipe de monitoria, publicadas neste espaço, com a autorização de seus autores e autoras:

Carta de Daniela Rocha

Brasília, 30 de março de 2020.
Prezada comunidade,
É sabido por todos que o momento atual não é nada reconfortante. Correm soltas notícias de pandemia, crises econômicas, transmissões em massa, e tantos outros infortúnios por aí. Apesar de ser um direito, nem todos podem ficar reclusos na segurança de seu lar e acabam tendo que sair às ruas diariamente, sem saber ao certo se voltarão plenamente saudáveis ao fim do dia. E é a partir dessa perspectiva que desejo iniciar minha carta aos senhores e senhoras. A partir da perspectiva daqueles que não tem garantidos os Direitos que são seus por definição. A partir da triste realidade da desigualdade presente não só no contexto brasileiro, mas também no contexto internacional. É o momento ideal para pensar numa reestruturação ética e social da realidade que nos cerca.
Precisamos, desse modo, idealizar projetos de reconstrução do sistema de valores já há muito arraigados no imaginário social. Inicialmente, julgo ser necessário olhar para o nosso passado social e entender como nossa estrutura foi construída, analisando qual herança foi deixada por cada período histórico. Logicamente, estudar toda a trajetória da humanidade é trabalho impossível para apenas uma mera estudante de direito, por isso, deixarei a cargo de cada leitor para que faça sua própria análise. Ainda sim, acho importante ressaltar a necessidade de estudar os fenômenos do neocolonialismo, imperialismo cultural, sistema escravocrata, formação dos papéis de gênero, e similares para entendermos como os grupos não-dominantes resistiram a todos esses processos que tentaram tanto invizibilizar sua existência, resistência e luta. Do mesmo modo, julgo ser igualmente importante estudar os movimentos que tentaram resistir a esse apagamento, sendo eles o movimento negro, o movimento estudantil, o feminismo etc., entre outros. Julgo importante o estudo de tais movimentos para a compreensão não apenas de suas conclusões e teses, mas também do por quê tais grupos reivindicaram o que reivindicaram e do por quê lutaram como lutaram.
Após o estudo básico dos temas acima citados, creio que fique clara a conclusão de que existe uma estrutura social hierárquica, isto é, existe uma relação entre grupos dominantes/dominados, um pano de fundo ideológico para a forma que a sociedade se estrutura. Não estou falando de uma “pirâmide social” bem definida e imutável, como existiu, por exemplo, durante a Idade Média. Na realidade, me refiro a um complexo sistema de privilégios e desvantagens que se fazem presentes nas mais diversas esferas dos atributos humanos. Por exemplo: existem pessoas privilegiadas no sentido da renda, que tem um poder aquisitivo maior que outros e, consequentemente, tem um privilégio em relação a esses. Ao contrário, existem pessoas que tem um poder aquisitivo inferior – quantitativamente falando –, e, por consequência tem desvantagens em relação a outros, tal qual lugar de moradia, acesso a algum plano de saúde, acesso ao lazer, entre outros. Isso se estende a características como raça, gênero, orientação sexual, e vários outros. Assim, cada indivíduo carrega consigo diferentes privilégios e desvantagens sociais. Cabe, portanto, a cada um, fazer uma autoanálise e reconhecer quais são seus privilégios para, dessa forma, pensar em meios de usá-los para subverter e transformar a sociedade e dar espaço e voz ao silenciados.
No entanto, essa é uma visão extremamente utópica e, apesar de me considerar uma mulher um tanto quanto optimista quanto à possibilidade de transformação, é ingênuo pensar que todos os detentores do poder, após uma reflexão, lutarão junto aos dominados a fim de acabar com o sistema de dominação social. Desse modo, outra abordagem (uma mais realista) é fundamental. Para mim, o investimento que mais faz sentido e que mais traz resultados é a educação de qualidade. Não me refiro a educação de matemática ou física ou geografia, me refiro a uma visão mais ampla dela: sua democratização. Acredito profundamente no poder emancipador que vem a partir da democratização do acesso à educação e da informação de forma geral. Essa é uma luta que felizmente tem avançado consideravelmente nos últimos tempos, com entusiastas da educação. Ainda sim, ainda há muito o que ser feito. Essa deve ser uma luta de todos, não somente dos indivíduos inseridos no meio acadêmico. Esse é um setor multifacetado que necessita de investimentos pesados e abordagens versáteis, a fim de levar a todos uma educação crítica, transformadora, gratuita e de qualidade. Logicamente, a reestruturação do esqueleto social não é da noite para o dia, mas creio que, com o desenvolvimento de um caráter crítico no processo da aprendizagem, os princípios retrógrados, utilizados para a dominação de povos invizibilizados, sejam gradualmente descontruídos.
Por último, acredito também na força de uma militância prática, que efetivamente se ponha a dispor da sociedade a tirar dúvidas, debater e construir um conhecimento coletivo que emana do povo. Projetos sociais e de inclusão, nesse contexto, são notáveis pela sua eficácia e sua importância, tal qual o curso pré-vestibular Galt, idealizado por quatro estudantes da Universidade de Brasília, que é gratuito e atua no auxílio educacional e psicológico a jovens de baixa renda. Outro exemplo é o projeto clínico Cravinas, um projeto de extensão da Universidade de Brasília, que atua no auxílio jurídico e psicológico de mulheres, focadas em Direitos Humanos e Direitos Sexuais e Reprodutivos. Nesse contexto, cabe também relembrar e celebrar a força da Universidade Pública que, com ensino de qualidade, projetos de extensão, desenvolvimento de pesquisas e muito mais, contribui, como demonstrado acima, na reestruturação social e na construção de um mundo mais justo.
Finalmente, concluo que, nesse momento de isolamento social, é quase um dever reconhecermos nossos privilégios e revermos nossos ideais, torcendo e lutando por aqueles que não tem as mesmas vantagens e possibilidades que nós. Como disse Francis Scott Key Fitzgerald, “Sempre que tiver vontade de criticar alguém, lembre-se de que nem todo mundo teve as oportunidades que você teve”. Novamente, uma reestruturação de uma ordem construída durante séculos não ocorre repentinamente, mas sim com projetos de curto, médio e longo prazo, com planejamento, com visão de coletividade e com aplicação de políticas públicas inovadoras e adaptáveis. No mais, reforço as recomendações da Organização Mundial da Saúde: fiquem em casa, respeitem a quarentena, lavem as mãos e permaneçam em segurança!
Respeitosamente,
Daniela Rocha.

Carta de Lucas Nascimento
 Brasília, 30 de março de 2020
Querida sociedade,
           
            Começo esta carta com os mais sinceros votos de saúde e esperança de tempos melhores para todos.
            Vivemos hoje tempos difíceis, um vírus, um simples organismo microscópico, que nem sabemos ainda ser vivo ou não, ao qual nunca nos demos o trabalho de nos preocupar, assola e aterroriza o mundo inteiro, causando dor, sofrimento e estragos financeiros e emocionais por onde passa.
            Vejo muitos, neste momento tão terrível, procurando encontrar culpados ou responsáveis para esta grande crise, mas devemos parar de encontrar indivíduos ou nações que sejam culpadas e começar a refletir qual é a nossa culpa nessa história toda. Se a culpa do surgimento da epidemia foi teoricamente a cultura de uma nação de se alimentar de animais exóticos, devemos nos questionar primeiro em de onde surgiu essa cultura? A grande fome como é chamada a grave crise enfrentada pela China entre 1958 e 1962 matou dezenas de milhões de pessoas de fome no país, as pessoas não tinham o que comer e passaram a se alimentar do que encontravam, podemos hoje responsabiliza-las por tentar sobreviver?
Devemos passar a nos perceber não mais como indivíduos isolados, mas como membros de uma sociedade viva, onde cada uma de nossas ações refletem não só em nós mesmos, mas também nos próximos, no mundo inteiro. Hábitos simples de higiene podem evitar do vírus se espalhar para outras pessoas, então como explicamos que um vírus saído da China conseguiu se espalhar por todo o mundo, matar milhões e destruir a economia de vários países? Não há respostas, não há o que fazer para mudar o que já aconteceu.
Vamos olhar para o futuro de agora em diante, lembrando sempre daqueles que partiram e desejando para que onde estiverem, estejam em um bom lugar, pois como disse o famoso personagem Alvo Dumbledore “Não tenha pena dos mortos, tenha pena dos vivos, e acima de tudo, daqueles que vivem sem amor” (ROWLING, J.K, Harry Potter e as relíquias da morte, 2007, p.525).
Nossa maior preocupação neste momento deve ser qual atitude devemos tomar, qual mudança devemos fazer para que essa situação melhore e as nossas vidas possam voltar a seguir. Lavem as mãos, usem álcool em gel, cuidem da saúde, melhorem a alimentação, cuidem da higiene e pensem sempre no próximo, parem de ter atitudes egoístas e percebam que tudo que fazemos afeta aos outros e nos afeta, direta ou indiretamente.
Passemos a olhar para o futuro com mais responsabilidade, vamos trilhar novos caminhos para que nossa sociedade evolua como um todo a partir dessa grave crise, que os exemplos de generosidade enxergados por todo o mundo se multipliquem para além dos momentos de crise e que passemos a nos preocupar com aqueles que necessitam de ajuda mesmo quando estamos com nossas vidas em ordem. Façamos da empatia um sentimento diário, um exercício de humanidade para o resto de nossas vidas, pois como já dito pelo filósofo Zygmunt Bauman “Não são as crises que mudam o mundo e sim nossa reação a elas”.
            Lavem as mãos e fiquem em casa.
            Muito atenciosamente,
Lucas N.
Carta de João Guilherme Bezerra da Silva Oliveira
Brasília, 27 de março de 2020
Caros colegas e professores,
A ideia de escrever uma carta me parece bem interessante no presente momento, uma vez que para escrever é necessário pensar, e para pensar é preciso refletir sobre a situação que vivemos, e não simplesmente aceitá-la e conviver com ela.
A maior lição que o coronavírus ensinou a todos foi a importância da solidariedade social entre as pessoas. Afinal, o que seria do mundo agora se todos que estão em casa agora tivessem ignorado as recomendações da OMS e quisessem continuar com suas vidas normalmente? O quadro clínico, que já não é favorável, com certeza estaria muito pior.
Por outro lado, creio que as seria um pouco idealista da minha parte falar sobre solidariedade sem mencionar o impacto que essa crise trouxe sobre alguns aspectos da nossa vida, como a economia e a atuação do Estado.
A questão econômica é preocupante, mas não por causa de afirmações absurdas como a de que Brasil vai quebrar se todo mundo ficar em casa, mas sim pelo fato de que nossa economia ser tão frágil ao ponto de termos que escolher entre vidas e crescimento econômico. Por um lado, devemos priorizar as vidas e evitar a todo custo sair de casa, mas por outro, vemos a insegurança de comerciantes e micro empresários, por que as grandes companhias podem facilmente aguentar um período sem funcionar e ainda pagar os salários aos trabalhadores, mas os pequenos negócios não tem esse luxo.
E é nesse ponto que eu quero dissertar sobre o papel do Estado nisso tudo. Porque afinal, do que adianta pagar impostos se quando a gente precisa, o governo não dá o amparo devido ao microempreendedor? Ao trabalhador? Até mesmo quem não paga impostos, como trabalhador informal, deveria ter ao menos uma garantia de que pode ficar em casa sem se preocupar se vai ter o que comer a noite. Que tipo de ideia estamos deixando para as crianças ao dizer que algumas mortes são inevitáveis, mas é melhor isso do que prejudicar a economia? É esse o país que queremos?
Quero deixar então essa minha última reflexão nessa carta: É muito fácil para algumas pessoas criticar alguns patrões sobre a decisão de querer que seus funcionários continuem trabalhando. Contudo,não podemos por todos eles no mesmo saco, porque enquanto realmente existem empresários que só se importam com o lucro, existem aqueles que precisam continuar funcionando para que não quebrem. Nesse caso, devemos adotar o conceito marxiano de justiça, que consiste em dar a cada um de acordo com a sua necessidade. O Estado deve então atuar para  oferecer uma ajuda para o trabalhador, de modo que o microempresário não corra o risco de quebrar e o trabalhador tenha sua renda garantida.
Considero essa carta como encerrada por aqui e agradeço pela oportunidade de expressar meus pensamentos de forma tão sucinta.

Atenciosamente,
João Guilherme Bezerra da Silva Oliveira

Carta de Saulo Henrique Dias Oliveira

Brasília, 14 de abril de 2020. 

Olá, caríssimos e caríssimas!
Desejo profundamente que estejam bem. Infelizmente, nosso último encontro presencial da disciplina de Pesquisa Jurídica foi há 34 dias e imagino que, assim como para mim, este processo de isolamento social não esteja sendo fácil para vocês. Sei que é bastante assustador não termos certeza de como as coisas ocorrerão daqui para frente, mas espero que logo tudo se estabilize e possamos nos reencontrar novamente. Hoje, estou a escrever-lhes a fim de trazer duas ideias para a reconstrução ética e social a partir da crise que estamos vivendo.
A primeira consiste em sempre buscar colocar os interesses coletivos acima dos individuais. Nesse sentido, dado o contexto atual, esta atitude mostrou-se mais necessária do que nunca. Isso pode ser exemplificado por um caso que eu imagino ser do conhecimento de todos vocês: o do esposo da primeira paciente diagnosticada com coronavírus no Distrito Federal, que devendo ficar recluso em sua residência e passar por exames para  a averiguação de contaminação pelo vírus, fez o contrário e, pensando somente em si mesmo, circulou pela cidade – podendo transmitir a covid-19 - até que uma decisão judicial o impediu com base no entendimento de que o direito individual de livre locomoção não se sobrepõe a uma questão de saúde pública, o que ratifica a importância dessa ideia de que o bem comum deve se sobrepor ao individual.
A segunda, por sua vez, corresponde ao aumento da empatia entre os membros do tecido social. Acerca disso, convém salientar que a predisposição do homem alienado de não se compadecer com as ânsias ou sofrimentos alheios - denominada pelo sociólogo Hebert Marcuse como “Mecânica do Conformismo” - era quase que regra na sociedade contemporânea. Contudo, a existência de um vírus que ceifa vidas, independente de classe, raça, sexo, cor ou idade, evidenciou a vulnerabilidade humana, fazendo com que parte dos indivíduos voltassem a possuir a capacidade de se colocar no lugar do outro e, por conseguinte, expandissem seus laços de solidariedade. Assim, vejo que, para uma reconstrução ética e social, é indispensável que este aumento continue a ocorrer também após término da crise causada pela covid-19, com o fito de que aliado à primeira ideia, possa tornar a sociedade mais coesa.
Enfim, meus queridos, torço para que minhas ideias possam levá-los a refletir um pouco, com o intuito de que ao fim desta pandemia estejamos melhores ética e socialmente. Cuidem-se e até junho... espero eu!

Grande abraço,
Saulo Dias.


Coronavírus (COVID-19) tome cuidado, parente!


Coluna Lido para Você, por José Geraldo de Sousa Junior, articulista do Jornal Estado de Direito

Coronavírus (COVID-19) Tome Cuidado, Parente! Equipe do Programa Rio Negro do Instituto Socioambiental (ISA). Edição e organização Juliana Radler (ISA). Distribuição Impressa e Eletrônica: Equipes de Saúde do DISEI-ARN, Secretaria Municipal de São Gabriel da Cachoeira, Rede Wayuri de Comunicação Indígena, FOIRN e ISA (file:///F:/JG%202020/portugues-2.pdf).
        Para esta Coluna Lido para Você, começo agradecendo a Renata Carolina Corrêa Vieira, da assessoria jurídica do ISA, por me ter dado a conhecer esse precioso material, um exemplo de iniciativa do social que se oferece em aliança com os movimentos sociais, livre da hierarquia subordinante da institucionalidade governamental, quando essa não se deixa arrebatar pelos titulares legítimos do poder político, ou seja, enquanto o estado não se constitui como sugere Boaventura de Sousa Santos, ele próprio um novíssimo movimento social, no interesse do Povo. Na impossibilidade de instalar o tradicional Acampamento Abril Indígena neste ano, o Informativo revela que a luta por direitos em tempos de pandemia pode se dar num espaço virtual crítico e ampliado para defender e ampliar direitos.
        Desde logo uma citação forte. “A morte de uma pessoa é uma tragédia; a de milhões, uma estatística”… Joseph Stalin. Apesar da autoria, não deixemos que o noticiário, com o anúncio de milhares de mortos pelo coronavírus, nem o descontrole de cúpula na condução das ações de enfrentamento à pandemia, contaminem o nosso humanismo. Mas tenhamos em conta que só seremos fundamente tocados quando os números e as estatísticas forem substituídos pelos rostos humanos, de parentes, amigos, pessoas que nos são familiares. Também não ocultemos que o extermínio de milhões de ameríndios, desde El encubrimiento del outro. Hacia el origen del mito de la modernidad, conforme designa Enrique Dusserl, nos aliene da  compromisso necessário com os povos originários, que são a nossa ancestralidade antropológica e histórica e que são a nossa nossa aliança para um futuro humano possível, em harmonia com o a natureza e o cosmos. E é nosso dever, com esses povos, nesta conjuntura dramática, assisti-los e cooperar com a sua titularidade subjetiva para definir suas estratégias de autoproteção e de autonomia.
        A citação não é trivial se levamos em conta o incremento desde a instalação de um governo ultraneoliberal de ações e eventos graves que têm resultado em graves violações de direitos desses povos e de outros grupos tradicionais, com a afetação da agenda dos órgãos de fiscalização e de proteção (Funai, Fundação Palmares, AGU, Partidos,  militarizados e engajados numa orientação de interesse expropriatório, criminalizadora e leniente a uma tolerância a assassinatos e práticas genocidas. Para aferir essa percepção, basta uma pesquisa ligeira no noticiário, notadamente acerca de mortes de indígenas e de violações de seus territórios. Nos vários aspectos, consulte-se, os meus textos em co-autoria com Renata Carolina Corrêa Vieirahttps://diplomatique.org.br/a-funcao-social-da-propriedade-pedra-angular-da-constituicao-cidada/http://www.ihu.unisinos.br/78-noticias/594845-do-peru-profundo-os-povos-indigenas-trazem-de-suas-lutas-pelo-bem-viver-uma-proposta-de-pacto-para-renaturalizar-os-direitos-humanoshttps://constitucionalismo.com.br/direito-achado-na-rua-como-horizonte-democratico-participativo/https://www.comissaojusticaepazdf.org.br/3518-2/ Democracia e bem viver: semear vida onde só há morte.
        Nesse sentido de compromisso foi elaborado o informativo, tendo como responsáveis pelo Conteúdo: a Equipe do Programa Rio Negro do Instituto Socioambiental (ISA) com a colaboração de Dulce Meire Mendes Morais, especialista em Saúde Coletiva, mestranda da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo (USP), com informações do Ministério da Saúde e Organização Mundial da Saúde (OMS). Os Desenhos são de @o.ribs e a Diagramação de Raquel Uendi.
        O mais importante, os Tradutores nas línguas indígenas: André Fernando (Baniwa), Elizângela da Silva Baré e Edson Gomes Baré (Nheengatu), Justino Sarmento Rezende (Tukano) e Roberto Carlos Sanches (Dâw). Assim como a Adaptação para os povos Naduhup: Américo Socot Hupd’äh, Bruno Marques, Karolin Obert e Patience Epps.
        Primorosa a edição e organização, por: Juliana Radler – Instituto Socioambiental (ISA)
        E, por fim, a Distribuição impressa e eletrônica: Equipes de Saúde do DSEI-ARN, Secretaria municipal de Saúde de São Gabriel da Cachoeira, Rede Wayuri de Comunicação Indígena, FOIRN e ISA, que formam praticamente um sala de crise para atuar, a partir do Projeto Rio Negro, no sentido de que Prevenir é melhor que remediar.
        O informativo, aqui indicado por seus links respectivos, além do português,  cujo link está na chamada deste Lido para Você,  pode ser visto nas línguas em foi publicado: file:///F:/JG%202020/tukano-2.pdf, file:///F:/JG%202020/baniwa-2.pdf, file:///F:/JG%202020/daw-2.pdf, file:///F:/JG%202020/hupda-2.pdf e file:///F:/JG%202020/neenhgatu-2.pdf.
        Nos textos, informações importantes, oferecidas numa linguagem de compreensão que apreenda o imaginário dos destinatários, no que eles precisam saber: o que é o coronavírus (COVID-19)?, como pega a doença?, grupo de risco,  o que fazer se sentir os sintomas?, como se proteger?, evitar aglomeração de pessoas ficar em nossas casas e comunidades é o mais importante agora; o que fazer se tiver alguém doente em casa?, cuidado com as notícias falsas.
        O Informativo ajusta a repercussão geral da questão, aos cuidados e à condições próprias do local de vivência das comunidades, principalmente em São Gabriel da Cachoeira e lembra que na região do Médio e Alto Rio Negro não existem UTIs, e os casos graves têm que ser levados para Manaus, na logística do lugar com dias de viagem em barco. Chama a atenção para a necessidade de levar parentes recém-chegados, com ou sem sintomas a exame médico, para adotar os procedimentos recomendados; e orienta conforme os hábitos e usos culturais da Comunidade: “se alimentar bem com alimentos que contêm vitamina C, que ajudam na imunidade (ex. abóbora, cubiu, pupunha, jambu, mastruz, alho e cebola; não produzir o caxiri para não disseminar o vírus”.
        O esforço não é pequeno quando se tem em conta a tremenda dificuldade que é circunscrever a atenção aos interesses indígenas em meio a uma concepção pós-colonial ainda generalizada e inscrita nos discursos assimilacionistas de altas autoridades para as quais indígenas são um pouco mais que pré-históricas mas ainda sub-humanos, como se o Papa Paulo III, em 1537, já não tivesse esclarecido essa questão, reconhecendo, após o Debate de Valladolid, a sua humanidade. Entretanto, lá como agora, essa disputa antropológico-teológica-jurídica, ainda encobre o seu fundo real, avançar sobre terra e território, para sequestrar da visão identitária da pachamama, segundo a qual a natureza é vida, para coisificá-la, privatizá -la e mercadorizá-la.
        Certo que há as leituras de resistência, tal as inscritas nos programas internacionais de formação, conforme os cursos internacionais, interdiciplinares e interculturais que o IIDS – Instituto Internacional Derecho y Sociedad, do Perú organiza, sob a orientação acadêmica e expertise de sua diretora Raquel Yrigoyen Fajardo,  em sede de direitos humanos internacionais e litígio estratégico em direitos humanos, voltados para o conhecimento e a aplicação dos  sistemas jurídicos indígenas no enfoque do Pluralismo Jurídico Igualitário e Descolonização .
        Assim se compreende como, por exemplo, segundo relata Raquel Yrigoyen Fajardo, “na Comunidade Camponesa de Huancas, Chachapoyas, as rondas camponesas fazem com jurisdição autônoma o controle em seu âmbito territorial, para evitar o ingresso de estranhos e a propagação do Covid19, algo que está acontecendo no Perú, hoje. Ainda que, em alguns lugares, a polícia e prefeitos, em vez de coordenar com as autoridades indígenas (nativas, camponesas, de rodadas camponesas ou povos originários), as estejam criminalizando por exercer o controle territorial e a proteção da sua vida e integridade!”.
        Ainda no Perú, embora em geral mobilizado pela atenção à infância (niñez), meu querido amigo Salvador Herencia, do Grupo de Comunicação Salgalu, ajusta a editoria de seu sistema de comunicação para ampliar a sua aliança com as comunidades e povos tradicionais: “La pandemia del coronavirus no conoce fronteras ni barrera que la detenga. Tras las medidas tomadas por el gobierno para frenar la propagación, distintas poblaciones se han visto afectadas no solo por las restricciones (accesos para movilizarse), sino por la falta de insumos sanitarios para prevenir este mal. Ante ello, 9 presidentes de organizaciones indígenas de la Amazonía acordaron declararse en emergencia por el la Covid-19. Estas organizaciones que pertenecen a la Asociación Interétnica de Desarrollo de la Selva Peruana (AIDESEP), tomaron esta decisión ante los posibles daños a los que se encuentran expuestos sus comunidades por la pandemia del coronavirus. Así, los líderes indígenas llamaron a todos los pueblos al cierre de sus fronteras como medida de prevención”. (https://www.salgalu.tv/vernoticiatv/326?fbclid=IwAR36ENhXjrLF22mvs5pg9hkXmWSPkUGbT3BhWwpRl3PlHEHqF6YkjB7Oz20).
        Enquanto que aqui, ainda que bem intencionadas, por desconhecerem uma linguagem de mediação entre políticas e usos comunitários, até o que se abre como expectativa de apoio, carrega riscos que têm efeito paradoxal. Um pouco o que se passa na Amazônia neste momento. Mesmo tendo o Governo e o Parlamento editado lei que visa a beneficiar milhões de brasileiros com o programa Bolsa Família, o seu modo de implementação na crise sanitária, pode levar a colapso o sistema social e de saúde. É que os indígenas estão acostumados a se deslocar das comunidades e das aldeias, para a cidade, uma vez por mês. Agora, com o benefício ampliando, haverá um incentivo que aponta para uma catástrofe anunciada.  Só em São Gabriel da Cachoeira já são 8.500 famílias cadastradas para receber esse dinheiro vivo, que na lógica colonialista arrastará os beneficiários com os riscos de contágio para retirar os valores. É preciso encontrar modos de entrega desse dinheiro, num fundo talvez, para que o recebimento desses insumos necessários, não arrastem tantas pessoas para a cidade.
        São medidas que precisam ser tomadas mas que não podem prescindir de consultas aos povos, nos seus diferentes níveis de representação (http://apib.info/2020/03/20/governo-deve-apresentar-plano-de-prevencao-e-atendimento-para-evitar-riscos-de-contaminacao-de-coronavirus-nos-territorios-indigenas/), e necessariamente adotadas, pede a APIB – Articulação dos Povos Indígenas do Brasil,  seguindo um “Plano de Contingência para Surtos e Epidemias, considerando as especificidades dos nossos povos, o seu modo de vida comunitário, que pode facilitar a programação rápida do Coronavírus, requeremos dos organismos internacionais, principalmente da Organização Mundial de Saúde (OMS) e da Organização Panamericana de Saúde (OPAS) a disponibilização de testes em caráter especial e de urgência para as unidades de saúde indígena”.
        E essas medidas se fazem tanto mais urgentes quanto em nosso País, o desmantelamento atual da infraestrutural social e de saúde das populações indígenas, passou a ser uma opção de política pública de um governo assumidamente disponível para cumprir a agenda neoliberal. Veja-se a esse respeito o informe enviado à ONU e à CIDH pela AIDA, sobre a situação das populações indígenas do Brasil e da Colômbia: “Los indígenas brasileños están aún más expuestos al COVID-19 debido a problemas estructurales en los servicios de salud en Brasil. El desmantelamiento de la Secretaría Especial de Salud Indígena, responsable de la atención de más de 765.000 indígenas en el país, ha sido denunciado desde el año pasado por entidades indígenas. Es probable que el debilitamiento de las instituciones indígenas tenga un impacto dramático en esas poblaciones durante la pandemia” (https://aida-americas.org/es/recurso/informes-a-la-onu-y-cidh-sobre-la-situacion-de-pueblos-indigenas-de-brasil-y-colombia-ante-el-covid?fbclid=IwAR2BT7-n1_jICYqmclPpQd44QGd-rv0BJsrWKC_Tp00VvRyTRgPokA5U9S8).
        Não é pedir nada além do que já se enuncia na Política Nacional de Educação Popular em Saúde no âmbito do Sistema Único de Saúde (PNEPS-SUS), essa notável criação do espírito democrático brasileiro, antes desse surto autoritário que contamina o social em nosso País, conforme a Portaria nº 2.761, de 19 de novembro de 2013.  Trata-se de ter presente que o PNEPS-SUS reafirma o compromisso com a universalidade, a equidade, a integralidade e a efetiva participação popular no SUS, e propõe uma prática político-pedagógica que perpassa as ações voltadas para a promoção, proteção e recuperação da saúde, a partir do diálogo entre a diversidade de saberes, valorizando os saberes populares, a ancestralidade, o incentivo à produção individual e coletiva de conhecimentos e a inserção destes no SUS. Embora se pressinta que essa linguagem soe estranha e distante do imaginário turvo dos gestores atuais das políticas sociais, na visão deles, um sub-produto do desempenho prioritário do econômico, ou seja, a subornibação da vida à mercadoria.
        Trata-se também de não perder de vista e descuidar-se na prática os princípios que orientam essa política: o diálogo; a amorosidade; a problematização; a construção compartilhada do conhecimento; a emancipação; e o compromisso com a construção do projeto democrático e popular.
        Ainda conforme essa política, entende-se por diálogo o encontro de conhecimentos construídos histórica e culturalmente por sujeitos, ou seja, o encontro desses sujeitos na intersubjetividade, que acontece quando cada um, de forma respeitosa, coloca o que sabe à disposição para ampliar o conhecimento crítico de ambos acerca da realidade, contribuindo com os processos de transformação e de humanização; por  amorosidade  a ampliação do diálogo nas relações de cuidado e na ação educativa pela incorporação das trocas emocionais e da sensibilidade, propiciando ir além do diálogo baseado apenas em conhecimentos e argumentações logicamente organizadas; por  problematização  a existência de relações dialógicas e propõe a construção de práticas em saúde alicerçadas na leitura e na análise crítica da realidade; e por  construção compartilhada do conhecimento os processos comunicacionais e pedagógicos entre pessoas e grupos de saberes, culturas e inserções sociais diferentes, na perspectiva de compreender e transformar de modo coletivo as ações de saúde desde suas dimensões teóricas, políticas e práticas.
        Tudo isso sem reduzir o alcance que baliza essa política, no que a emancipação é um processo coletivo e compartilhado no qual pessoas e grupos conquistam a superação e a libertação de todas as formas de opressão, exploração, discriminação e violência ainda vigentes na sociedade e que produzem a desumanização e a determinação social do adoecimento; e o compromisso com a construção do projeto democrático e popular é a reafirmação do compromisso com a construção de uma sociedade justa, solidária, democrática, igualitária, soberana e culturalmente diversa que somente será construída por meio da contribuição das lutas sociais e da garantia do direito universal à saúde no Brasil, tendo como protagonistas os sujeitos populares, seus grupos e movimentos, que historicamente foram silenciados e marginalizados.
        Agora, ao final, uma nota sensível. O Informativo se dirige aos parentes: tome cuidado, parente!; repetindo a expressão em sua tradução possível, nas quatro línguas ( baniwa, daw, hupda, neenhgatu, tukano). Segundo o Glossário Adelco (https://adelco.org.br/), “é comum que indígenas de povos distintos tratem uns aos outros pelo termo, mesmo não havendo laço consanguíneo direto. Trata-se de uma categoria nativa, por meio da qual os representantes de diferentes povos reconhecem-se uns aos outros. Nesse Glossário, o temos “não significa que todos os índios sejam iguais e nem semelhantes”. Mas que “compartilham interesses comuns”, apesar da diversidade de povos, culturas, civilizações…e uma multiplicidade de formas de vida”.
        O fato é que o termo tem chamado a atenção e tem desafiado um exercício intercultural de tradução, para expressar percepções de vida, de sociedade e de natureza. Boaventura de Sousa Santos elegeu a expressão para orientar estudos epistemológicos desde o Sul (O Fim do Império Cognitivo. A afirmação das epistemologias do Sul). No Informativo, o uso do termo traduz essa intencionalidade e remete a um chamado para que as ações de cuidado na pandemia, não se emaranhem em distinções que reduzam as expectativas dos povos e as suas exigência de reconhecimento.
José Geraldo de Sousa Junior é Articulista do Estado de Direito, possui graduação em Ciências Jurídicas e Sociais pela Associação de Ensino Unificado do Distrito Federal (1973), mestrado em Direito pela Universidade de Brasília (1981) e doutorado em Direito (Direito, Estado e Constituição) pela Faculdade de Direito da UnB (2008). Ex- Reitor da Universidade de Brasília, período 2008-2012, é Membro de Associação Corporativa – Ordem dos Advogados do Brasil,  Professor Titular, da Universidade de Brasília,  Coordenador do Projeto O Direito Achado na Rua.55

terça-feira, 14 de abril de 2020


Angústia pela segurança e negatividade da realidade*
Professor de Filosofia do Direito. Universidade Carlos III de Madri

Desde o início do século XXI, vários eventos globais aumentaram o sentimento de ansiedade em relação à segurança. Se a crise econômico-financeira de 2008, com suas receitas de austeridade econômica e insegurança social, mergulhou nossas sociedades liberais em uma depressão coletiva, a pandemia da covid-19 levou-nos a uma verdadeira angústia por reforçar a segurança e a imunidade.
Mais uma vez nos deparamos com a velha tensão hobbesiana entre liberdade e segurança que passou pelo desenvolvimento histórico das democracias liberais da modernidade política. O medo sempre nos condicionou a aceitar acriticamente imposições sobre nossas liberdades. A reação ao medo e à angústia existencial coletiva será agora a mesma de outros momentos históricos? Como salvaguardamos nossas liberdades e, consequentemente, nossas democracias ocidentais nesta crise de coronavírus ?
Por um lado, vemos que muitas pessoas, ansiosamente isoladas dos riscos coletivos iminentes, estão dispostas a abandonar suas liberdades em troca de uma busca contínua por espaços e limites de segurança, em prol de uma idéia incompreendida de segurança física ou de segurança. autopreservação. Por outro lado, a resposta das democracias liberais a esse tipo de crise às vezes não é democrática nem liberal, porque enfraquece a garantia constitucional dos direitos fundamentais em favor da defesa contra um inimigo que deve ser aniquilado ou morto, a crise financeira de 2008, o terrorismo jihadistaou agora a pandemia global. Quando esse objetivo é colocado em preferência à liberdade e à dignidade humana, os preceitos democráticos liberais estão sendo colocados sob evidente tensão, ao mesmo tempo em que estão minando a unidade moral de uma sociedade sem a qual o envolvimento não é possível. legitimar os cidadãos com estruturas reguladoras democráticas.
Vemos, às vezes preocupados, outros indolentes ou até covardes, como as conquistas civilizacionais são limitadas, o autoritarismo ou o tecnototalitarismo são acentuados e as rupturas são introduzidas no tecido social. Um discurso de exaltação da segurança e da ordem está instalado no imaginário social, que deriva de uma lógica de confronto quase militar ou de guerra. Essa é uma posição que leva à imobilidade e à renúncia à busca de opções utópicas de mudança social ou alternativas a situações reais de injustiça ou catástrofe.
Por sua vez, essas situações são às vezes minimizadas ou até negadas, como ocorre com as mudanças climáticas e o aquecimento global, as teorias evolutivas e o próprio coronavírus a princípio. E a negação é alimentada por posições que tentam convencer a todos ou, pelo menos, semear a dúvida de que eles estão nos enganando, construindo uma abstração vazia de conteúdo que não oferece uma alternativa viável. Diante da dureza ou desconforto da realidade, alguns apelam à descrença e à regressão a um passado dividido que deveria ser melhor, mas que nunca retornará. E é isso que nos causa um pânico moral ou uma reação irracional de rejeição das ameaças reais que se manifestam contra os valores e interesses dominantes da sociedade.
O medo e a busca por espaços de segurança são um vetor central na estruturação social, que colide diariamente com a necessidade de ação livre dos seres humanos. Mas a liberdade não é apenas fazer o que você quer, mas fazer o que você deve. E aqui está a questão, na responsabilidade individual e coletiva de enfrentar crises sem obscurecer problemas ou criar novos.

A Professora Fariñas-Dulce participou em dezembro de 2019, em Brasília, na UnB, do Seminário Internacional Direito como Liberdade: 30 Anos de O Direito Achado na Rua

quarta-feira, 8 de abril de 2020

Pesadelo. Narrativas dos anos de chumbo

Coluna Lido para Você, por José Geraldo de Sousa Junior, articulista do Jornal Estado de Direito



Pesadelo. Narrativas dos Anos de Chumbo. Pedro Tierra. São Paulo: Autonomia Literária: Fundação Perseu Abramo, 2019, 160 p.

      Em coluna anterior deste Lido para Você abordei o tema da tortura, a propósito de obra editada pelo antigo Ministério dos Direitos Humanos, ao tempo da gestão do Ministro Paulo Vannuchi (http://estadodedireito.com.br/tortura-coordenacao-geral-de-combate-a-tortura/). No texto, mencionei que “sobre a tortura como instrumento da política ainda não há registros fortes, mas cenas recentes das redes sociais têm exibido a prática desse método em abordagens policiais carregadas de racismo, homofobia, misoginia e hostilidade de classe, de todo modo nutrido pelos discursos de altas autoridades que não ocultam a desqualificação de segmentos do social (parasitas na designação de servidores públicos; sub-humanidade para caracterizar indígenas ou para confinar ativistas), em todo caso com apelos de exaltação a torturadores judicialmente reconhecidos, chamados ao paraninfado de uma governança que não disfarça uma postura miliciana. Por isso escolhi para o Lido para Você na Coluna hoje publicada, a leitura de uma obra fruto de um Seminário Nacional que colocou no horizonte da construção democrática e do simbólico do nunca mais, valor central da Justiça de Transição, a objeção sem recuo a toda forma de tortura. Na designação desta obra, descrita na epígrafe, incluo o link para o acesso completo da edição, cujo sumário a seguir transcrito, dá a medida da importância dos temas que ela contêm, todos atualizáveis para advertir os perigos da conjuntura sóbria que atravessamos”.
      Me dou conta, ao interpretar vários sinais, entre eles o de uma governança que dá todos os indícios senão de insensatez, de preocupante insanidade (se se observa a conduta totalmente na contramão de tudo que se observa no mundo para enfrentar a mais terrível pandemia dos últimos séculos), que as ameaças são mais reais que supostas.
      Sem ilusões, mesmo na travessia ascendente de uma quadra democrática e de reconhecimento dos direitos políticos, sociais e econômicos, cuja representação mais eloquente foi a promulgação da Constituição de 1988, celebrada como a carta da cidadania, nunca se perdeu de vista que a história não é linear, que há retrocessos, que a derrota de autoritarismos sobretudo em experimentos nutridos nas tensões decoloniais e nas contradições do modo capitalista de acumulação e seu contrabando opressor – racismo,  patriarcalismo e seu excesso misógino, espoliação de classe, não os elimina e eles ressurgem, sendo imperioso cultivar atitudes de defesa da democracia e dos direitos e não descuidar que o horizonte civilizatório obriga a preservar os fundamentos do nunca mais desenvolvidos na experiência de afirmação da justiça de transição.
      Por isso que, no catálogo de atenção das pesquisas do Grupo O Direito Achado na Rua, esse tema foi sempre uma prioridade e procuramos construir bases para prevenir novos pesadelos, evitar adentrar mais uma vez em anos de chumbo. Para lembrar cuidados político-epistemológicos remeto ao pdf do vol 7, da Série O Direito Achado na Rua: Introdução Crítica à Justiça de Transição na América Latina, contribuição do Grupo de Pesquisa à forte bibliografia do campo, nos anos recentes, no Brasil e no mundo, compreendendo análises teóricas, registro de experiências, programas culturais acentuando marcas de memória, mostras de teatro, cinema e uma literatura que mesmo quando estritamente ficcional, é desesperadamente realista, no sentido que se lhe atribuiu como característica narrativa, o realismo fantástico (https://cjt.ufmg.br/wp-content/uploads/2019/02/DE-SOUSA-JR-Jos%C3%A9-Geraldo.-DA-FONSECA-L%C3%ADvia-Gimenes-Dias.-DA-SILVA-FILHO-Jos%C3%A9-Carlos-Moreira.-PAIX%C3%83O-Cristiano.-RAMPIN-Talita-Tatiana-Dias.-S%C3%A9rie-O-Direito-Achado-na-Rua-vol.-7_compressed.pdf). Também ao audiovisual sobre o mesmo tema e no âmbito do mesmo projeto – O Direito Achado na Rua/Comisão de Anistia do Ministério da Justiça -, produzido pela UnBTV (https://www.youtube.com/watch?v=GB75KS9I8pA).
      Aproveito o mote lançado acima, para me referir à mais recente elaboração que me chega às mãos oferecida pelo Autor, exatamente o livro que agora Leio para Você – Pesadelo. Narrativas dos Anos de Chumbo, de Pedro Tierra, pseudônimo literário de Hamilton Pereira da Silva, seu autor e personagem. Conheço bem o poeta e escritor Pedro Tierra de Poemas do Povo da Noite, Menção Honrosa no Prêmio Casa de las Américas, em 1977, da Missa da terra sem-males, em parceria com Dom Pedro Casaldáliga e Marin Coplas e da Missa dos Quilombos, também com Dom Pedro Casaldáliga e Milton Nascimento, tantas vezes recitados, cantados e encenados em saraus de resistência, além de outros escritos e poemas. Com o político Hamilton Pereira, compartilhei projetos quando ele era Secretário de Cultura no Distrito Federal e eu Reitor da UnB, bastando lembrar a realização do FLAAC 2012, Festival Latino-Americano e Africano de Arte e Cultura, para marcar o jubileu da universidade. Então procuramos dar concretude ao que Hamilton chamou de Sonho de Vanguarda, para designar nessa realização, o que ele compreendeu: A UnB viveu, irmanada com a cidade, todos os momentos decisivos da construção do país nos últimos 50 anos: do sonho e da epopeia da construção e da vanguarda do desenvolvimento, no início dos anos 60, à noite sombria da repressão e do arbítrio, entre 1964 e 1984. Da luta pela reconquista da democracia, ao enfrentamento dos novos desafios de um país que se afirma como nação perante seu povo e no cenário internacional” (Revista FLAAC2012, Brasília, UnB/Decanato de extensão, 2012, p. 2). Sobre ambos, confiram no livro o registro notícia de vida de Pedro Tierra (e de Hamilton Pereira da Silva).
      Pesadelo, conforme o próprio Autor indica, é ficção, mas olhando com atenção, percebe-se que o imaginário é um álibi para mergulhar com obstinação numa realidade dramática que só assim logra vir à tona. Como na obra de Arthur Koestler que se disfarça de literatura mas que revela um processo terrível que vai do zero ao infinito, dilacerando um caleidoscópio de memórias que embalam o que o autor viveu e que não pode deixar de contar, ou ao menos do modo como, se não viveu propriamente, é como lembra para contar (Garcia MarquezViver para Contar: “A vida não é o que a gente viveu, e sim a que a gente recorda, e como recorda para contá-la”). No romance de Koestler (Darkness at noon, publicado em português com o título O Zero e o Infinito), o dramático é que o personagem central construído com os traços de um perfil real, é implicado de tal modo num interrogatório, no qual enquanto todos os seus camaradas confessam-se arrependidos, uns por força de tortura física, outros sem entender as acusações, já que fariam tudo o que a Autoridade lhes ordenasse, ele um revolucionário sincero é convencido a concordar com sua culpa, numa atitude sem alternativa ditada por suas próprias e fidedignas convicções.
      O livro se compõe de narrativas, exaltadas nas cores e nos traços de ilustrações de Elifas Andreato. Fulgurantes nos anos de chumbo, prosseguem na conjuturacomo testemunhos de tempos bárbaros, o mandato social que Pedro Tierra assume, como literatura de resistência, cumprindo, assim, um chamado para dizer por meio da ficção a verdade que não se comporta inteiramente no oficialismo de documentos e que com a imaginação fecundada por memórias, permite iluminar as zonas de sombras que ainda predominam sobre acontecimentos dramáticos. As exceções são gritantes, mas em geral porque vêm animadas por uma vocação oculta. Seja porque assim um Graciliano Ramos, prefeito da pequena Palmeira dos Índios cujos relatórios, publicados em imprensa oficial chamaram a atenção do editor Augusto Frederico Schmidt, no Rio de Janeiro, que procurou saber se aquele prefeito que escrevia balanços burocráticos daquela maneira tinha algum livro guardado na gaveta e acertou: “Caetés”, seu primeiro romance, foi publicado pela editora Schmidt, em 1933. Ou se é um Immanuel Kant e não perde a alta indagação filosófica mesmo em parecer de congregação de carreira em sua universidade para localizar a disciplina filosofia do direito, se na Faculdade de Direito ou na Faculdade de Filosofia (Kant, I. Le Conflit des Facultés. Paris: Librairie Philosophique J. Vrin, 1979).).
      Não se inclui também nessa categoria depreciada, o Relatório da Comissão Nacional da Verdade (http://cnv.memoriasreveladas.gov.br/index.php/outros-destaques/574-conheca-e-acesse-o-relatorio-final-da-cnv), retrato de um Brasil cruento, escrito pela fina narração de comissionados de alto esclarecimento profissional e pesquisadores de escol; ou o Relatório da Comissão Anísio Teixeira de memória e Verdade da Universidade de Brasília – (http://www.comissaoverdade.unb.br/images/docs/Relatorio_Comissao_da_Verdade.pdf), também com intensidade narrativa, a ponto de captar o que Tierra registra em Pesadelo: “todo ato de criação é essencialmente um ato de liberdade. Dito de outro modo: a liberdade é o fundamento primeiro de todo ato de criação. Por isso é confundida – e combatida pela ordem – como transgressão”. No Relatório da Comissão Anísio Teixeira de Memória e Verdade da UnB, seus subscritores mostram que o arbítrio não atingiu letalmente apenas as pessoas, no caso da universidade, visou intencionalmente ferir de morte o seu projeto (cf. SALMERON, Roberto. A Universidade Interrompida: Brasília 1964-1965. Brasília: Editora UnB/Edição comemorativa do jubileu da UnB, 2012).
      Na obra de Pedro Tierra, recortes de memória, testemunhos, tributos, formam como que contas de um rosário de confissões (Como em Santo AgostinhoConfissões, Livro X, cap. 3, referindo-se à memória da memória: aquilo que tinha feito contraposto àquilo que era quando estava a escrever. Agradeço a Boaventura de Sousa Santos por ter chamado a atenção exatamente para essa passagem, cf. Sociologia na Primeira Pessoa: fazendo pesquisa nas favelas do Rio de Janeiro. OAB – Revista da Ordem dos Advogados do Brasil. São Paulo: Editora Brasiliense, 1988, p. 40-41: “a auto-invenção, quando autêntica, nunca é arbitrária: é a memória da memória, a reconstrução de uma memória diluída”).
      Em Pesadelo, cada recorte: sinfonia nº 2, o filho do alfaiate, o leitor do livro do apocalipse, coragem, verdades: verdade…, as mãos, os ossos do Rio Verde, se entrelaçam em amarrações dilacerantes (“feridas de morte, as grandes serpentes, nos estertores da agonia, são capazes de sufocar com seus anéis as presas retardatárias, ainda que sejam seus próprios filhos”). Elas evocam engrenagens que roubam substâncias e tornam “um homem sem sonhos”. Mas elas também rastreiam a ética do irredutível nutrida na “confiança entre homens encarceradas”, num exercício visceral para urdir “pelo vai e vem das agulhas manuseadas, medidas em cada gesto”, quando a “palavra…vale pouco”.
      Agora, no Chile, na retomada popular das marchas em protesto à espoliação neoliberal, inicialmente puxadas pelos mapuches, as consignas sintetizaram a disposição social de retomar a subjetividade coletiva emancipatória por democracia e por direitos. A mais expressiva delas: “nos tiraram tanto que nos tiraram o medo”. Se eu posso aferir uma síntese na narrativa de Pedro Tierra é a de que o medo desumaniza. A engrenagem quer “reduzir a zero a consciência de estar no mundo”, porque “anular a consciência dos prisioneiros para convertê-los numa frágil estrutura de carne, nervos, ossos e medo… é rebaixá-los”. Resistir, preservar o humano é exercitar a coragem: “a coragem – aprendemos ali – não elimina o medo: é a sua contraface…a coragem, não há dúvida, é uma dimensão da loucura. Mas dela é possível dizer: ninguém se arrepende de ter tido coragem”.
      É esse humanismo que o livro de Pedro Tierra projeta na tessitura de Pesadelo. Pesadelo que vem da carne moída pela brutalidade, que Barthélemy, em Vichy no colaboracionismo aos nazistas não hesitava sequer ao aviltar os princípios da Justiça, e que ao final banalizava a conduta de homens de bem que não devem “permitir que os remorsos pessoais atravessem o caminho da necessidade cruel”.
      As narrativas de Pedro Tierra são como que marcas da memória, sobretudo quando a mentira política (Hanna Arendt), produzindo deliberadamente o ocultamento, tripudia sobre o pesadelo que se vivencia nos instantes em que o perigo relampeja, e volta a assombrar à custa de uma perversa ação de usurpação cultural da memória e da história.
      Enquanto os arquivos da repressão ainda permanecem restritos à sociedade civil, dissemos eu e Nair Heloisa Bicalho de Sousa, em nosso texto de apresentação ao volume 7, da Série O Direito Achado na Rua (Justiça de transição: direito à memória e à verdade, conf. acima), “em parte por se manterem deliberadamente ocultados e em parte por apresentarem objeção sonegadora de agentes ainda resistentes e insubordinados ao comando legal e das autoridades constituídas […] isso retrata, de certa maneira, uma tendência a deixar no esquecimento os fatos reveladores das práticas políticas do regime autoritário. Vê-se, assim, com Pollack (1989), que memória e esquecimento são eixos fundamentais da esfera do poder, disputando o modo como a memória coletiva constrói-se em cada sociedade”. Em outro texto (Direito à memória e à verdade, Observatório da Constituição e da Democracia. Brasília: Faculdade de Direito da UnB, n. 17, outubro e novembro de 2007), avançamos esse ponto para reafirmar que “esta memória coletiva está em processo de construção e necessita que as diferentes gerações tenham conhecimento da verdade. É tempo de reivindicar a verdade. É tempo de reivindicar a verdade e de resgatar a memória, como referências éticas para conter a mentira na política, pois, como lembra Hanna Arendt, ‘uma das lições que podem ser apreendidas das experiências totalitárias é a assustadora confiança de seus dirigentes no poder da mentira e na capacidade de reescreverem a história para a adaptar a uma linha política’”.
       Neste 31 de março de 2020, a ordem do dia do governo, pelo ministério da defesa, representou um novo capítulo nesse desvio. Contra o nunca mais, no ocultamento do pesadelo cruento do regime ditatorial instalado com o golpe de 1964, fala nesse experimento inanistiável – enquanto os cadáveres não sejam localizados e as responsabilidades pelos crimes de morte, tortura e exílios forçados não forem imputados – como se fora um “marco para a democracia brasileira”.
      Explicando porque Pesadelo como título Pedro Tierra refere-se ao círculo perfeito, aludindo ao risco de reinserção do futuro no passado para nos condenar a recomeçar do zero, se perdermos os referencias de comparação entre os acontecimentos pré 1964 e aqueles pós 2016 (Golpe contra o projeto democrático-popular).  Para isso o livro de Pedro Tierra. Para afrontar esse risco. Com Walter Benjamin, em forma literária, por isso contundente, a história é escovada a contrapelo. Cuida-se de articular historicamente o passado não para conhecê-lo “como ele de fato foi”, mas antes, “apropriar-se de uma reminiscência, tal como ela relampeja no momento de um perigo”.
      Leal em seu ofício de escritor, Pedro Tierra em Pesadelo, “faz brotar tal como ele divisa o papel da literatura, uma narrativa para além do simples relato da ação que brota da experiência e das vontades coletivas”. Ele cumpre seu papel de intelectual engajado: “identificado com a necessidade de transformações sociais, será sempre presa dessa angústia de fazer parte de algo que remete a sonhos coletivos, a vontades coletivas. Talvez para compensar a doença profissional da solidão” .
      Mas o faz com duplo efeito. Intérprete, ao estilo de Graciliano, autor com quem parece se identificar nos temas e no estilo cortante, escreve como se retirasse o couro à verdade, tal como Roberto Lyra Filho o percebeu em depoimento para o livro que a filha do grande escritor Clara Ramos organizou: “sob aquela aparência de mandacaru o velho Graça escondia uma ternura aconchegante”. O texto de Pedro Tierra, como o de Graciliano, me valho de Lyra Filho, representa o despojamento, escorado na rija integridade moral e literária. Sua intransigência não confundia preocupação social e discursos gasosos”.
      Os ensaios de Pedro Tierra na obra respondem aos socos, e aos choques que “transformam carne em dor”, e tornam o sofrimento o revide de seu mandato de escritor. “Como toda tirania, diz ele, gera no seu exercício explícito ou dissimulado o impulso, a força que um dia a lançará por terra, em tempos de tirania, escrevo para quem está predisposto a indignar-se e lutar contra ela”. Mais que isso, escreve para anunciar, no presente cinzento que já anuvia o horizonte político, contra a tentação autoritária que se prenuncia, que se cuidem, porque não podem evitar “a ressurreição dos insubmissos”!

José Geraldo de Sousa Junior é Articulista do Estado de Direito, possui graduação em Ciências Jurídicas e Sociais pela Associação de Ensino Unificado do Distrito Federal (1973), mestrado em Direito pela Universidade de Brasília (1981) e doutorado em Direito (Direito, Estado e Constituição) pela Faculdade de Direito da UnB (2008). Ex- Reitor da Universidade de Brasília, período 2008-2012, é Membro de Associação Corporativa – Ordem dos Advogados do Brasil,  Professor Titular, da Universidade de Brasília,  Coordenador do Projeto O Direito Achado na Rua.55