EUA perderam a guerra – para as corajosas iranianas nas ruas*
A força das iranianas
nas ruas revela como os EUA perderam a guerra diante de um ato coletivo de
coragem e resistência civil
12 de abril de 2026,
18:22 h
Marconi Burum
Iranianos reunidos ao redor da usina termoelétrica de Kazeroon, no sudoeste do país (Foto: Reprodução/Fars News)
Há várias dimensões
neste texto[1]. E como uma cebola que agrega sabor ao prato – nem sempre
aprazível a todos os paladares, contudo, inegavelmente impactante – precisamos
descascar para, neste caso, compreender o quanto possível o sentido de cada
camada. Senão, vejamos.
1. O Irã é uma
civilização de aproximadamente 7 mil anos de história; história esta sempre
pronta a resistir aos tantos impérios que já lhe tentaram sucumbir incontáveis
vezes;
2. O presidente dos
EUA, Donald Trump, para além da demonstração de demência, ou da fria crueldade,
ou dos muitos crimes que comete cada vez que abre a boca (mesmo que as
verbalize apenas em suas redes digitais), subestimou a resistência iraniana
mais ainda ao lhes ameaçar [dia 7 de abril] afirmando que “uma civilização
inteira morrerá esta noite, para nunca mais ressuscitar”; disse isto e apontou
os principais alvos a serem primeiramente destruídos: pontes e usinas
hidrelétricas; e o risco de este desvairado apertar o botão vermelho e lançar
sobre a atinga Pérsia dezenas de ogivas nucleares fez o mundo inteiro ficar em
alerta extremo;
3. As ruas sempre foram
os espaços das lutas coletivas por direitos, por dignidade, por liberdade, por
vida – em qualquer lugar do mundo;
4. Após esta fala do
déspota dos EUA, a falta de medo fez surgir a cena[2] mais formidável desta
quadra histórica [e da guerra no Oriente Médio]: correu o mundo a imagem
mostrando milhares de pessoas, em especial, mulheres e boa parte delas, ao lado
de suas filhas e filhos, e carregadas de bandeiras do Irã, fazendo a corrente
humana sobre as pontes e ao redor destes lugares, exatamente aqueles que seriam
fortemente bombardeados pelo império ainda vigente nos dias atuais;
5. Ou seja: estas
mulheres e suas crianças (os homens também), certas de que suas vidas seriam
martirizadas, com uma coragem que não se viu com tal dimensão em nenhum lugar
do mundo, desafiaram a soberba e a covardia de Donald Trump;
6. Para se compreender
o modal de força da civilização iraniana – que não apenas não foi destruída
naquela noite prometida, todavia, ascendeu ainda mais potente – é fundamental
que troquemos nossas lentes mediocremente unifocais e nos abramos às perguntas:
i) Que cultura é essa?; ii) O que significa martírio para esta gente?; iii)
Qual é o limite da resiliência, da paciência e da resistência do Irã; e iv)
Onde esteve esse tempo todo este povo?
7. Finalmente: todo
império na história ruiu no tempo de seu esgotamento; e a estagnação acontece
porque todo império é uma farsa sustentada na força que se engasga sufocada
pela mesma energia da opressão que imprime na manutenção de seu movediço
terreno enganoso; isto é, ao impor toda pressão para dominar, é consumido por
sua força centrípeta; em palavras mais simples: se engasga no próprio vômito.
Trazidas ao menos estas
sete camadas como premissas ao debate, reflitamos se o mundo será o mesmo
depois deste primeiro semestre do ano de 2026.
Ao que tudo indica,
estamos diante de uma daquelas drásticas mudanças por que passa a humanidade de
tempos em tempos.
O Direito Achado no
Martírio Coletivo
Certa feita, numa aula
do professor José Geraldo de Sousa Junior, este veio nos ensinar sobre o
Direito Achado na Rua, que tem no seu mote epistemológico a liberdade como
princípio maior das relações e da infraestrutura para a vida, sendo, por
conseguinte, o axioma mais potente da conceituação, da importância e da funcionalidade
do direito. O professor fundamentava a tese com o saber do filósofo Roberto
Lyra Filho, que afirmava ser o direito (e suponho outras ciências também) “a
legítima organização social da liberdade”.
Dito isto, em que se
coadunam tais vocábulos e os sentidos que se fazem mosaico na sentença acima,
frente à questão iraniana, no particular, das mulheres de ascendência persa
presentes neste texto?
Na primeira dimensão, a
vida, ela o é para a liberdade, e todas as funcionalidades do existir somente
fazem sentido se o são para a liberdade. E o povo do Irã demonstra que não faz
sentido viver se não for para a liberdade. Não faz sentido haver uma estrutura
organizacional (e economia) das civilizações se não se guardar a liberdade de
suas sociedades, a autodeterminação dos povos e o respeito às suas culturas.
No segundo aspecto, o
direito, em sua dimensão internacional fracassou. Foi positivado (especialmente
debatido a partir do pós-Segunda Guerra Mundial) para ser hoje apenas uma
estrutura pró-forme, mera moldura elegante tal qual o painel “Guerra e Paz”,
pintura icônica entregue para enfeitar o rol principal da sede da Organização
das Nações Unidas (que, aliás, hoje serve apenas como uma galeria a exibir
artes como essa mencionada, feita pelo talento de um brasileiro, o grande
Cândido Portinari; a ONU, infelizmente, não serve para mais que isto; talvez –
se arte – um teatro servirá).
A começar por Israel,
forjado como Estado pelos pactos multilaterais e pelo mesmo Direito
Internacional que hoje despreza com tanto despudor e violência, as nações – em
sua maioria – já não suportam mais o diálogo e as convenções (ou não há mais
acreditação) de boa civilidade. E a barbárie geopolítica venceu (fazendo toda a
humanidade perder).
Seu contrário, fazendo
a paráfrase que aprendi nas aulas do José Geraldo: o Direito Achado no Martírio
Coletivo talvez nos sirva como um canal reflexivo para uma atitude de otimismo
– ainda que a empatia nos exija respeito à dor alheia, portanto, um minuto de
silêncio e uma resignação em riste.
Crianças do Martírio
A maior prova de que a
ONU e o Direito Internacional estão em colapso é perceber, de um lado, a
banalidade do mal (agora parafraseando Hannah Arendt) que brota dos aviões de
Israel e dos EUA quando no primeiro dia desta nova guerra (a saber, 28 de
fevereiro de 2026), aproximadamente 180 criancinhas iranianas, todas mulheres,
foram assassinadas propositalmente por estes dois países no bombardeio à Escola
Primária Feminina Shajareh Tayyebeh, em Minab, no sul do Irã, e do outro a inércia
dos freios e contrapesos dos organismos internacionais que serviram neste caso
apenas para emitir notas de repúdio ao crime de guerra debochadamente impetrado
pelos Estados genocidas em questão.
Se um dia o povo judeu
(e devemos nos comover sempre e trazer à memoria todos os dias) foi brutalmente
massacrado pelos nazistas alemães, o fato é que este mesmo povo judeu assiste
em silêncio o mesmo tipo de crueldade praticada por Israel na Faixa de Gaza, no
Líbano e no Irã, tendo como símbolo maior este assassinato das crianças na
escola, aliás, meninas, que a hipocrisia ocidental teima em declarar ser um dos
motivos para intentar contra o Irã: a libertação das mulheres iranianas,
oprimidas pelo julgo de seu regime teocrático dos aitolás.
O fato é que o conflito
ainda não se resolveu pela paz. Embora neste instante enquanto escrevo o texto,
EUA (seu “proxy” no Oriente Médio, Israel) e Irã não chegaram a um acordo
definitivo. No entanto, uma certeza já ensaiamos: as meninas martirizadas,
embora não possam elas trabalhar na continuação do projeto da civilização
persa-árabe, representam o esperançar intergeracional de um novo tempo; um
tempo em que o império dos EUA afundarão. Não como quase afundou o Abraham
Lincoln nas proximidades do Estreito de Ormuz (no dia 1º de março). Mas à
insignificância do dominador.
Aos moldes de todo
mecanismo opressor e igual a todo império que mesmos os persas viram em seus 7
mil anos de civilização: EUA sucumbirá. E estas Crianças do Martírio, as da
escola no Irã e todas aquelas por décadas na África, na América Latina, na Ásia
e nos rincões do mundo, serão a ponte para uma nova era, de paz e de
brincadeiras [de outras crianças]; de direitos e de justiça [a todos e todas];
de vida e de liberdade [para os humanos, filhas/os de uma só mãe: a Terra; para
uma só Humanidade]...
………………….
[1] Este texto somente
faz completar o sentido se a sua leitura for possível observar
concomitantemente a imagem dos iranianos – e suas crianças a brincar – na ponte
que receberia uma chuva de mísseis dos EUA (ali pelas 21 horas de 7 de abril)
enquanto estas vidas faziam virgília/manifestação nas ruas para proteger com
seus corpos a civilização de seu pertencimento.
[2] A imagem que aqui
colocamos é de domínio público. Correu o mundo por meio das redes sociais.
Dessa forma, fizemos um recorte da tela do vídeo que também foi divulgado pela
TVT no Youtube, enquadrando o evento principal: as crianças que compunham os
milhares de iranianos que encararam de frente os mísseis e bombas dos EUA e
Israel.
* Marconi Moura de Lima Burum
Mestre em Direitos
Humanos e Cidadania pela UnB, abraçado às epistemologias do Direito Achado na
Rua; pós-graduado em Direito Público e graduado em Letras. Foi Secretário de
Educação e Cultura em Cidade Ocidental. No Brasil 247, inscreve questões ao
debate de uma nova estética civilizatória
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