O Direito Achado na Rua: nossa conquista é do tamanho da nossa luta
domingo, 11 de dezembro de 2011
Tortura em branco e preto, tempos de noite e névoa
quinta-feira, 24 de novembro de 2011
O que está em jogo
Boaventura de Sousa Santos
O aprofundamento da crise está a dar azo a uma nova radicalidade que, paradoxalmente, e ao contrário da radicalidade anterior, parte da estrita obediência à lógica que preside à troika e ao memorando. Comentadores
do Financial Times e políticos dos países do Norte da Europa defendem o fim do euro, porque afinal o “euro é o problema”, propõem um euro para os países mais desenvolvidos e um outro para os menos desenvolvidos, defendem que a saída do euro por parte da Grécia (ou de outros países, subentende-se) pode não ser uma má ideia desde que controlada, e defendem, finalmente, a permanência do euro na condição de os países endividados se renderem totalmente ao controle financeiro da Alemanha
(federalização sem democracia). Ou seja, a radicalidade tem hoje duas faces e isto talvez nos permita uma nova transparência quanto ao que está em jogo ou nos convém.
A transparência do que se omite é tão importante quanto a do que se diz. Em ambos os casos ocorre porque os interesses subjacentes estão... à superfície. A transparência do que se omite. Primeiro, não é possível voltar à “normalidade” no atual quadro institucional europeu. Neste quadro, a União Europeia caminha inevitavelmente para a desagregação. Depois da Itália, seguir-se-ão a Espanha e a França. Segundo, as políticas de austeridade, para além de injustas socialmente, são não só ineficazes como contraproducentes. Ninguém pode pagar as suas dívidas produzindo menos e, por isso, estas medidas terão de ser seguidas por outras ainda mais gravosas, até que o povo (não tenhamos medo da palavra), o povo fustigado, sofrido, desesperado diga: “Basta!” Terceiro, os mercados financeiros, dominados como estão pela especulação, nunca recompensarão os portugueses pelos sacrifícios feitos, já que não reconhecer a suficiência destes é o que alimenta o lucro do investimento especulativo. Sem domar as dinâmicas especulativas e esperando que o mundo faça o que pode e deve começar a ser feito a nível apenas europeu, o desastre social ocorre tanto pela via da obediência como pela via da desobediência aos mercados.
A transparência do que nos convém. Falo dos portugueses, mas o meu “nós” envolve os 99% dos cidadãos e todos os imigrantes do Sul da Europa e envolve todos os europeus para quem uma Europa de nacionalismos é uma Europa em guerra e para quem a democracia é um bem tão exigente que só faz sentido se, ele próprio, for distribuído democraticamente. Qualquer solução que vise minimizar o desastre que se aproxima deve ser uma solução europeia, ou seja, uma solução que deve ser articulada com, pelo menos, alguns países do euro.
São duas as soluções possíveis. A primeira, que é o cenário A, consiste em fazer pressão, articuladamente com os outros países “em dificuldade”, no sentido de se alterar a curto prazo quadro institucional da UE de modo a que se torne possível mutualizar a dívida, federalizando a democracia. Isto implica, entre outras coisas, dar poderes ao Parlamento Europeu, fazer a Comissão responder perante ele e eleger diretamente a presidência. Implica também uma política industrial europeia e a busca de equilíbrios comerciais no interior da Europa. Por exemplo, a Alemanha, que tanto exporta para a Europa, deverá importar mais da Europa, abandonando o mercantilismo da sua procura incessante de excedentes? Para tal ser possível é preciso uma política aduaneira e de preferências comerciais intraeuropeias, assim como uma refundação da Organização Mundial do Comércio, aliás já hoje um cadáver adiado, no sentido de começar a construir o modelo de cooperação internacional do futuro: acordos globais e regionais que, cada vez mais e sempre na medida do possível, façam
com que os lugares de consumo coincidam com os lugares de produção.
Implica também uma regulação financeira prudente a nível europeu que passa por um mandato pósneoliberal para o Banco Central Europeu (mais poderes de intervenção com base em mais controlo democrático nas
estrutura e no funcionamento). Esta solução contrapõe-se frontalmente à solução autoritária proposta pela Alemanha, que consiste em submeter todos os países à tutela alemã, como contrapartida dos eurobonds ou de outro mecanismo de europeização da dívida. Esta rendição ao imperialismo alemão significaria que, na Europa, só tem direito à democracia quem tem dinheiro.
O cenário A é exigente e exigiria que, desde já, e apesar dos limites do atual mandato, o BCE assumisse um papel muito mais ativo para assegurar o tempo de transição. A prudência recomenda, no entanto, que a hipótese de tal cenário falhar seja prevista e considerada seriamente.
Devíamos por isso, desde já, começar a preparar o cenário B, uma saída deste euro, a sós ou juntamente com outros países, com o argumento, que os fatos comprovam, de que, com ele, as desigualdades entre países não cessarão de aumentar. A auditoria da dívida será um sinal da seriedade dos nossos propósitos. Os custos sociais da solução B não são mais altos quanto os custos do falhanço da solução A e permitem, pelo menos, ver uma luz ao fim do túnel.
sábado, 12 de novembro de 2011
A luta indígena contra a especulação imobiliária no DF
sexta-feira, 28 de outubro de 2011
O Santuário dos Pajés não se move!

Repito a divulgação do vídeo e adenso às poucas linhas que já escrevi uma pergunta às leitoras e leitores deste blog, pergunta essa que anuncia uma das mais densas obras que já li: O que é Direito?
Segue O Documentário completo
Para lançar mais luzes e penumbras sobre a questão anunciada, cabe-nos dizer que o documentário narra a história dos Tapuya Fulni-ô e do Santuário dos Pajés e que este vídeo mostra a complexidade da questão indígena hoje.
Desafia-nos a quebrar o mito do isolamento dos povos indígenas como regra para sua configuração. Demonstra, por outro lado, a possibilidade de que esse povo realize o diálogo e tenha uma convivência próxima a uma população urbana, sem perder uma identidade e religiosidade próprias e o mais importante: conservando sua legitimidade sobre a terra.
Vamos indo um pouco mais a fundo no que nos é possível neste momento...
O que é o Setor Noroeste?
Apesar de inicialmente pensada, pelo idealizador de Brasilia, Lucio Costa, como área destinada às classes populares, os indígenas Fulni-ô não têm protegido o pedaço verde que restou do Noroeste contra um povo que tenha necessidades relacionadas a moradia. Fosse essa a questão, a solução talvez fosse encontrada de forma mais facilitada e pacífica, garantindo o direito à cidade do povo sem afrontar o direito ao território indígena. O grande problema é que os indígenas tem se oposto ao grande capital especulativo imobiliário que tem erguido na área, com a aquiescência do governo distrital, um bairro com o metro quadrado mais caro do país.
Os Fulni-ô têm enfrentado, dessa forma, a empresa pública Terracap, que incluiu as terras do Santuário na licitação para a construção do dito bairro "ecológico" e grandes empreiteiras que adquiriram a área. O pajé Santwiê, líder da comunidade, reafirma com eloquência que o Santuário é um patrimônio da memória candanga e não se moverá da terra onde enterraram suas lideranças espirituais e que é sagrada para o seu povo, para que ali seja construído mais um bairro com prédios e shoppings...
Os conflitos não são recentes e existem inúmeras ações ajuizadas tratando ora o direito dos indígenas como simples direito á habitação, ora reivindicando uma área ampla, necessária ao seu relacionamento com o meio e a manutenção de sua cultura própria.
A defesa da terra vinha sendo garantida pelo direito estatal da própria civilização branca a partir de uma liminar da Justiça Federal. Em tese, a questão estaria pacificada até que a justiça (do branco) decidisse sobre o feito, mas os indígenas, com a solidariedade de mulheres e homens jovens universitários e de movimentos sociais, tiveram que enfrentar com seus próprios corpos (em uma coragem indizível), tratores, armas de choque para a defesa do território. Executando um trabalho que a polícia deveria ter realizado? E romperam cercas ilegal e ilegitimamente construídas, diante de um Estado que se ausentou da área por dias, conforme noticiou os próprios meios de comunicação de massa e a comunicação popular. São Inúmeros os vídeos disponíveis na internet...
A ação direta e resistência suscitaram finalmente a presença estatal e as empreiteras foram chamadas a interromper o feito... por alguns dias tem cessado a derrubada do cerrado e as agressões aos indígenas e à juventude que têm defendido as terras e a mata, em uma interrupção que tem sido chamada nas ruas de Brasília como armistício, no meio da guerra que está sendo travada.
Agora se aguarda o mínimo que deveria ter sido aguardado desde o começo: a decisão da FUNAI com base em laudos antropológicos... Ou a resposta de alguma das várias ações em curso. Anotamos que a Associação Brasileira de Antropológos já se manifestou sobre a questão e defende o direito dos índios ao Santuário dos Pajés em carta também publicada no blog da Assessoria Juridica Popular.
Algumas questões colocam-se diante do que tem acontecido no Santuário...
Além de utilizar sua forma de ver o mundo para exporem os motivos que os ligam àquela terra, os indígenas ainda têm se colocado para lembrar aos brancos que eles próprios não tem seguido a sua própria racionalidade branca e ocidental, tampouco o seu ordenamento... Ou as normas constitucionais, o devido processo legal e os laudos científicos que atestam que aquela terra é tradicionalmente indígena tem sido levados em consideração? Se sim, até que ponto?
Com outras palavras, forçando propositadamente as repetições... são os não-civilizados que lembram aos civilizados a lei da civilização branca e são os não-civilizados a mostrar aos civilizados a irrazoabildiade de atos, de acordo a própria forma de compreendão do mundo do branco...
Inúmeras incongruências...
Que não param, somente se considerando o pouco exposto...
- um bairro inicialmente pensado para classes populares e sanar problemas de habitação e acesso à cidade, a partir do planejamento urbano concebido segundo a técnica tradicional urbanística, acaba por se constituir como o metro quadrado mais caro do país;
- um bairro que se propagandea como ecológico, mas que desmata o cerrado e toda a sua diversidade e riqueza para a construção de prédios e shoppings iguais a todos os outros que já existem;
- homens brancos que usam o poder financeiro e mesmo a força bruta e segurança privada para ocupar uma área contra a decisão de uma juíza federal e são indígenas que garantem o cumprimento da decisão de uma justiça branca para a defesa de seu direito indígena (da forma como é lido por esta civilização branca)...
Coloco a mão no queixo e penso... O que Lyra Filho diria sobre isto?
Que melhor lição para o que é Direito?
Aguardem mais escritos sobre a questão.
Para maiores informações sobre os conflitos: Caros Amigos - A resistência do Santuário dos Pajés Em plena capital federal, indígenas e cidadãos enfrentam tratores, capangas, mega empresas e o próprio governo em defesa do Cerrado e do Santuário dos Pajés
e a matéria da Revista Rolling Stones Lobisomens do Cerrado que acusou que no mês em que completou 50 anos, a Capital também comemora o início das obras do primeiro Bairro Ecológico do Brasil, cuja construção deverá derrubar 150 mil árvores nativas e desalojar a única comunidade indígena instalada tradicionalmente no cerrado do Distrito Federal
e outros sítios com informações atualizadas:
http://santuarionaosemove.net ,
http://www.pisaligeiro.com.br
http://sagradaterraespeculada.blogspot.com
![]() | ||
| Foto: Júlia Zamboni - Diana Melo e Leila Saraiva no Santuário dos Pajés num ato de reflorestamento que ocorreu no último sábado no Santuário dos Pajés |
Divulgo nota da Relatoria para o Direito Humano à Terra, ao Território e à Alimentaçãoda Plataforma Brasileira de Direitos Humanos Econômicos, Sociais, Culturais e Ambientais da Plataforma Dhesca Brasil.
Ref: Nota sobre violações de direitos dos Povos indígenas no Santuário dos Pajés, região Noroeste, Brasília, Distrito Federal.
quarta-feira, 26 de outubro de 2011
Exame de ordem, democracia e cidadania
sábado, 22 de outubro de 2011
O Desenvolvimento do Subdesenvolvimento
Por isso se convocam os jovens para a guerra, e não os velhos. Não estariam os super-ricos em melhores condições de responder à emergência nacional?
Esta é uma das perplexidades que leva os indignados a manifestarem-se nas ruas. Mas há muito mais. Perguntam-se muitos cidadãos: as medidas de austeridade vão dar resultado e permitir ver luz ao fundo do túnel daqui a dois anos? Suspeitam que não porque, para além de irem conhecendo a tragédia grega, vão sabendo que as receitas do FMI, agora adotadas pela UE, não deram resultado em nenhum país em que foram aplicadas – do México à Tanzânia, da Indonésia à Argentina, do Brasil ao Equador – e terminaram sempre em desobediência e desastre social e econômico. Quanto mais cedo a desobediência, menor o desastre.
O back-office do FMI são os representantes de multinacionais que, quais abutres, esperam que as presas lhes caiam nas mãos. Como há que tirar lições mesmo do mais lúgubre evento, os europeus do sul suspeitam hoje, por dura experiência, quanta pilhagem não terão sofrido os países ditos do Terceiro Mundo sob a cruel fachada da ajuda ao desenvolvimento.
Mas a maior perplexidade dos cidadãos indignados reside na pergunta: que democracia é esta que transforma um ato de rendição numa afirmação dramática de coragem em nome do bem comum? É uma democracia pós-institucional, quer porque quem controla as instituições as subverte (instituições criadas para obedecer aos cidadãos passam a obedecer a banqueiros e mercados), quer porque os cidadãos vão reconhecendo, à medida que passam da resignação e do choque à indignação e à revolta, que esta forma de democracia partidocrática está esgotada e deve ser substituída por uma outra mais deliberativa e participativa, com partidos mas pós-partidária, que blinde o Estado contra os mercados, e os cidadãos, contra o autoritarismo estatal e não estatal. Está aberto um novo processo constituinte. A reivindicação de uma nova Assembléia Constituinte, com forte participação popular, não deverá tardar.
terça-feira, 18 de outubro de 2011
Segunda Carta às Esquerdas
Boaventura de Sousa Santos
|
A democracia política pressupõe a existência do Estado. Os problemas que vivemos hoje na Europa mostram que não há democracia europeia porque não há Estado europeu. E porque muitas prerrogativas soberanas foram transferidas para instituições europeias, as democracias nacionais são hoje menos robustas porque os Estados nacionais são pós-soberanos. Os défices democráticos nacionais e o défice democrático europeu alimentam-se uns aos outros e todos se agravam por, entretanto, as instituições europeias terem decidido transferir para os mercados financeiros parte das prerrogativas transferidas para elas pelos Estados nacionais. Ao cidadão comum será hoje fácil concluir (lamentavelmente só hoje) que foi uma trama bem urdida para incapacitar os Estados europeus no desempenho das suas funções de protecção dos cidadãos contra riscos colectivos e de promoção do bem-estar social. Esta trama neoliberal tem vindo a ser urdida em todo o mundo, e a Europa só teve o privilégio de ser “tramada” à europeia. Vejamos como aconteceu.
Está em curso um processo global de desorganização do Estado democrático. A organização deste tipo de Estado baseia-se em três funções: a função de confiança, por via da qual o Estado protege os cidadãos contra forças estrangeiras, crimes e riscos colectivos; a função de legitimidade, através da qual o Estado garante a promoção do bem-estar; e a função de acumulação, com a qual o Estado garante a reprodução do capital a troco de recursos (tributação, controle de sectores estratégicos) que lhe permitam desempenhar as duas outras funções.
Os neoliberais pretendem desorganizar o Estado democrático através da inculcação na opinião pública da suposta necessidade de várias transições. Primeira: da responsabilidade colectiva para a responsabilidade individual. Segundo os neoliberais, as expectativas da vida dos cidadãos derivam do que eles fazem por si e não do que a sociedade pode fazer por eles. Tem êxito na vida quem toma boas decisões ou tem sorte e fracassa quem toma más decisões ou tem pouca sorte. As condições diferenciadas do nascimento ou do país não devem ser significativamente alteradas pelo Estado. Segunda: da acção do Estado baseada na tributação para a acção do Estado baseada no crédito. A lógica distributiva da tributação permite ao Estado expandir-se à custa dos rendimentos mais altos, o que, segundo os neoliberais, é injusto, enquanto a lógica distributiva do crédito obriga o Estado a conter-se e a pagar o devido a quem lhe empresta. Esta transição garante a asfixia financeira do Estado, a única medida eficaz contra as políticas sociais. Terceira: do reconhecimento da existência de bens públicos (educação, saúde) e interesses estratégicos (água, telecomunicações, correios) a serem zelados pelo Estado no interesse de todos para a ideia de que cada intervenção do Estado em área potencialmente rentável é uma limitação ilegítima das oportunidades de lucro privado. Quarta: do princípio da primazia do Estado para o princípio da primazia da sociedade civil e do mercado. O Estado é sempre ineficiente e autoritário. A força coercitiva do Estado é hostil ao consenso e à coordenação dos interesses e limita a liberdade dos empresários que são quem cria riqueza (dos trabalhadores não há menção). A lógica imperativa do governo deve ser substituída na medida do possível pela lógica cooperativa de governança entre interesses sectoriais, entre os quais o do Estado. Quinta, dos direitos sociais para os apoios em situações extremas de pobreza ou incapacidade e para a filantropia. O Estado social exagerou na solidariedade entre cidadãos e transformou a desigualdade social num mal quando, de facto, é um bem. Entre quem dá esmola e quem a recebe não há igualdade possível, um é sujeito da caridade e o outro é objecto dela
Perante este perturbador receituário neoliberal, é difícil imaginar que as esquerdas não estejam de acordo sobre o princípio “melhor Estado, sempre; menos Estado, nunca” e que disso não tirem consequências.
|
domingo, 16 de outubro de 2011
Madraçais da Veja: a importação da doutrina antiterror pelo jornalismo brasileiro
sábado, 8 de outubro de 2011
UnB andarilhando com Paulo Freire

Tinha que ler o Thomas Marshall e o Damatta, mas, antes de tudo, era preciso expressar, em palavras, a minha leitura do mundo: a leitura do que vi e daquilo de que fui capaz de me encharcar – um dia inesquecível de momentos dedicados a Paulo Freire – a UnB e cada um de nós andarilhando com Paulo Freire.
É confortante, ao deixar a obrigação pragmática para entregar-me à criatividade e à emoção das palavras, perceber que não custa seguir o trajeto daquele que, apesar de nomear-se “Reglus”, é o retrato da subversão por uma amorosidade encantada, emocionada, pelo mundo; é a negação do que tolhe, do que enrijece, do que maltrata. É a incorporação humilde de uma ira justa, aquela que movimenta esperançosamente em direção a um outro mundo possível. É o grito manso e igualmente bravio que anda em comunhão com o sorriso, com a criatividade, com a entrega, com o estar gostoso andarilhando e fazendo caminhar. É aquela mansidão que, como a brisa leve, arrebata e reúne engenhosamente os finos grãos de areia em gigantescas dunas. É a força do ser que jamais admite deitar seu corpo, nem depois da morte, em jazigo perpétuo da indiferença.
Preciso dizer do encontro de hoje, que é materialização de tantos desse mesmo dia e de tantos de dias idos; daqueles da própria vida, que só se fez e se faz existência encontrando outras existências.
Devo mencionar a inédita e estremecedora comunhão de falas com Diego Diehl proporcionada pela semana desta Universidade Necessária, que é de Darcy Ribeiro e nossa, em torno de Paulo Freire e do Direito (mediatizados pela UnB, foi possível renovar a cumplicidade transformadora, ávida, cheia de brilho nos olhos, por um mundo justo, que nos irmana).
Necessito falar do encontro entre Darcy Ribeiro e Paulo Freire, lembrado por Layla Jorge e reconstituído de forma afável pelo professor José Geraldo na cerimônia de concessão póstuma de título de doutor por causa honorífica a este último (enquanto se entrelaçavam as ideias desses seres tão preocupados com a nossa gente, podia viver a alegria daquele instante, sem nunca de ter estado lá).
Mas, quando eu supunha que este dia 06 de outubro, já tinha sido povoado de emoções suficientes, por um instante, interrompendo a conversa para tirar fotos com algumas das pessoas presentes, recebi das mãos de Nita Freire uma pasta. Na capa, letras douradas apontavam “Paulo Reglus Neves Freire”.
Chegava casualmente as minhas mãos todo o fazer de um ser que não “pensava pensamento” hipostasiado no diploma que a UnB lhe concedia. Compartilhei com Layla a minha emoção e a vontade de abrir para vê-lo. Esperei Nita voltar, pedi permissão para olhar de perto, o que me foi concedido.
De imediato, revivi todo o encontro, tão intenso e motivador, com as ideias de Paulo Freire.
Vieram-me à mente tantos outros lindos estar-no-mundo de que participei ao ter a vida tocada pela filosofia freireana; as possibilidades de (re)conhecer pessoas e de me (re)conhecer em cada pessoa com quem compartilhei fragmentos ou partes tão grandes de um existir que se fez enquanto se fazia com o mundo e com o outro.
Refiz o tempo da manhã tão forte desse dia. Passaram-se pelos olhos entrecruzados aos brilhantes e emocionados olhos Layla a vivacidade de tantos outros olhos e olhares lançados firmemente ao horizonte, apesar dos pés doídos de marchar.
Com o diploma de Paulo Freire diante de mim e tão perto, como se eu segurasse a sua mão, aquela mesma que o permitiu exercitar o seu direito de dizer a sua palavra constatadora, mas, acima de tudo, amorosa e ansiosamente transformadora, voltei a me inspirar nos caminhos que percorro e naqueles que percorri no chão quente dessa nossa América, a Latina. Estive de novo com os sorrisos, com os abraços, com as conversas, com as lutas, com os aprenderes...
Refletia sobre a existência mesma e sobre a fugacidade da morte diante da lembrança...
Por frações de segundo, estava nas comunidades, nos movimentos sociais, com os estudantes e com as estudantes, estava com meninos e meninas de rua, conhecendo gente, aprendendo a ser gente, construindo lutas.
Vivia a UnB, a utopia de Darcy e nossa utopia, estava feliz por estar ali, saboreava de novo o traçado de seus caminhos, a intensidade de seus ipês amarelos mais lindos e de seus flamboyants mais vermelho-alaranjados na moldura do azul do ceumar de Brasília. Trazia à memória a semana universitária de 2010, o compartilhar rico com as falas dos professores Carlos Rodrigues Brandão e Renato Hilário, do poeta e cantador Chico Nogueira, todos freireanamente postos no mundo.
Ao tempo, lembrava do que não vivi e abria a vida para o futuro...
Se me projetava à terça-feira da semana passada, em que, ao tomar posse como professor na Universidade Federal de Goiás, ouvi um “seja bem-vindo professor” que me caiu como um “faça surgir o EDUCADOR!”, era porque a força daquele encontro com Paulo Freire, a força de todos os encontros posteriores mediatizados pelo anterior, ganhava fôlego para seguir adiante. Tanto quanto se avolumava a vontade de iniciar meu trabalho de professor/educador neste dia 07 de outubro. Tanto quanto tomava mais corpo a vontade de viver e seguir com a responsabilidade de perpetuar encontros, de produzir novos, de reanimar os antigos e de fazer deles todos os de sempre.

