domingo, 25 de agosto de 2019

A rua pode ser espaço de conquistas?[1]


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Sabrina Durigon Marques 


A novidade
Que tem no Brejo da Cruz
É a criançada
Se alimentar de luz
Alucinados
Meninos ficando azuis
E desencarnando
Lá no Brejo da Cruz
Eletrizados
Cruzam os céus do Brasil
Na rodoviária
Assumem formas mil
Uns vendem fumo
Tem uns que viram Jesus!
Mas há milhões desses seres
Que se disfarçam tão bem
Que ninguém pergunta
De onde essa gente vem
Brejo da Cruz – Chico Buarque



Nesta semana ocorreram diversas atividades de resistência realizadas pela população em situação de rua. O dia19 de agosto foi escolhido como o Dia Nacional da População em Situação de Rua em razão do massacre ocorrido na Praça da Sé, em São Paulo, há quinze anos, que vitimou 15 pessoas que lá dormiam, deixando 7 mortos e 8 feridos.

Até o momento não houve responsabilização pelos crimes. Apesar da investigação ter identificado alguns responsáveis, apenas dois foram presos, mas por terem sido condenados pela morte da única testemunha que havia, Priscila, que também estava em situação de rua.

A morte é fato sempre presente na vida da população de rua. Seja a morte física, seja a morte social, nas palavras de Padre Júlio Lancellotti, a mistanásia, à qual sempre é submetida a população de rua.


O Diagnóstico. Um dos argumentos utilizados como obstáculo à elaboração de políticas públicas para a população em situação de rua é a dificuldade em se realizar um diagnóstico, identificar quem e quantas são essas pessoas, uma vez que o IBGE não dispõe de tal metodologia. Apontam dificuldade para encontrar as pessoas, além da restrição orçamentária do Instituto. De acordo com última pesquisa divulgada pelo IPEA em 2016, o Brasil tem mais de 100 mil pessoas em situação de rua.
Estudo feito pelo antigo Ministério do Desenvolvimento Social[2] estimou em 2009 que apenas 47% delas estejam inscritas no Cadastro Único e dessas, somente 11% recebam algum benefício, como aposentadoria, bolsa família, BPC, entre outros.

No Distrito Federal, não há dados precisos sobre o quantitativo da população em situação de rua, mas sabe-se que pelo menos 3 mil pessoas já passaram por algum atendimento, de acordo com dados da Secretaria de Trabalho e Desenvolvimento Social e Direitos Humanos – Sedestmidh, isso significa que o numero total é maior que esse.


Causas e Dificuldades. As causas que levam as pessoas a tal situação podem ser diversas, como problemas de relacionamentos e até rupturas familiares, doenças mentais, dependência química, desemprego entre outros.
Nas ruas a violência sofrida é cotidiana, retirada de cobertores, jatos de água fria pela manhã para limpeza das calçadas, spray de pimenta, e a sempre presente invisibilidade.
Essa violência, que perpassa pela ausência total de alteridade e compreensão do outro como pessoa dotada de dignidade humana, contribui para a ruptura de laços sociais e para a ausência de autoestima, dificultando tal mudança de status. Vislumbrar-se como sujeito de direitos possuidor de potência transformadora é combustível necessário para que as pessoas se coloquem em movimento.


Trabalho e moradia são centrais. As políticas públicas de moradia e emprego devem abarcar a população em situação de rua, precisam ser elaboradas com e para essas pessoas. As políticas não podem se limitar a apartar esse grupo, com medidas penais e assistenciais, mas devem trabalhar com elas e para elas.

O ex-prefeito de São Paulo, João Doria, na contramão desse pressuposto, durante a Operação Cidade Linda envelopou viadutos em que a população de rua morava para “protege-los”, e, como consequência, impedia que fossem vistos por quem passava pelas ruas e calçadas, a fim de que a cidade de São Paulo merecesse seu título de beleza.



Foto: Kleber Ribeiro/Arquivo pessoal e Will Soares/G1



A Política Nacional para População em Situação de Rua, estabelecida pelo Decreto n. 7.053, de 2009, traz em seu artigo 1º a importância da moradia para essa população enquanto que o artigo 7º prevê como objetivo da Política assegurar o acesso amplo à moradia. O artigo 8º, por sua vez, prevê a necessidade de articulação com programas de moradia popular promovidos pelos Governos Federal, estaduais, municipais e do Distrito Federal.
A Relatoria Especial da ONU para moradia adequada[3] propõe enfoque tridimensional para esta questão: i) a ausência de moradia reflete carência absoluta do aspecto material de uma habitação enquanto local seguro; ii) a situação de rua como forma de discriminação sistêmica que reconhece que a privação de lar dá lugar à identidade social de grupo estigmatizado; iii) esses grupos são compostos por titulares de direitos resilientes na luta pela sobrevivência. Assim, como compreensão única dos sistemas que negam seus direitos, devem ser reconhecidos como agentes da transformação social para a realização do direito à moradia. Nos dizeres do professor José Geraldo de Souza Júnior, sujeitos aptos a “servir a um projeto de organização e de ampliação da capacidade popular de auto exercitar a sua participação como agente determinante ativo e soberano no encaminhamento de seus interesses e na direção de seu próprio destino.”[4]
Dentre os Objetivos do Desenvolvimento Sustentável, traçados pela ONU, o ODS 11 trata de “Tornar as cidades e os assentamentos humanos inclusivos, seguros, resilientes e sustentáveis”, enquanto a meta 11.1 prevê o compromisso de “Até 2030, garantir o acesso de todos à habitação segura, adequada e a preço acessível, e aos serviços básicos e urbanizar as favelas”.
No âmbito nacional é fundamental que se monitore como as gestões vêm trilhando caminhos para atingir tal meta.

Muitas políticas tratam a moradia para esse grupo como proposta transitória, e não como local permanente de segurança e conforto, como estabelecem os requisitos do Direito à Moradia adequada. Ousar pensar e criar pode contribuir para essa política. Portugal inovou com a Casa Primeiro de Lisboa, programa que garante moradia individual e permanente, com casas distribuídas pela cidade, evitando a guetização desse grupo, além do estímulo ao trabalho, e da possibilidade de contribuição com 30% de sua renda para pagamento da locação.

Conforme pesquisa realizada em 2015 pela UNB, 90% dos moradores de rua do Distrito Federal exercem atividades remuneradas, mesmo que informal, como vigiar carros ou coletar material reciclável. Tal dado é importante para mitigar os efeitos da estigmatização, do qual essa população é vítima.  O GDF publicou, em 2018, a lei n. 6.128, que reserva um percentual mínimo de vagas de trabalho em serviços e obras públicas para pessoas em situação de rua.

Brasília passa nesse momento por um debate sobre a destinação do Setor Comercial Sul, um dos locais onde a população de rua se concentra. Somado a isso, lá já ocorrem algumas iniciativas de geração de emprego local para esse grupo. É então uma boa oportunidade para pensar políticas de trabalho e moradia com e para essa população. Que não deixemos passar.


Sabrina Durigon Marques é professora universitária, mestra em Direito do Estado pela PUC/SP, conselheira regional do IBDU – Instituto Brasileiro de Direito Urbanístico e coorganizadora do Volume IX da Coleção Direito Achado na Rua – Introdução Crítica ao Direito Urbanístico.



[1] Texto escrito como base para palestra realizada na Comissão de Direitos Humanos da OAB-DF, representando o Grupo Direito Achado na Rua.
[2] Rua. Aprendendo a Contar. Ministério do Desenvolvimento Social. Disponível em: <https://www.mds.gov.br/webarquivos/publicacao/assistencia_social/Livros/Rua_aprendendo_a_contar.pdf> acesso em 23 de agosto de 2019.

[3] Organização das Nações Unidas. Relatório da Relatora Especial sobre moradia adequada como componente do direito a um padrão de vida adequado à não discriminação nesse contexto. Dis[ponível em <https://terradedireitos.org.br/wp-content/uploads/2016/11/Relat%C3%B3rio_Popula%C3%A7%C3%A3o-em-situa%C3%A7%C3%A3o-de-rua.pdf>, acesso em 23 de agosto de 2019.
[4] SOUSA JUNIOR, José Geraldo de. Fundamentação teórica do Direito de Moradia. Revista  Direito e Avesso, Brasília, ano 1, n. 2, 1982.

domingo, 18 de agosto de 2019

O lançamento do Livro "Do Direito Autoconstruído ao Direito à Cidade", no Bairro de Saramandaia: uma história cheia de camadas


Por Adriana Nogueira Vieira Lima,
Professora da UEFS e Autora do livro;
Membro dos Grupos de Pesquisa "O Direito achado na Rua (UnB) e Lugar Comum (UFBA). 




O dia 03 de agosto de 2019 começou cedo, com o carro de som percorrendo as ruas, vielas e becos de Saramandaia, convidando os moradores para o lançamento do Livro. A Escola Marisa Baqueiro Costa, primeiro equipamento público do Bairro, conquistado através luta da Associação Beneficente das Senhoras de Saramandaia, foi escolhido para sediar o evento.




Ao longo do dia, esse espaço foi sendo cuidadosamente transformado em lugar de festa e partilha do comum. Arranjos de  flores, toalhas coloridas, equipamento de som, café, suco, frutas e bolos compunham a mística, cuidadosamente preparada pela Diretora da Escola e pela família de Sr. Armandio, grande liderança do Bairro, que faleceu este ano e cujas falas compõem as narrativas que conferem vida à obra lançada.

Os convidados foram chegando aos poucos. Alguns mais desconfiados, outros mais à vontade. A tecnologia permitiu que os ausentes se tornassem presentes, "através de espírito e coração", como afirmou irmã Paula, no vídeo enviado a partir do Mosteiro de Santa Sé do Sul. Para ela, o Livro serviu como um dispositivo de memória que lhe fez lembrar "a  garra e a coragem dos moradores na luta para a construção do Bairro, reivindicação de direitos e construção da cidadania".

Sonho, recordação, vivência compartilhada, luta e visibilidade foram as palavras acionadas pelos presentes (professoras, agentes de saúde, diretora do posto médico, artistas do bairro, moradores, comerciantes,  representantes de instituições atuantes no  Bairro  - Associação de Moradores de Saramandaia, Grupo Arte Consciente,  Balanço das Latas Brasil, Conselho de Moradores, Liga Esportiva de Futebol, Paróquias, Igrejas Evangélicas, Batista, etc.) para fazer referência à obra lançada.


O evento seguiu marcado por reencontros entre três gerações - uma condensação de tempos em um pequeno espaço de sala de aula. O lançamento do Livro comportava-se com pretexto para produção de novas narrativas, e a obra se confundia com a realidade. As falas orgulhosas em transformar "lama em cidade", tecidas pelas lideranças da primeira geração, eram enlaçadas  por repertórios discursivos lançados pelos jovens presentes, que transversalizaram a conquista do território pelas dimensões de gênero e raça, projetando novos desejos e aspirações.


Os discursos foram atravessados pela arte, em forma de poesia e canções de autoria dos artistas do Bairro, e também por homenagens à autora, à Diretora da Escola Marisa Baqueiro, professora Joseana Rocha, e ao cinegrafista Lúcio Lima, produtor do documentário Retalho: a memória de Saramandaia.


O último comentário sobre o Livro não foi feito através de palavras, mas pela entrega de uma tela grafitada pelo artista plástico Tito Lama. Neste momento, em que o país está marcado pelo ódio tóxico que se infiltra no nosso cotidiano, a arte subverte, materializando a luta pela moradia em uma tela que transpira oxigênio e emoção terna.





Assim, o Livro, resultado de uma tese de doutorado defendida na Universidade Federal da Bahia, que busca analisar a produção e (des) construção dos direitos urbanos em suas diversas escalas,  sob orientação da professora Ana Fernandes, comporta-se como obra viva e utopia compartilhada, que rompe os muros da academia e é reapropriada pelos "sujeitos coletivos de direito", no dizer do professor José Geraldo Sousa Júnior, fazendo crer que vale a pena produzir uma ciência militante e afetada pelo ser, fazer e saber, como nos propõe o jurista Roberto Lyra Filho.

terça-feira, 13 de agosto de 2019

Nota de Repúdio à Censura da CAPES e de Solidariedade à EMAE/UFSC

Brasília, 13 de agosto de 2019. 

O grupo de pesquisa O Direito Achado na Rua, da Universidade de Brasília, com 30 anos de atuação destacada na área da pesquisa jurídica, e um dos mais antigos grupos do CNPQ, vem a público manifestar repúdio à violação da pluralidade e liberdade de cátedra promovida pela CAPES, por ocasião da negativa de fomento ao “Congresso Internacional Constitucionalismo e Democracia”, bem como externar sua solidariedade ao organizador do evento, o Núcleo de Estudos Avançados em Meio ambiente e Economia no Direito Internacional (EMAE), da Universidade de Federal de Santa Catarina.

Os fundamentos para a negativa de financiamento são preocupantes e refletem o clima de perseguição e censura vivenciado pelas universidades no país: “organizadores e palestrantes de elevada relevância para comunidade de militância política na área do direito. O aspecto negativo é a necessidade de recorrer aos cofres públicos para realização de congresso que não apenas voltado à construção científica, mas também à crítica política. A capes não pode destinar verbas públicas para eventos, publicações ou formações de cunho político partidário”.

O parecer da CAPES, ao mesmo tempo em que nega o fomento, contraditoriamente ressalta a qualidade técnica da proposta e de seus organizadores, qualidade essa inerente a um evento consolidado e que caminha para 9a Edição.

Ao agir assim, a instituição acaba por reforçar ainda mais a natureza discriminatória, personalizada, imoral e ilegal da decisão em face do artigo 37 da Constituição Federal. Resta claro, portanto, que, a pretexto de não destinar verbas para eventos supostamente “de cunho político partidário”, pretende em verdade sufocar qualquer pensamento que não seja o chancelado pelo grupo político que ocupa no momento o Poder Executivo, tentando assim suprimir a autonomia didática e acadêmica das universidades públicas.

Não podemos nos calar diante de tal cenário e repudiamos toda e qualquer forma de censura ao trabalho desenvolvido por profissionais das universidades públicas brasileiras que possuem reconhecimento internacional pelo trabalho de excelência desenvolvido no Brasil.

Pesquisadores e pesquisadoras de O Direito Achado na Rua 

domingo, 4 de agosto de 2019

A lei e os dramas humanos:angústias de um verdadeiro magistrado:J.B. Herkenhoff

A lei e os dramas humanos:angústias de um verdadeiro magistrado:J.B. Herkenhoff

02/08/2019
João Batista Herkenhoff do Espírito Santo é um conhecido magistrado, grande defensor dos direitos humanos, especialmente em tempos sombrios de nossa história e escritor nos mostra aqui com sinceridade as angústias de um magistrado que sabe distinguir o que é a lei, o que é o direito e o que é a justiça. E mostra as angústias de um juiz quando deve decidir, especialmente, quando se depara com situações complexas, sabendo dos dramas humanos aí subjacentes. Ele se mostra um pensador que vai além do estabelecido e sabe interpretar o espírito do direito e os limites da lei em função de realizar o bem maior que é a justiça verdadeira. Em tempos como os nossos, quando cada um se tornou mais ou menos um advogado de uma ou de outra causa política, especialmente, quando vemos que autoridades se sobrepõe à própria ética jurídica e decidem por “convicções” ou passam por cima do pacto social estabelecido por toda uma sociedade que se expressa pela constituição.Então estamos a um passo da anomia e do puro arbítrio. Este texto nos revela o interior de um juiz sério e filosofante que toma absolutamente a sério sua função/missão não sem as angústias a que estão submetidos todos os seres humanos conscientes e responsáveis, também os juizes. Agradecemos a Herkenhoff por seus livros e pela sinceridade deste testemunho.  Lboff
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Em outros tempos o cidadão comum supunha que o território do Direito e da Justiça fosse cercado por um muro. Só os iniciados – os que tinham consentimento dos potentados – poderiam atravessar a muralha. O avanço da cidadania, a partir da Constituição de 1988, principalmente em razão do Movimento Constituinte que precedeu a votação da Constituição, modificou substancialmente este panorama.
O mundo do Direito não é apenas o mundo dos advogados e outros profissionais da seara jurídica. Todas as pessoas, de alguma forma, acabam envolvidas nisto que poderíamos chamar de “universo jurídico”. Daí a legitimidade da participação do povo nessa esfera da vida social.
Cidadãos ou profissionais, todos estamos dentro dessa nau. De minha parte foi como profissional que fiz a viagem. Comecei como advogado, integrei depois o Ministério Público. Após cumprir o rito de passagem, vim a ser Juiz de Direito porque a magistratura era mesmo o meu destino. Eu seria juiz no Espírito Santo, como juiz foi, em Pernambuco, meu avô – Pedro Carneiro Estellita Lins. Esse avô, estudioso e doce, exerceu tamanho fascínio sobre mim que determinou a escolha profissional que fiz.
Meu caminho, nas sendas do Direito, foi marcado de sofrimento em razão de conflitos íntimos.
Sempre aprendi que o juiz está submetido à lei. E continuo seguro de que este princípio é verdadeiro. Abolíssemos a lei como limitação do poder e estaria instaurado o regime do arbítrio.
Não obstante a aceitação de que o “regime de legalidade” é uma conquista do Direito e da Cultura, esta premissa não deve conduzir à conclusão de que os juízes devam devotar à lei um culto idólatra.
Uma coisa é a lei abstrata e geral. Outra coisa é o caso concreto, dentro do qual se situa a condição humana.
À face do caso concreto a difícil missão do juiz é trabalhar com a lei para que prevaleça a Justiça.
Não foram apenas os livros que me ensinaram esta lição, mas também a vida, a dramaticidade de muitas situações.
Há uma hierarquia de valores a ser observada.
Não é num passe de mágica que se faz a travessia da lei ao Direito. Muito pelo contrário, o caminho é difícil. Exige critério, sensibilidade e ampla cultura geral ao lado da cultura simplesmente jurídica.
O jurista não lida com pedras de um xadrez, mas com pessoas, dramas e angústias humanas. Não é através do manejo dos silogismos que se desvenda o Direito, tantas vezes escondido nas roupagens da lei. O olhar do verdadeiro jurista vai muito além dos silogismos.
Da mesma forma que os cidadãos em geral não podem fechar os olhos para as coisas do Direito, o estudioso do Direito não pode limitar-se ao estreito limite das questões jurídicas. O jurista que só conhece Direito acaba por ter do próprio Direito uma visão defeituosa e fragmentada.
Estamos num mundo de intercâmbio, diálogo, debate.
Se quisermos servir ao bem comum, contribuir com o nosso saber para o avanço da sociedade, impõe-se que abramos nosso espírito a uma curiosidade variada e universal.
João Baptista Herkenhoff Magistrado aposentado (ES) e escritor.
E-mail: jbpherkenhoff@gmail.com
Homepage: http://www.palestrantededireito.com.br<http://www.palestrantededireito.com.br/&gt;

quinta-feira, 1 de agosto de 2019

Carta do céu. 
 

Querido Professor José Geraldo, enfim, te envio minha carta, mas não é uma carta da China, da Rússia, do Egito, da Romênia, da Itália, da Grécia, da Espanha, ou mesmo da Holanda. É uma carta do caminho, é uma carta do céu - de algum lugar do céu entre China e Holanda; e eu tenho dois motivos para escrevê-la. 

Primeiro, é uma carta do céu porque mais bonito que chegar ao destino é entender e apreciar a travessia. É uma carta do céu porque eu gosto da incerteza sobre a chegada. Nesses nove meses, oito países e três continentes, o que eu descobri é que muito melhor que achar as respostas é fazer perguntas e deixar que elas nos guiem enquanto perambulamos por aí. Eu sinto que a imaginação e a curiosidade são muito mais estimulantes que esse conhecimento hegemônico que se considera pronto e acabado, eu gosto do conhecimento que é movimento, que é curiosidade e criatividade, parafraseando nosso Lyra Filho, eu gosto do conhecimento “que é, sendo”!

E o que poderia ser mais movimento e mais curioso que sentir essa imensidão de céu, olhar pro infinito e imaginar: Como será quando eu chegar? Que música tocará? Será música de carros acelerando ou passarinhos cantando? Haverá risadas altas e sorrisos grandes ou silêncio e sorrisos tímidos? Como dançarão? Dançarão com todo o balanço possível do corpo ou mexerão apenas o olhar e, talvez, timidamente os calcanhares? 

Quem cruzará meu caminho? Será tímida/o ou expansiva/o? Rude ou doce? Que roupas usará? Falaremos em mímica ou em língua falada? Quando eu precisar de ajuda, quanto tempo demorarei pra encontrar alguém? Quais histórias carregarão as pessoas que meu olhar cruzará? 

Como será a comida? Será servida em pratos? Comerei com a mão, com colheres, garfos ou palitos? A comida será apimentada, bem condimentada ou terá o sabor natural de cada alimento? 

Onde dormirei? Dormirei na palha dos cavalos, em uma cama confortável, em um trailer abandonado, em um barco atracado ou em um colchão inflável de um quarto emprestado? Haverá banheiro ou farei xixi no mato? Se houver vaso sanitário, será ocidental ou aprenderei a técnica chinesa de agachamento? 

Como me receberão? Serei bem vinda como uma “brown Brazilian PhD student” viajando sozinha? Quantos verei serem barrados nos controles policiais e de passaporte? Quantas vezes meus olhos encherão de lágrimas e, discretamente, os enxugarei ao ver sonhos de outras pessoas terminarem “por no llevar papel”? Quantas vezes nessas filas de “passport control” em silêncio cantarei com Manu Chao indignada “Argelino clandestino, Nigeriano clandestino, Boliviano clandestino, Mano negra ilegal”? 

Em segundo lugar, eu também escrevo uma carta do céu por pulsarem em mim histórias que me contaram de minha primeira infância e quero compartilhar. 

Contaram que o meu Vô Celso me deixava tagarelar sem fim enquanto lia jornal na sua poltrona, e balançava a cabeça positivamente quando eu terminava minhas longas histórias e perguntava: Né, Fô? Ele tinha um jogo que me fascinava porque tinha rainhas, reis e cavalos em um tabuleiro branco e preto; e ele dizia que meus olhos eram de jabuticaba, nada me divertia (e diverte) mais que pensar que podemos ter olhos de fruta.


Mas o mais importante de nossa relação era que ele tinha um balanço em seu jardim e a maior paciência do mundo pra me balançar a tarde toda. Um dia entrei correndo em sua casa e gritei: Fô! Fô! Fô Celso, vem me balançar! Todas/os estavam chorando, e eu corria pela casa procurando pelo meu avô, insistentemente. Então, minha mãe me levou ao balanço e me contou que o Vô Celso não morava mais na Casa do Balanço, ele tinha se mudado pro céu. 

Na semana seguinte, apareceram manchas na pele dos meus joelhos e cotovelos, manchas que me acompanharam por 14 anos. Foi minha primeira perda e meu corpo quis tatuá-la em todos os meus quatro membros. Quase um ano depois, minha mãe me contou que iríamos de avião visitar a família em Sergipe. E eu respondi: Já sei! A gente visita a família de Sergipe e no caminho, de avião, meu “Fô Celso” que mora no céu!  
  
Todas/os que me contam essa história a consideram graciosa! Mas, na realidade, me parece um pouco menos graciosa, mais longa e, talvez, mais pesada. Parece me que eu arrastei no chão, na árdua estrada da vida, essa e outras pesadas perdas até meus 20 e tantos anos, que foi quando subi em um avião pela segunda vez em minha vida. 
 
 

Em minha segunda visita ao céu, já na fase adulta, encontrei meu avô, minha mãe, minha grande amiga Danaise, e outros tantos queridos que hoje têm o céu como residência. Foi tão emocionante, eu chorei, ri, sorri, contei pra todo mundo do voo e até pedi (insistindo muito) pra tirar uma foto com o piloto, que, naquele dia, era meu herói. Definitivamente, fui a adulta mais criança que já encontrei em um avião.

Eu ainda não sabia, mas depois dessa segunda viagem de avião, minha vida mudaria, eu não cuidaria mais de crianças ricas, nem mais trabalharia em loja de roupas, eu seria advogada, logo mestra, doutoranda e professora. Tornar-se-iam possíveis e frequentes minhas visitas ao céu. 

E foi assim que, especialmente nesse último semestre, eu passei muitas horas no céu, da Holanda fui à China, à Rússia, ao Egito, à Romênia, à Grécia, à Itália e à Espanha, e ainda passearei mais um pouco pela imensidão do Oceano Atlântico afim de voltar à minha terra brasileira. 

Pra finalizar, quero te dizer, Professor, que eu gostaria muito de ter te escrito uma carta de cada um desses lugares, como havia prometido, mas eu não pude. Eu gostaria de ter escrito também uma carta sobre cada uma das incríveis histórias que ouvi de cada uma das amigas e amigos que fiz no Instituto Internacional de Ciências Sociais na Universidade de Roterdão onde eu estava (há mais de 150 nacionalidades entre as/os pós-graduandas/os e pesquisadoras/es), mas eu não pude, Professor. 

Sinto que havia tanto a ser visto, ouvido, observado e experimentado que minha cabeça não pôde fazer mais que perguntar e procurar as respostas, sinto que não tive tempo para pensar sobre cada uma delas e muito menos para descrevê-las com a devida sensibilidade que cada história merece. Hoje, eu sinto que toda uma vida tentando entender essa diversidade que conheci não me bastaria. 

Tudo que, agora, eu posso escrever é sobre o caminho adorável que liga tudo isso, sobre o céu, esse espaço que podemos visitar e matar as saudades nossos amores mais antigos, podemos nos encontrar com nossas histórias do passado, reencontrar nossos sonhos ainda não realizados e, inevitavelmente, é o lugar onde um dia encontraremos nosso destino. É no céu que visito minhas saudades, que encontro minhas dúvidas, faço minhas perguntas, me preparo para buscar as respostas e reafirmo minhas poucas certezas.

É desse lugar especial que te escrevo e sobre a travessia chamada vida e a diversidade possível de se ver, sentir e viver que te conto, Professor! 

Um grande abraço e muitas saudades. 
Até breve. 

Desde o céu, Ísis. 

(P.S.: Eu tenho anotações de cada um dos países, que vão virar carta, eu prometo! Mas agora elas precisam da ajuda “de um dos Deuses mais lindos: o Tempo.”)

quarta-feira, 24 de julho de 2019

Future-se Valoriza o Privado e não Acena para o Ethos Acadêmico. Entrevista Especial com José Geraldo de Sousa Junior




Por: Patricia Fachin | 23 Julho 2019, IHU – Instituto Humanitas

As propostas do programa Future-se, recém lançado pelo Ministério da Educação – MEC com a justificativa de fortalecer a autonomia administrativa, financeira e de gestão das Universidades Federais de Ensino Superior por meio de parcerias com organizações sociais e captação de recursos, já são implementadas nas universidades públicas federais, diz o ex-reitor da Universidade de Brasília – UnB, José Geraldo de Sousa Junior, à IHU On-Line. Entretanto, salienta, “a diferença, no que aqui se chama novidade da proposta do MEC, é o caráter inteiramente vendido à lógica privatizante e mercadorizadora do projeto econômico-político que está por trás, delirante do ethos públicouniversitário que marca o sentido social e político da universidade como condição estratégica para o desenvolvimento soberano do país. Daí as críticas”.
Segundo ele, o programa, que está sob consulta pública até dia 15-08-2019, “traz formulações que se baseiam em uma série de dispositivos do mercado financeiro, formando uma ‘carteira de ações’ que inclui fundos patrimoniais imobiliários, microcrédito para startups e um fundo soberano do conhecimento, tudo isso com abertura para proporcionar oportunidades de negócios com participação da iniciativa privada”. Trata-se, pontua, de “uma situação sem precedentes e sem paralelo com modelagens que valorizem o privado na estruturação de sistemas universitários e que jamais chegam ao despudor de acenar para o ethos acadêmico”.
Na avaliação dele, embora o Ministério da Educação afirme que o Future-se visa a reestruturar o financiamento do ensino superior público, a proposta “quer levar o governo a escapar da vinculação constitucional que obriga o Estado a financiar a manutenção e o funcionamento das universidades públicas, e, enquanto aparentemente amplia a participação de verbas privadas no orçamento universitário, retira a instituição de sua função estratégica pública e social e a entrega, com seu patrimônio, seu capital de conhecimento e seu acervo cultural à ganância de acumulação e de capitalização”, adverte. E acrescenta: “Por isso o jogo de palavras: Fature-se ao invés de Future-se”.
Na entrevista a seguir, concedida por e-mail, o ex-reitor da UnB também critica a falta de consultas e discussões prévias com reitores das universidades federais e de estudos para embasar a proposta do MEC. “Tivesse havido um estudo prévio para construir a proposta, como foi feito com o Reuni, e um bom catálogo de parcerias, seus tipos, seu alcance na sustentabilidade das instituições e seus impactos nos programas e projetos acadêmicos teriam permitido um desenho razoável dessa experiência”, conclui.

José Geraldo de Sousa Junior é graduado em Ciências Jurídicas e Sociais pela Associação de Ensino Unificado do Distrito Federal - AEUDF, mestre e doutor em Direito pela Universidade de Brasília - UnB. É também jurista, pesquisador de temas relacionados aos direitos humanos e à cidadania, sendo reconhecido como um dos autores do projeto Direito Achado na Rua, grupo de pesquisa com mais de 45 pesquisadores envolvidos. Professor da UnB desde 1985, ocupou postos importantes dentro e fora da Universidade. Foi chefe de gabinete e procurador jurídico na gestão do professor Cristovam Buarque; dirigiu o Departamento de Política do Ensino Superior no Ministério da Educação; é membro do Conselho Federal da Ordem dos Advogados do Brasil - OAB, onde acumula três décadas de atuação na defesa dos direitos civis e de mediação de conflitos sociais. Em 2008, foi escolhido reitor, em eleição realizada com voto paritário de professores, estudantes e funcionários da UnB. É autor de, entre outros, Sociedade Democrática (Universidade de Brasília, 2007), O Direito Achado na Rua. Concepção e Prática 2015 (Lumen Juris, 2015) e Para um Debate Teórico-Conceitual e Político Sobre os Direitos Humanos (Editora D'Plácido, 2016). 
Confira a entrevista.
IHU On-Line - Qual sua avaliação sobre o Programa Institutos e Universidades Empreendedoras e Inovadoras - Future-se, recém lançado pelo MEC?
José Geraldo de Sousa - Enquanto nos últimos anos o Brasil, seguindo tendência mundial, conheceu uma grande expansão da educação superior com os efeitos dessa expansão afetando positivamente a qualidade do ensino e da pesquisa nas Universidades públicas e privadas, essa expansão, compreendida numa ação estratégica de um programa governamental de base democrático-popular, se inscreveu num projeto de sociedade e de Estado (do qual a Constituinte de 1987/1988 representou o seu mais avançado desenho), e que erigiu a educação e a educação superior à condição de núcleo estruturante desse projeto.
Esse programa começa como se define na Constituição que decorreu do processo constituinte, por conceber a educação e a educação superior como um bem público, voltado para fins sociais, por isso de livre acesso, universal, laico, gratuito e, quando disponível ao mercado, com seu exercício condicionado por esses valores, portanto, preservado em face das injunções do comércio. Antes de tudo, direito e não mercadoria.
Um bem, portanto, estratégico porque necessário ao desenvolvimento econômico, social e político do país, não só para permitir fortalecer a infraestrutura da sociedade, por meio da pesquisa, da ciência e da inovação tecnológica, também para orientar as direções éticas desse desenvolvimento, sobre criar as condições de distribuição justa e solidariamente compartilhada da riqueza socialmente produzida, conforme o horizonte de superação de desigualdades e de participação política definido na Constituição.
Para o MEC, em linguagem de bolsa de investimentos, o Future-se que já está sendo chamado Fature-se - José Geraldo de Sousa 
Assim é que se compreende a tremenda expansão havida no período, com a criação de universidades e de escolas federais no plano da educação superior, a implantação interiorizada de novos campi, a duplicação do número de vagas principalmente nos turnos vespertino e noturno das escolas, o apoio às políticas de cotas para ampliar os acessos nas mais diversas modalidades, sociais, econômicas, étnicas, raciais, e uma inversão orçamentária sem precedentes para financiar a expansão, a reestruturação, o acesso, a permanência e as políticas de fomento em todos os níveis, da creche à pós-graduação. Incluindo a contribuição da oferta privada, fiel a esses princípios aferidos em procedimentos de regulação, credenciamento e avaliação do sistema, por sua vez com o apoio de financiamento público para assegurar essa expansão, valendo-se de instrumentos de renúncia fiscal (ReuniCrédito EducativoFiesProuniCiência sem Fronteiras, todos discutidos minuciosamente pelo presidente Lula e pela presidenta Dilma, com os reitores e reitoras, em seguidos encontros com pautas consistentes e com esses conteúdos, até a sedimentação de entendimento comum convertido empolíticas públicas).
Não se perca de vista que a retomada política da tensão entre o público e o privado, que agora se assiste quando se examinam os fundamentos das reformas em curso, notadamente com a PEC de Teto de Gastos voltada para assegurar financiamento de desempenho econômico-financeiro às custas de investimentos sociais – saúde, educação –, recoloca o impasse que em 1988 dividiu os engajamentos sobre serem tais bens, sociais, públicos, responsabilidade do Estado, ou privados, deixados à dinâmica apropriadora, acumuladora, movida por interesse do mercado.
Para o MEC, em linguagem de bolsa de investimentos, o Future-se, que já está sendo chamado Fature-se, traz formulações que se baseiam em uma série de dispositivos do mercado financeiro, formando uma “carteira de ações” que inclui fundos patrimoniais imobiliários, microcrédito para startups e um fundo soberano do conhecimento, tudo isso com abertura para proporcionar oportunidades de negócios com participação da iniciativa privada. Uma situação sem precedentes e sem paralelo com modelagens que valorizem o privado na estruturação de sistemas universitários e que jamais chegam ao despudor de acenar para o ethos acadêmico, como fez o secretário de Ensino Superior do Ministério da Educação - MEC ao afirmar, na audiência de apresentação da proposta, que "o professor universitário poderá ser muito rico. Vai ser a melhor profissão do Brasil".
“O professor universitário (que) poderá ser muito rico. Vai ser a melhor profissão do Brasil” - Arnaldo Barbosa de Lima Júnior, secretário de Ensino Superior do MEC
IHU On-Line - Segundo o governo, o Future-se “tem por finalidade o fortalecimento da autonomia administrativa, financeira e de gestão das instituições federais de ensino superior, por meio de parceria com organizações sociais e de fomento à captação de recursos próprios”. Por que e em que contexto surge essa proposta e qual seu significado?
José Geraldo de Sousa - As universidades públicas federais, sem perderem de vista seu pressuposto inafastável da autonomia, já vêm implementando todas essas sugestões, em sua plataforma de aprimoramento gestor, de busca de ampliação de investimentos e de parcerias com setores institucionais, sociais e de mercado em projetos de extensão, cooperação e parcerias. Os campi têm abrigado instalações para suporte desses projetos, com cessão onerosa e temporalidade limitada ainda que larga de uso, constituindo seus parques tecnológicos para incubação de projetos, compartilhando royalties de patentes e de comercialização de produtos, tanto no campo da inovação tecnológica aplicada para fins industriais, quanto no campo das tecnologias sociais.
A diferença, no que aqui se chama novidade da proposta do MEC, é o caráter inteiramente vendido à lógica privatizante e mercadorizadora do projeto econômico-político que está por trás, delirante do ethos público universitário que marca o sentido social e político da universidade como condição estratégica para o desenvolvimento soberano do país. Daí as críticas. Na contracorrente de opiniões competentes e experimentadas, o programa expõe suas entranhas nutridas no interesse do mercado, servindo conforme pensa o coordenador da Campanha Nacional pelo Direito à EducaçãoDaniel Cara, que vê com “gravidade” a dinâmica de estender a responsabilidade da geração de receitas aos institutos e universidades: “As universidades públicas federais brasileiras precisam cumprir a missão de expansão da educação superior com qualidade. Todas as estratégias de financeirização propostas pelo programa, e que conversam com diversos modelos que ocorreram no mundo, não são capazes de gerar expansão do ensino superior. Elas até podem ser utilizadas em universidades pequenas, como a de Harvard [instituição americana privada], que não tem essa premissa colocada”.
'Future-se' tem o objetivo de realizar as teses ultraneoliberais de abocanhar a fatia substanciosa de capitalização até agora protegida contra a ganância do mercado - José Geraldo de Sousa
IHU On-Line - Como o senhor avalia, particularmente, os três eixos do programa: governança, gestão e empreendedorismo; pesquisa e inovação; e internacionalização? Qual é a relevância de cada um desses eixos?
José Geraldo de Sousa - Iniciei a resposta a esta pergunta em questão anterior. O que eu reitero é a conformidade dessas proposições ao desenho entreguista desse patrimônio social que é a universidade pública brasileira. Desdobrando o começo da resposta, reafirmo que ela retoma, como tenho mencionado em várias circunstâncias, inclusive nesse espaço do IHU, o objetivo de realizar as teses ultraneoliberais de abocanhar a fatia substanciosa de capitalização até agora protegida contra a ganância do mercado. Em 2002, na cidade de Porto Alegre, ainda sob o impacto da resolução adotada naquele ano pela Organização Mundial do Comércio - OMC, de incluir a educação superior como um serviço comercial regulado no marco do Acordo Geral de Comércio de Serviços (GATS, sigla em inglês), reitores de Universidades Públicas Ibero-Americanas, autoridades governamentais e especialistas se reuniram na III Cumbre de Reitoresdessas universidades para discutir os perigos postos pelo modelo neoliberal de mercado. Tratava-se de analisar as ameaças às universidades públicas e a globalização, num encontro radical que teve como eixo a educação superior frente a Davos.
A Cúpula vem a registro para, entre as muitas e agudas reflexões, chamar a atenção para o texto de Marco Antonio Rodrigues Dias, ex-professor da UnB e quadro da Unesco, e seu ensaio A OMC e a educação superior para o mercado.
Em seu estudo, para o qual carreou cifras inimagináveis levantadas entre outras agências pelo banco de negócios norte-americano Merril Lynch, o professor Marco Antonio Dias afirma que o mercado mundial de conhecimento, somente através da Internet, foi calculado, para o ano de 2000, em 9,4 bilhões de dólares, tendente a alcançar 53 bilhões no ano de 2003. E, de acordo com as mesmas fontes, o valor da comercialização de produtos vinculados ao ensino superior nos países da OCDE foi da ordem de 30 bilhões de dólares em 1999. Para o professor, com base nessas informações pode-se dizer que a importância dos serviços, o que vai muito além da educação, representa, na economia norte-americana, dois terços de seus resultados e 80% de seu mercado de emprego.
A capacidade dos países de formar seus cidadãos conscientes e com capacidade crítica estará efetivamente condenada, se o que rege as ações é uma concepção que dá prioridade aos aspectos comerciais - José Geraldo de Sousa
Esses dados, diz o professor, representam números inacreditáveis, e, à medida que novos dados são analisados, se constata que todos são extraordinários. E, para os que relutam em aceitar a prioridade do comércio sobre os direitos humanos, a capacidade dos países de formar seus cidadãos conscientes e com capacidade crítica estará efetivamente condenada, se o que rege as ações é uma concepção que dá prioridade aos aspectos comerciais (DIAS, Marco Antonio Rodrigues. A OMC e a educação superior para o mercado. In BROVETTO, Jorge; ROJAS MIX, Miguel; PANIZZI, Wrana Maria (orgs). A Educação Superior Frente a Davos; La Educación Superior Frente a Davos. Porto Alegre: Editora da UFRGS, 2003).
Constituição de 1988 tem sido a expressão de uma formidável mobilização da comunidade acadêmica e da sociedade civil, que se orientou pelo conceito do papel social que a universidade realiza e de que a educação é um bem público e mesmo quando se realiza de modo privado, por impulso de mercado, não pode delirar dos valores que o Constituinte levou para o seu texto. Esses princípios são corolários de duas institucionalidades fundamentais, que a Constituição de 1988 sufragou e que reclamam a sua defesa intransigente já por lealdade à soberania popular que se manifestou de modo constituinte, já por compromisso histórico conforme acima acentuado: a autonomia universitária e a liberdade de ensinar.
IHU On-Line - Como o Future-se será operacionalizado?
José Geraldo de Sousa - Na proposta, apenas anunciada e de modo unilateral, pois não houve, diferentemente de todos os grandes projetos anteriores — ReuniProuniEnemFiesCiência sem Fronteiras — nenhuma discussão prévia ou grupos de trabalho com reitores e reitoras para sua construção, nem como ocorreu nesses anos, a formulação de agendas entre a Presidência da República e o conjunto de reitores e reitoras — há a previsão de abertura para consulta pública geral, nos próximos 30 dias, pela internet, sem espaço entretanto para debate ou diálogo, limitada a consulta à sua leitura “na íntegra na página da consulta pública. Em seguida, é possível acessar, separadamente, os nove trechos do texto e, para cada um deixar, um comentário e dizer se acha que o tópico está totalmente claro, claro com ressalvas ou se não está claro. Ao final, é possível deixar ainda um comentário geral sobre a proposta”.
Pela especificidade dos itens anunciados, nota-se um conjunto complexo de medidas que guardam vinculação contraditória com a Constituição, leis orgânicas, estandares [padrões] de supervisão fiscalizadora (TCU, CGU, AGU, MPU). Cito um exemplo pontual: enquanto na proposta se abre a possibilidade de acúmulo de encargos decorrentes de obrigações contratadas para atuação de pessoal em dedicação exclusiva, professores desse regime são diuturnamente interpelados pelo TCU e pelo MPU com a tipificação de violação do regime, em situações que, a rigor, sequer deveriam ser questionadas. Há, portanto, uma agenda presumida de caráter legislativo e procedimental que antecipa muitas dificuldades para implantar a proposta.
IHU On-Line - Em que consiste a proposta de criação de Fundos de Investimento, segundo o programa?
José Geraldo de Sousa - Esse é um dos eixos destacados da proposta, o Eixo 1: Gestão, governança e empreendedorismo. Segundo matéria publicada no site do IHU, esse eixo é a principal ancoragem para o capital privado nas instituições. O programa defende que institutos e universidades se aliem a diversos modelos de fundos de investimento para ampliar suas receitas e criar ambientes favoráveis aos negócios. Isso combinado com Fundos de Investimentos Imobiliários que permitiriam às universidades celebrar contratos de gestão compartilhada acerca do seu próprio patrimônio imobiliário e da União e às reitorias estabelecer parcerias público-privadas, comodato ou cessão de prédios e lotes. Além disso, Fundos Patrimoniais (endowment) para captar doações de empresas ou de ex-alunos para financiar pesquisas ou investimentos de longo prazo.
Conforme já mencionei em outras oportunidades, dá-se agora a investida mais sutil porque disfarçada em ilusão de reforma aperfeiçoadora do sistema. O ministro da Educação com o programa ‘Future-se’ diz querer reestruturar o financiamento do ensino superior público. A proposta, todavia, quer levar o governo a escapar da vinculação constitucional que obriga o Estado a financiar a manutenção e o funcionamento das universidades públicas e, enquanto aparentemente amplia a participação de verbas privadas no orçamento universitário, retira a instituição de sua função estratégica pública e social e a entrega, com seu patrimônio, seu capital de conhecimento e seu acervo cultural à ganância de acumulação e de capitalização. Por isso o jogo de palavras: Fature-se ao invés de Future-se.

IHU On-Line - Qual tende a ser o impacto do Future-se na pesquisa, no fazer científico das universidades federais?
José Geraldo de Sousa - Concordo com Boaventura de Sousa Santos, desde escritos anteriores e mais recentemente (Exposição na Conferência Regional de Educação Superior da América Latina e o Caribe. Córdoba: CRES, 2018), quando caracterizou o assédio neoliberal às universidades, para fazer uma séria advertência: “A ideia de que o único valor do conhecimento é o valor de mercado é o que irá matar a universidade. Uma universidade que é ‘sustentável’ porque financia a si mesma é uma universidade insustentável como bem comum, porque se transformou em uma empresa”.
A ideia de que o único valor do conhecimento é o valor de mercado é o que irá matar a universidade - Boaventura de Sousa Santos
IHU On-Line - Quais são os tipos de parcerias público-privadas que já existem nas universidades federais hoje e qual tem sido o impacto dessas parcerias?
José Geraldo de Sousa - Mencionei algumas delas atrás. Tivesse havido um estudo prévio para construir a proposta, como foi feito com o Reuni, e um bom catálogo de parcerias, seus tipos, seu alcance na sustentabilidade das instituições e seus impactos nos programas e projetos acadêmicos teriam permitido um desenho razoável dessa experiência. Tudo depende de cada modelagem de cooperação, mas em geral, além dos pagamentos diretos — aluguéis, de imóveis e de equipamentos, de prestação de serviços (aqui não cabe o exemplo, por causa da natureza pública da prestação de serviços, mas tenha-se em mente as universidades que mantêm hospitais e que os integram cem por cento no sistema SUS, o quanto reverte para elas, para aplicação nos próprios hospitais, o valor dos contratos de prestação de serviços, ainda mais sabendo-se que em geral esses hospitais conservam sua dupla função de serviços e de ensino e pesquisa) —, as negociações têm permitido atividades cooperadas de ensino, extensão e pesquisa (caso da UnB e da Fiocruz instalada no campus universitário), com financiamento de bolsas, estágios, tudo sem perder a dimensão pública, social, republicana dessas parcerias. Assim, cada projeto revela o alcance de seu objetivo cooperado e o impacto que proporciona à relação acadêmica a que ele visa em última razão.
IHU On-Line - Nos governos passados foram feitas parcerias público-privadas para a gestão dos hospitais públicos universitários. Qual foi o impacto dessa parceria na gestão dos hospitais?
José Geraldo de Sousa - Eu próprio, como reitor, vivenciei todo o processo de constituição da empresa pública de gestão hospitalar. Somente no formato a criação da empresa remeteu ao formato de uma entidade modelada pelo sistema privado. Em seus estatutos, em seu funcionamento e em seus objetivos, a Empresa Brasileira de Serviços Hospitalares - EBSERH manteve-se como uma iniciativa de interesse público de modo que seus impactos alcançaram mais a eficiência da gestão, aquisições em escala, planejamento global. Mas contribuiu para a regularização dos serviços; por exemplo, vincular como celetistas servidores precarizados tidos como admissão irregular pelos órgãos de controle.
IHU On-Line - É possível estabelecer algum tipo de aproximação ou semelhança entre a parceria público-privada realizada para fazer a gestão dos hospitais e a proposta do Future-se?
José Geraldo de Sousa - Somente quanto aos requisitos operacionais e de funcionamento. Diferentemente da visão de empreendedorismo e de transferência do público para o privado que o Future-se propõe, na gestão hospitalar a empresa criada EBSERH permaneceu pública no programa e na realização de seus objetivos.
IHU On-Line - Alguns críticos ao Future-se argumentam que o programa pode pôr em xeque a autonomia de pesquisa das universidades. O senhor concorda com esse tipo de crítica? Sim, não, por quê?
José Geraldo de Sousa - Concordo inteiramente e retomo aqui a crítica feita por Boaventura de Sousa Santossintetizada acima para compartilhá-la por inteiro, a exemplo de como o fiz em exposição na Associação Nacional dos Reitores das Instituições Federais de Ensino Superior - Andifes. Ao final do ano passado (2018), a Andifesorganizou um importante seminário para marcar 70 anos da Declaração Universal dos Direitos Humanos e 30 anos da Constituição de 1988. Um dos temas em exposição foi o que proferi, “A Universidade Pública, Autonomia e Liberdade de Ensinar: Valores que a Constituição de 1988 Consagrou”. Na conclusão de minha exposição, aludindo aos desafios e às tarefas que se colocam na conjuntura, em face dos impasses que põem a Constituição numa encruzilhada, implicam em tomar consciência e posição, ao que Boaventura de Sousa Santos, desde escritos anteriores e mais recentemente (Exposição na Conferência Regional de Educação Superior da América Latina e o Caribe. Córdoba: CRES, 2018), caracterizou como assédio neoliberal às universidades: “A ideia de que o único valor do conhecimento é o valor de mercado é o que irá matar a universidade. Uma universidade que é ‘sustentável’ porque financia a si mesma é uma universidade insustentável como bem comum, porque se transformou em uma empresa”.
A ideologia neoliberal colide assim com a ideia de “universidade como um bem comum”, uma das conquistas obtidas a partir da Reforma de Córdoba (1918) - José Geraldo de Sousa
Para ele o presente, controlado pelo neoliberalismo, é uma época plena de perigos para a universidade pública: em face dociclo global conservador e reacionário, isto é, “o domínio total do capital financeiro”. O projeto neoliberal, segundo ele, busca a construção de um “capitalismo universitário”: “Começou com a ideia de que a universidade deveria ser relevante para criar as competências que o mercado exige”, seguiu com as propostas de tributação e privatização. “A fase final é a ideia de que a universidade deve ser ela mesma um mercado, a universidade como empresa”. Se a universidade é uma mercadoria a mais, precisa ser medida: daí os rankings globais. Por isso, a ideologia neoliberal colide assim com a ideia de “universidade como um bem comum”, uma das conquistas obtidas a partir da Reforma de Córdoba (1918). “É um momento difícil por várias razões, e uma delas é que não há um ataque político, mas, sim, um ataque despolitizado. É um ataque que tem duas dimensões: cortes orçamentários e a luta contra a suposta ineficiência ou corrupção, uma luta muito seletiva, porque se sabe que as universidades públicas são em geral muito bem gerenciadas em comparação com outras instituições".
Conforme Boaventura, há três razões pelas quais a universidade é um alvo desejado pelo regime neoliberal:
1. Sua produção de conhecimento independente e crítico questiona “a ausência de alternativas que o neoliberalismo tenta produzir em nossas cabeças todos os dias. Se não há alternativas, não há política, porque a política é só alternativas. É por isso que muitas das medidas contra a universidade não parecem políticas, mas, sim, econômicas, os cortes financeiros, ou jurídicos, a luta contra a corrupção. O que está por trás é a ideia de que a universidade pode ser um fermento de alternativas e resistência”;
2. "pensamento neoliberal busca um presente eterno, quer evitar toda tensão entre passado, presente e futuro. E a universidade sempre foi, com todas as limitações, a possibilidade de criticar o presente em relação ao passado e com vistas a um futuro diferente”;
3. “A universidade ajudou a criar projetos nacionais (obviamente, excludentes dos povos originários) e o neoliberalismo não quer projetos nacionais. Por sua vez, a universidade sempre foi internacionalmente solidária, com base na ideia de um bem comum. Mas o capitalismo universitário quer outro tipo de internacionalismo: a franquia, que as universidades possam comprar produtos acadêmicos em todo o mundo”.
Finaliza, repito, convocando o espírito de Córdoba e da Reforma de 1918, para pensar política e epistemologicamente modos de romper as limitações impostas pelo neoliberalismo e radicalizar a utopia democratizadora: a universidade, concluiu, deve se restituir, fazer um uso contra-hegemônico de sua autonomia e “transformar-se em uma pluriversidade”, teórica e politicamente.
IHU On-Line - Como a proposta do Future-se já vem sendo desenvolvida, em alguma medida, nas universidades privadas e quais as consequências disso?
José Geraldo de Sousa - Essa questão tem que ser aferida na avaliação de cada situação que possa ser carreada para um quadro de modelagem. Não existe esse estudo e a preparação da proposta, feita desde cima, desprezou qualquer discussão ou argumentação. É uma aposta cega. No plano opinativo, remeto à matéria do IHU acima citada e retomo o posicionamento de Daniel Cara, aliás bastante consistente. Ainda que possa haver experiências valiosas no âmbito das experiências em instituições privadas, esse eventual "sucesso" não tem correlação com o âmbito público do modelo constitucional universitário brasileiro. Por isso que ponto considerado “perverso” pelo educador (Cara) é “o de utilizar o patrimônio acumulado pelas universidades públicas como moeda de troca para estratégias de comercialização e financeirização. Isso é um crime de lesa-pátria, ataca a Ciência e precisamos ter clareza disso. As universidades hoje funcionam como um anteparo à política de Jair Bolsonaro, com a sua capacidade crítica. Justamente por isso a ideia de enfraquecê-las a partir de um modelo de gestão que incorpora elementos privatistas e provoca a demolição da autonomia universitária e da capacidade de democratizar o Ensino Superior com qualidade”, atesta.
Atacar a universidade pública brasileira é atacar a soberania do país e precisamos atuar de maneira muito inteligente e conjunta para barrar esse projeto no Congresso. Não é a educação que vai fazer com que a economia tenha dinamismo, tampouco a economia vai fazer com que a educação se realize. O que precisamos no Brasil é de um projeto de desenvolvimento que articule todas as áreas: educação, saúde, economia, assistência social, acesso à moradia. Um projeto que garanta um País com qualidade de vida, mas esse não é o objetivo do governo Bolsonaro”, finaliza.
IHU On-Line - O modelo de gestão sugerido pelo Future-se é uma tendência nas universidades públicas e privadas mundiais? Quais são as semelhanças e diferenças dessa proposta em relação ao modelo de gestão de universidades de outros países?
José Geraldo de Sousa - Não creio que seja uma tendência. Ao contrário, o que temos assistido é a uma volta estratégica ao modelo público na organização e no financiamento a partir dos países de maior PIB no Norte Global.
O que temos assistido é a uma volta estratégica ao modelo público na organização e no financiamento a partir dos países de maior PIB no Norte Global - José Geraldo de Sousa
IHU On-Line - Como a proposta do Future-se está repercutindo entre os profissionais que atuam nas universidades federais? Que comentários e análises o senhor tem visto neste sentido?
José Geraldo de Sousa - As universidades, como as igrejas, as corporações, o país inteiro tem refletido essa polarização de visões de mundo que acontece hoje no Brasil e no mundo. Nas universidades, especificamente, grupos leais ao modelo neoliberal também se formaram e tive a notícia recente de formação de uma associação de professores de direita e que pontificam a crença neoliberal. Já há muito tempo, o capitalismo universitário de que fala Boaventura se instala no ambiente acadêmico para uma ação de erosão privatizante que mina a estrutura do interesse social que a universidade pública insiste em preservar. Esses setores estão certamente eufóricos em face da possibilidade de fortalecer seus grupos de pesquisa, sua carteira de serviços, de se tornarem, como disse o Secretário na apresentação da proposta, “o professor universitário (que) poderá ser muito rico. Vai ser a melhor profissão do Brasil”.
De um modo geral, porém, a recepção mais nítida da proposta é crítica, no sentido de que ela representa uma tragédiapara a concepção constitucional de uma universidade pública, de qualidade, com compromisso social, laica. Para o princípio de que educação, incluindo a educação superior, é um bem social, não é uma mercadoria.
Future-se representa uma tragédia para a concepção constitucional de uma universidade pública, de qualidade, com compromisso social, laica - José Geraldo de Sousa
IHU On-Line - Deseja acrescentar algo?
José Geraldo de Sousa - Apenas o que venho sustentando, junto com meus colegas de pesquisa do Coletivo O Direito Achado na Rua, em face das exigências da conjuntura. Contra tudo isso opõe-se a história milenar da universidade ocidental que soube manter-se leal aos seus fundamentos civilizatórios e sempre soergueu-se aos assaltos da barbárie, de inquisidores, dos múltiplos fascismos, de todas as formas de autoritarismo e contra a ganância do mercado. A educaçãoainda é valor social, bem público, não é negócio. O que se espera é que os movimentos sociais e a institucionalidade estruturada no sistema legislativo e judicial compreendam o alcance e toda a dimensão e significado desses valores inscritos nos princípios constitucionais, para protegê-los e para defender a própria Constituição.

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