sexta-feira, 22 de maio de 2015

“SUSTENTA A PISADA” NA AJP: “O QUE NOS UNE E NOS MOVE É UM CONJUNTO DE CAUSAS COLETIVAS QUE SE ENTRELAÇAM”, entrevista com LUDMILA CORREIA

“SUSTENTA A PISADA” NA AJP: “O QUE NOS UNE E NOS MOVE É UM CONJUNTO DE CAUSAS COLETIVAS QUE SE ENTRELAÇAM” Ludmila Cerqueira Correia é Coordenadora Técnica do Centro de Referência em Direitos Humanos da UFPB, Professora no Curso de Direito da UFPB, doutoranda na Pós-Graduação em Direito da UnB e integrante do Grupo de Pesquisa O Direito Achado na Rua, coordenado pelo professor José Geraldo de Sousa Júnior. Ela também foi uma das responsáveis pela organização do primeiro livro do Centro de Referência em Direitos Humanos da UFPB (disponível no site da Presidência da República*). Em uma conversa com Priscylla Joca, para a fanpage da RENAP-CE, Ludmila Correia falou sobre Direitos Humanos, Direito Achado na Rua, movimentos sociais, e muito mais, partilhando conosco sua bela experiência no campo da Assessoria Jurídica Popular (AJP). Confira a entrevista completa abaixo: 1) A poesia “Sustenta a Pisada” (de Cátia de França) aparece como epígrafe no primeiro livro lançado pelo Centro de Referência de Direitos Humanos da Paraíba, bem como é subtítulo do mesmo livro. Nesses tempos em que parece que vivemos o encrudescimento do conservadorismo no Brasil e retrocessos no campo de direitos humanos, como você percebe que nós, assessores jurídico populares, podemos e devemos sustentar a pisada? Acredito que a escolha pela Assessoria Jurídica Popular nos remete a uma caminhada que é feita a cada dia, sem fórmulas nem receitas, com rupturas e continuidades. O que nos move é a possibilidade de transformar a realidade em que vivemos, de continuar acreditando que outro mundo é possível. Nessa pisada, tem algo que vejo como diferenciado na Assessoria Jurídica Popular, e está justamente no modo de fazer as coisas, na forma de buscar as transformações e os avanços. E no quadro atual, pensar estrategicamente com quem nos aliamos e como podemos nos articular em rede para os desafios que nos vêm sendo colocados, acredito que seja um bom começo. Existe um compromisso quando optamos pela Assessoria Jurídica Popular, que passa pela dimensão coletiva e isso é o que diferencia a nossa atuação. 2) Em sua trajetória na Assessoria Jurídica Popular (AJP), você teve oportunidade de vivenciar a AJP na graduação, como estudante e professora, na advocacia popular e agora, mais recentemente, na pós-graduação, como doutoranda na UnB, integrando o “Grupo de Pesquisa O Direito Achado na Rua”, coordenado pelo professor José Geraldo de Sousa Júnior. Como você percebe a importância da AJP na sua vida e na educação e prática jurídica em geral? Costumo dizer que a Assessoria Jurídica Popular me deu régua e compasso, me deu o norte num curso de Direito extremamente dogmático, pouco crítico e voltado, principalmente, ao estudo para concursos públicos. O mais engraçado disso tudo é que conheci a Assessoria Jurídica Popular num projeto de extensão dessa mesma Universidade, mas que não estava ligado ao Curso de Direito e sim, diretamente, à Pró-Reitoria de extensão. A partir dessa janela, um mundo se abriu com muitas possibilidades de vivências e experiências diversas, desde as temáticas de atuação (direito à moradia, direito à cidade, sistema prisional, luta antimanicomial, direitos da criança e do adolescente, direito à terra, e tantos outros), até as metodologias utilizadas (como a educação popular), os espaços institucionais, fóruns de debates e as organizações de defesa dos direitos humanos. Conhecer e participar dos encontros da RENAJU – Rede Nacional de Assessoria Jurídica Popular Universitária foi muito importante para fortalecer a minha escolha por este campo e para entender que era possível impregnar a nossa atuação, nos espaços/instituições em que estivéssemos, com os pressupostos da AJP. Após alguns anos de atuação como advogada popular em organizações de defesa de direitos humanos na Bahia e em Pernambuco, percebo que essas experiências contribuíram para me questionar sobre como pessoas e coletividades podem modificar a realidade em que vivem e qual a nossa co-responsabilidade, enquanto profissionais do Direito nesse processo. Acredito que esta preocupação tenha sido o embrião para decidir cursar o mestrado em direitos humanos, mais adiante, e compreender que a Universidade, com destaque para o curso de Direito, é um espaço a ser ocupado por nós para contribuir com a sua transformação. Daí a importância da Universidade se abrir a essas experiências da AJP e, mais que isso, assimilar as suas metodologias e formulações na educação jurídica, influenciando, assim, práticas jurídicas diferenciadas. 3) Movimentos sociais por vezes exigem o cumprimento de leis, por vezes tensionam por determinadas interpretações legais, por vezes resistem às leis (ou projetos de leis) consideradas como injustas e ilegítimas, por vezes propõem novas leis diante do Estado, e por vezes não reconhecem o Direito Estatal como único existente e reivindicam outros sentidos de Direitos. Como o Direito Achado na Rua vê essas teias de resistências, reivindicações e insurgências existentes entre movimentos sociais e o Estado? Acompanhando mais de perto o percurso de O Direito Achado na Rua, desde o arcabouço teórico dessa corrente que existe desde a década de 1980 no Brasil e os debates mais recentes a partir da disciplina que leva o mesmo nome no Programa de Pós-Graduação em Direito da Universidade de Brasília e do Grupo de Pesquisa O Direito Achado na Rua, sob a coordenação do professor José Geraldo de Sousa Junior, percebo que todas essas teias fazem parte do processo de construção do Direito. Vale registrar que no semestre 2014.1, no curso da mencionada disciplina na UnB, tivemos uma experiência bastante significativa com a proposta do professor José Geraldo de estudar/construir a concepção e prática de O Direito Achado na Rua, no percurso de Roberto Lyra Filho, destacando os seus desafios tarefas e perspectivas atuais. Durante o programa da disciplina, conseguimos discutir essas questões das resistências, reivindicações e insurgências dos movimentos sociais frente ao Estado, sobretudo a partir da concepção de “sujeito coletivo de direitos” e os desafios postos atualmente com as novas configurações dos movimentos sociais no Brasil. Nesse percurso, houve um momento muito interessante, em que pessoas vinculadas a movimentos sociais diversos estiveram conosco para dialogar sobre tais questões, sobretudo com os últimos acontecimentos nas ruas do país: as jornadas de junho de 2013, a forma de representação e atuação desses sujeitos nesse período, a ausência de lideranças em alguns dos movimentos ali presentes, o momento de descentralização e dispersão ali evidente, os debates e enfrentamentos públicos sobre o decreto que instituiu a Política nacional de participação social. Assim, acredito que a partir de O Direito Achado na Rua, há a compreensão de que os movimentos sociais, através da sua atuação política (o que pressupõe resistências, reivindicações e insurgências), tencionam a ampliação da cidadania, o aprofundamento da democracia e a luta por novos direitos. 4) O Direito é achado na rua, nas praças, em Complexos Psiquiátricos, em povos indígenas, em comunidades tradicionais, na luta por direitos, em múltiplos espaços e temporalidades. Ao tempo em que vivemos sob a égide de um Direito Estatal que se tece em uma cultura jurídica positivista e monolítica, e que vêm restringindo direitos humanos garantidos em leis estatais. Nesse complexo contexto, que possíveis estratégias e caminhos podem ser trilhados por assessores jurídicos populares a fim de buscar construir culturas jurídicas plurais, descoloniais e interculturais no Brasil? Há algo que é muito precioso na Assessoria Jurídica Popular e que constitui um dos seus pressupostos: a atuação junto com os movimentos sociais e grupos vulnerabilizados. É a partir do exercício da alteridade entre nós, assessoras/es jurídicas/os populares e os movimentos e grupos com os quais atuamos, o qual possibilita uma relação dialógica, que conseguimos enxergar novos caminhos de atuação conjunta. É justamente a partir das diferenças apresentadas por esses sujeitos coletivos que aprendemos quais possíveis novos caminhos e estratégias adotaremos nas lutas jurídicas e sociais pelo reconhecimento de direitos. Nesse caso, entendo que é a partir das práticas desses povos/grupos/comunidades que novas perspectivas de atuação e construção do Direito podem surgir, como tem ocorrido em alguns países da América Latina, com o novo constitucionalismo “desde abajo”, demarcando a centralidade da participação popular nos processos constitucionais. 5) “O sol que virá, a pisada no susto, sustento sustentará”, assim termina a poesia de Cátia de França. O que você diria mais para aqueles e aquelas que seguem na AJP? Me recordo de um evento, ou mais que isso, uma experiência que me marcou e foi decisiva na minha escolha em continuar no caminho da AJP: o Fórum Social Mundial, do qual participei em janeiro de 2003. Naquela época, eu atuava como advogada no Centro de Defesa da Criança e do Adolescente da Bahia e fui para o Fórum representar essa organização em algumas atividades. Ali um mundo de coisas se descortinou pra mim e foi um dos momentos mais significativos para sentir que na luta coletiva nunca estamos sós, é a luta coletiva que nos fortalece. E me parece que é esse o sentido que encontro na AJP para continuar seguindo adiante: o que nos une e nos move é uma causa coletiva ou um conjunto de causas coletivas que se entrelaçam. Nesse percurso, queria chamar a atenção para um espaço que entendo estratégico para a AJP: a Universidade. Desde que comecei a lecionar no curso de Direito, sobretudo nas universidades públicas, percebi o quanto a formação crítica e na perspectiva da AJP é importante para esse outro mundo possível que buscamos e temos tentado construir. Daí a necessidade de ocuparmos esse espaço para a sua ressignificação e renovação; esse é um compromisso nosso, de assessoras e assessores jurídicos populares, que integra a nossa responsabilidade cidadã e contamina estudantes, a partir do ensino, da pesquisa e da extensão, pra lutar conosco nas velhas e novas trincheiras. * O livro está disponível, de modo gratuito, no link seguinte: http://www.sdh.gov.br/…/centro-de-referencia-em-direitos-hu… ** As fotos, gentilmente cedidas pela entrevistada para a fanpage da RENAP-CE, retratam Ludmila Correia em diferentes momentos de atuação, junto a um grupo de estudantes extensionistas do grupo de pesquisa e extensão Loucura e Cidadania do CRDH/UFPB; em uma fala para grupo de estudantes sobre “O Direito Achado na Rua: contribuições para a assessoria jurídica popular”; e em reunião do coletivo Diálogos Lyrianos do Grupo de Pesquisa O Direito Achado na Rua (UnB), com o professor José Geraldo de Sousa Júnior.

sábado, 25 de abril de 2015

Um bom momento para estar na Escandinávia. Não para imigrantes.

Ana Luiza Almeida* As notícias sobre o barco que naufragou no mar da Líbia na última semana já não comovem mais. Estima-se que 400 pessoas morreram, mas as discussões continuam a se concentrar nas consequências e não na causa. Como impedir a vinda desses imigrantes? As rotas são múltiplas: para Itália, de barco, saindo da Líbia ; pelo Marrocos, atirando-se contra o muro de contenção financiado pela União Europeia que divide a cidade espanhola de Melila, localizada no lado marroquino do Mar de Alborão, e o continente africano ; pelos Balcãs, a pé, eles chegam a percorrer 150 km . Como signatários da Convenção das Nações Unidas relativa ao Estatuto dos Refugiados (1951) , os países Europeus têm lidado, de maneira inadequada, com a proibição de expulsar ou repelir esses refugiados uma vez que eles cheguem ao seu território. Ocorre que, o “problema” que antes se limitava apenas a Espanha e Itália, faz-se mais presente, a cada dia, em outros países Europeus mais ao norte. O acordo Schengen de livre circulação praticamente extinguiu fronteiras entre os países europeus membros, o que, na prática, significa que a entrada de tais imigrantes pela Itália, Espanha ou Hungria (pela caminhada via Balcãs) resulta na sua posterior migração para outros países membros. É importante lembrar, no entanto, que a participação na área Schengen não implica necessariamente na filiação àUnião Europeia. O Reino Unido, por exemplo, é um membro na UE, mas não da área Schengen, o que lhe permitiu estabelecer regras restritas de circulação - inclusive sobre nacionais de países membros da EU. Romenos e búlgaros, por exemplo, que após a filiação à EU em 2007, estabeleceram migração em massa para Inglaterra, têm regras diferenciadas e formalmente estabelecidas para entrarem no Reino Unido. A Noruega é um exemplo do caso contrário, embora não seja um membro da União Europeia, é parte do acordo Schengen, o que tem resultado em uma busca em massa dos imigrantes africanos e Sírios por esse país. Noruega e Suécia são procurados por essa nova geração de imigrantes, primeiro, por sua política de acolhimento mais eficiente quando comparada a outros países europeus; por um invejável estado de bem estar social. No caso da Noruega, há ainda um outro atrativo a imigrantes de todas as nacionalidades: a crença em sua riqueza “inesgotável” baseada no petróleo – uma tremenda contradição. São imigrantes em sua maioria da Eritreia, Somália, Nigéria, Sudão e Síria. Todos têm em comum histórias de horror que incluem assassinatos, destruição, perseguição e estupros. O perfil que antes se limitava a cidadãos paupérrimos desses países, dia após dia, vai se modificando. Famílias sírias de classe média, vendem suas casas para financiar a viagem arriscada de barco para a Europa como última alternativa. Outros, ainda que provenientes de famílias de classe média em seus países, por não se alinharem com o regime, não veem outra alternativa. As perseguições religiosas constam como elementos mais presentes nas histórias desses imigrantes. O fato inegável é que, ao chegarem aqui, todos parecem “perder” seu passado. Se não por vontade própria, o tratamento que recebem forçosamente ignora qualquer de suas experiências ou habilidades prévias. Os processos de imigração em massa tornam a apreciação dos pedidos de asilo e refúgio cada vez mais burocrático e mecânico. A inserção no mercado de trabalho separa os trabalhadores em três categorias: nacionais qualificados; nacionais não qualificados e imigrantes. Os salários seguem uma progressão decrescente do primeiro ao último grupo. A divisão estabelecida nas grandes capitais deixa claro o papel dos imigrantes nessa sociedade. Mesmo na Noruega, uma sociedade formalmente igualitária, em sua capital, Oslo, a divisão entre Leste – para noruegueses que podem pagar para viver naquela área, e Oeste – grupos marginalizados dentro deste sistema – é clara. A estigmatizacão automática desses grupos é cruel. Os grupos conservadores que pregam a saída da Noruega do acordo Schengen fortalecem-se a cada dia no parlamento norueguês e tentam passar leis restritivas especificamente direcionadas a imigrantes. Recentemente houve uma tentativa de aprovação de uma lei que criminalizava o ato de pedir esmola na rua. A ideia era evitar redes criminosas que envolvem mulheres e crianças nessa atividade. No entanto, o principal grupo atingido seria o povo Roma (ciganos), historicamente estigmatizado na Europa. O parlamento europeu segue essa mesma tendência conservadora, e o Tribunal Europeu de Direitos Humanos lida, cada dia mais, com questões complexas que vão além da proibição do uso do véu por mulheres mulçumanas. O Tribunal tem que lidar com questões de maior impacto para os europeus, como a permissão para a construção de minaretes (as torres que compõe as mesquitas mulçumanas) nos países europeus. Com a crise econômica que assola todos os países do mundo, em especial os Europeus, a composição no “novo inimigo” está formada. Ele tem cor, hábitos culturais e religião. Um conflito curioso é daqueles europeus que já constituem uma segunda geração de imigrantes – como os latino-americanos que fugiram das ditaduras militares - que agora opõe-se ao acolhimento de novos imigrantes. A mera legislação não contém mais o impulso antes implícito daqueles que vivem o desconforto de dividir sua riqueza com o “estranho”. Riqueza essa muitas vezes construída a partir de morte, destruição ou parcerias econômicas com aquelas ditaduras que expulsam milhares de seus países. São tempos difíceis... para todos. Mas, sem dúvida, muito mais difíceis para esses imigrantes. *Ana Luiza Almeida participa do Programa de Mestrado Human Rights Policy and Practice, uma ação do consórcio entre universidades da Suécia, Reino Unido, Noruega e Índia. Suas cartas têm sido publicadas neste Blog desde que iniciou o programa (ver Cartas de Gottemburgo).

quinta-feira, 23 de abril de 2015

Relatório da Comissão Anísio Teixeira aponta violações de direitos

MEMÓRIA E VERDADE - 22/04/2015
http://www.unb.br/noticias/unbagencia/unbagencia.php?id=9380
Isa Lima/UnB Agência
 
Relatório da Comissão Anísio Teixeira aponta violações de direitos
Documento mostra como a instituição foi aparelhada durante a Ditadura Militar. Ao final da apresentação, reitor Ivan Camargo fez pedido formal de desculpas em nome da Universidade de Brasília Alexandre Bastos - Da Secretaria de Comunicação da UnB

A Comissão Anísio Teixeira de Memória e Verdade da Universidade de Brasília apresentou, na manhã desta quarta-feira (22), relatório de investigações conduzidas ao longo de 32 meses de trabalho. Documento está disponível para sugestões da sociedade até 22/5.
A cerimônia lotou o auditório da Reitoria. Além de docentes, técnico-administrativos e estudantes da UnB, representantes da sociedade civil, integrantes de órgãos governamentais e egressos acompanharam a divulgação.
O relatório mostra evidências de que a instituição de ensino superior foi aparelhada e instrumentalizada para dar seguimento a políticas repressivas durante a Ditadura Militar.
Para chegar a essas conclusões, o grupo realizou diversas atividades para coleta de depoimentos, pesquisas junto a arquivos públicos, audiências públicas, entre outras.
As constantes invasões à UnB foram tema de documentário exibido durante o evento. Dirigido pela professora da Faculdade de Comunicação Erika Bauer, o curta-metragem apresenta depoimentos de ex-alunos como Hélio Doyle, hoje chefe da Casa Civil do GDF, além de imagens históricas dos anos de chumbo no campus Darcy Ribeiro.

Isa Lima/UnB Agência
Reitor Ivan Camargo ao lado do ex-reitor Antônio Ibañez (C) e da vice-presidente da Comissão de Anistia do Ministério da Justiça, Sueli Bellato

Ao reconhecer e agradecer o empenho de cada um dos 14 membros da Comissão, o reitor Ivan Camargo fez um pedido formal de desculpas em nome da Universidade de Brasília.  “Considerando o relatório apresentado pela Comissão Anísio Teixeira de Memória e Verdade, instituída pelo Ato da Reitoria nº 85, de 10 de agosto de 2012, a Universidade de Brasília, como instituição federal de ensino superior, pede desculpas pelas violações a direitos humanos e atos de exceção cometidos contra sua comunidade acadêmica entre 1964 e 1988”, declarou.
Acompanharam o reitor à mesa, os ex-reitores Antônio Ibañez e José Geraldo de Sousa Junior, a vice-presidente da Comissão de Anistia do Ministério da Justiça, Sueli Bellato, o professor da Faculdade de Comunicação Fernando Oliveira Paulino e o ex-professor e cofundador da UnB Luís Humberto Miranda Martins Pereira.
O ex-reitor José Geraldo ressaltou a qualidade do trabalho e reforçou: “vai além de um registro de memória e verdade, temos aqui um programa de continuidade para ação”. O ex-reitor afirmou ainda que o material busca “contribuir para reeducar nossas práticas e reconstruir as instituições”.

Isa Lima/UnB Agência
Mateus Guimarães, sobrinho de Honestino Guimarães

Em manifestação conjunta entre o público e a ex-professora Ivonete Santiago de Almeida, os nomes de Honestino Guimarães, Paulo de Tarso Celestino, Ieda Santos Delgado e Anísio Teixeira foram mencionados e seguidos por um coro em uníssono atestando simbolicamente a presença de cada um deles ali na cerimônia.
Para Mateus Guimarães, sobrinho de Honestino Guimarães e membro do Comitê pela Memória, Verdade e Justiça do DF, o momento foi “único e histórico”.
O relatório da Comissão Anísio Teixeira está aberto para possíveis sugestões da sociedade por um mês. O texto está disponível aqui e também pode ser acessado em www.comissaoverdade.unb.br

terça-feira, 21 de abril de 2015

Os desafios da Comissão Anísio Teixeira

http://www.unb.br/noticias/unbagencia/artigo.php?id=825

MEMÓRIA E VERDADE - 20/04/2015
Cristiano Paixão e José Otávio Nogueira Guimarães
Em cerimônia a ser realizada no Auditório da Reitoria no próximo dia 22 de abril,  quando a Universidade comemora seu 53º aniversário, a Comissão Anísio Teixeira de Memória e Verdade apresentará seu Relatório, resultado de 32 meses de  intensivo trabalho. Ao longo desses meses, a Comissão identificou a prática sistemática de violações a direitos humanos no período compreendido entre 1º de abril de 1964 e 5 de outubro de 1988.
É possível sintetizar algumas das conclusões alcançadas pela Comissão: a existência de mecanismos de espionagem das atividades de professores, servidores e estudantes; o controle ideológico exercido na contratação e demissão de professores bem como na admissão, suspensão e expulsão de alunos, a severa perseguição contra os movimentos discente e docente e uma clara conexão entre a repressão militar-policial e a censura a costumes e práticas imputadas a membros da comunidade acadêmica.
Os depoimentos colhidos revelaram a prática de crimes contra a humanidade, como o de tortura e de desaparecimento forçado, dos quais foram vítimas jovens universitários. As inúmeras prisões promovidas pelo regime foram mencionadas em muitos desses depoimentos. Lembrados e relatados também foram os atos de resistência à repressão, como as passeatas, assembleias, manifestações, impressão de textos contrários ao regime, entre outros.
Ficou ainda registrada a existência de uma atmosfera de medo, produto das ações do aparelho repressivo. Ao mesmo tempo, o exame de documentos e depoimentos evidenciou a existência de mecanismos de solidariedade entre os atingidos pela repressão.
Duas reflexões e dois desafios podem ser aqui lançados.
Primeira reflexão: a UnB não sofreu “ondas” de repressão ao longo do período ditatorial. Foi muito mais do que isso. Ela foi ocupada e instrumentalizada por um regime de força que não só espionou, perseguiu, puniu e expulsou alunos, funcionários e professores como estabeleceu um aparato de segurança e informações especializado em produzir “infiltrados”, criar procedimentos disciplinares e estimular delações. Além disso, os interventores que ocuparam a Reitoria após a destituição de Anísio Teixeira permitiram (ou incentivaram) que forças policiais e militares invadissem o campus, promovendo prisões e atos de violência. Sob o comando desses interventores, a UnB deixou de ser um território livre e passou a ser alvo  de iniciativas que visavam sobretudo à captura de opositores ao regime.
Dessa primeira decorre a segunda reflexão: a repressão generalizada efetivou-se também fora do campus. Muitos dos depoentes ouvidos revelaram episódios de torturas em locais como ministérios, garagem de prédios públicos e, claro, instalações do Exército. A perseguição foi indiscriminada – mesmo estudantes que não tinham militância política foram presos e torturados pelo simples fato de serem estudantes e residirem em repúblicas.
No momento em que a Comissão se aproxima da apresentação do seu Relatório, tornam-se nítidos os desafios que se colocam para o futuro. Dois deles são cruciais: (1) como retomar os princípios que marcaram a fundação e implantação da UnB? (2) como a Universidade pode colaborar com  uma educação para os direitos humanos, de modo que as gerações vindouras mantenham as premissas democráticas e libertárias que estavam no projeto de Anísio Teixeira e Darcy Ribeiro?
A Comissão inova na forma  de entregar seu Relatório. Ele permanecerá, por um mês, em hotsite hospedado no Portal UnB, aberto a críticas e sugestões de todo aquele ou aquela que queira contribuir com o trabalho de construção da verdade, memória e justiça no âmbito da Universidade. Esse trabalho não se encerra nunca, permanecendo sob a responsabilidade da comunidade acadêmica e da sociedade em geral. O Relatório é uma parte desse longo processo. Uma parte importante, mas não exaustiva. Necessária, mas não suficiente. A UnB foi protagonista na luta contra a ditadura. É hora de reiterar sua centralidade na luta por uma universidade democrática, plural e aberta.
Cristiano Paixão é professor da Faculdade de Direito da UnB e
coordenador de Relações Institucionais da Comissão Anísio Teixeira de Memória e Verdade da UnB
José Otávio Nogueira Guimarães é professor do Departamento de História da UnB e coordenador de Pesquisa da Comissão Anísio Teixeira de Memória e Verdade da UnB

sexta-feira, 17 de abril de 2015

A Justiça Popular em Cabo Verde

Bruno Mileo
O livro A Justiça Popular em Cabo Verde resulta de pesquisa sociológica realizada em 1983-1984 a pedido do governo daquele país quase uma década após a sua independência. Vivia-se o momento da reconstrução da administração pública cabo-verdiana com dificuldades estruturais a serem superadas e, sobretudo, novas possibilidades a partir da ruptura dos vínculos coloniais e pós-coloniais, perseguindo o socialismo como objetivo político.
Conforme o livro aborda, o momento histórico da independência cabo-verdiana possibilitou reflexões importantes sobre os caminhos para a estruturação da administração da justiça naquele país. Por um lado, o mundo ocidental já vivenciava a crise do modelo hegemônico pautado no sistema de produção capitalista e no colonialismo – reprodutor, portanto, de relações de poder com base na classe e em diferenças socioculturais. Embora tenha ocorrido uma ampliação dos direitos sociais na segunda metade do século XX, o Poder Judiciário não se expande satisfatoriamente e se abrem espaços para o debate sobre a crise do judiciário e a necessidade de reformas.
Por outro lado, naquele momento histórico, foi igualmente possível o contato com experiências de outros países africanos e do leste europeu, uma oportunidade de aprender com outros processos de organização política e administração da justiça de base popular. No continente africano em especial, na medida em que zonas eram liberadas dos domínios coloniais, conseguiam ensaiar formas autônomas de base popular e assente nos costumes, obviamente respeitadas as particularidades de cada país.
Em Cabo Verde, a colônia não conheceu forte investimento na construção de infraestrutura de apoio para a administração colonial em razão da pouca presença de colonos portugueses. Após a independência, a construção de uma estrutura judicial autônoma teve que levar em conta dificuldades humanas, técnicas e financeiras – tais como falta de instalações e falta de profissionais especializados para o exercício das funções. Sob outro enfoque, o caminho estaria aberto para investir em alternativas emancipadoras e mais próximas do cotidiano comunitário para a prevenção e resolução de conflitos. Nesse contexto, os tribunais de zona emergem como prioridade e uma inovação institucional que vigorou em Cabo Verde entre 1979-1991, afastando-se do modelo hegemônico liberal para a administração da justiça e, mesmo, dos modelos de justiça popular instituídos no Leste Europeu e em Cuba.
Os Tribunais de Zona em Cabo Verde dispensavam as necessidades técnicas, materiais e humanas da justiça formal, mas também eram uma aposta forte para promover a pacificação social e atuar como escola política, cultural e social do povo. Previstos na organização judiciária de Cabo Verde, os Tribunais de Zona conjugavam as funções de administração da justiça – com a resolução de litígios a partir da atuação de representantes comunitários indicados como juízes não profissionais – e política de promover a participação popular e a educação comunitária conforme os objetivos políticos comuns.
Os casos julgados pelos Tribunais de Zona eram definidos legalmente pela baixa medida da pena ou valor monetário. No atendimento aos comunitários, no entanto, ocorria certa discricionariedade ao processar uns casos e outros não, conforme fosse possível avaliar a gravidade do conflito ou se antever a eficácia da intervenção da justiça popular. Como os juízes eram membros da comunidade, isso podia ser antecipado com base nos conhecimentos e relações que possuíam no bairro, sem necessariamente de informações constantes de um processo.
O funcionamento de cada Tribunal de Zona tendia a variar bastante, mas prevalecia informalidade e oralidade como características preponderantes. Alguns casos chegavam a ser conciliados logo que a parte procurava o tribunal para prestar queixa, outros podiam nem ser registrados ou autuados devido a previsibilidade de sua fácil solução, ainda que tenham se realizado audiências ou, mesmo, tenham sido sentenciados. Os usos da formalidade e linguagem jurídica eram estratégicos conforme a gravidade do caso ou a probabilidade de recurso, quando os juízes dos Tribunais de Zona necessitavam reforçar sua legitimidade na comunidade ou se relacionar com os tribunais oficiais para o julgamento em grau de recurso.
A proximidade entre juízes e comunidade favoreceria também decisões com maior enfoque no caráter educativo e menos no caráter punitivo de acordo com as características de cada caso, embora os Tribunais de Zona estudados ainda aplicassem mais medidas punitivas do que educativas no tempo da pesquisa. O desejável era que a formação comunitária ocorresse com a participação das pessoas no tribunal, assistindo ou manifestando-se durante as audiências. Apesar da participação comunitária ser um dos principais pilares da justiça popular, a pesquisa observa poucos espaços para que os comunitários participem durante as audiências ou algumas delas que foram realizadas apenas com a presença das partes e juízes, indicando esse como um aspecto a ter cuidado.
Apontar essas questões cumpria com o objetivo da pesquisa em contribuir com a construção da experiência da justiça popular em Cabo Verde, estudá-la sem reduzir a sua complexidade. Nesse sentido, outros pontos merecem destaque no livro, tais como alertar para os perigos da instrumentalização partidária da justiça popular, a relação desta com outros órgãos oficiais e de participação popular, o papel dos juízes no cotidiano de resolução de conflitos comunitários, o espaço das mulheres nos Tribunais de Zona como suas principais usuárias – porém com pouca representação numérica no quadro de juízes, o decréscimo na procura dos Tribunais de Zona em comparação aos primeiros anos de funcionamento.
No contexto ideológico da pesquisa e preocupado em destacar as potencialidades e riscos com base nas experiências históricas de outros modelos de justiça popular, assumindo também o lugar de fala de um cidadão português a fazer recomendações em tão pouco tempo da independência cabo-verdiana; o pesquisador faz opções metodológicas cuidadosas. Adota a metodologia quantitativa para que os dados pudessem demonstrar com eloquência o funcionamento dos Tribunais de Zona. Realiza um trabalho pioneiro na coleta de dados que se encontravam pouco sistematizados em razão da informalidade ou, mesmo, não escritos em razão da oralidade que caracterizavam o funcionamento dos Tribunais de Zona. Por esses motivos, ele demonstra cautela em tirar conclusões com base no universo pesquisado, ao invés de assumir um tom generalizante. Aos dados quantitativos, soma-se a consulta a um interessante acervo de documentos, as entrevistas realizadas e as descrições de observações feitas nos Tribunais de Zonas pesquisados. Sempre, é claro, acompanhados da análise cuidadosa e ponderações pertinentes do pesquisador.
No início da década de 1990, os Tribunais de Zona encerravam as atividades em Cabo Verde. Foi um período curto de funcionamento e investimento em alternativas para a prevenção e resolução de conflitos. O livro tem o mérito de documentar sobre o funcionamento da justiça popular em Cabo Verde, mostrando a criatividade comunitária na solução de litígios e seu potencial emancipatório, mas também apontando problemas e obstáculos a serem vencidos. É importante conhecer a experiência cabo-verdiana e, dialogando com ela, refletir sobre a relação entre estado e participação social, direito e política, formalidade e informalidade na administração da justiça. Sendo questões ainda tão atuais a crise de legitimidade do judiciário e o imperativo de democratizar a justiça, voltar os olhos para os Tribunais de Zona em Cabo Verde é essencial para não desperdiçar uma importante experiência e se poder avançar no sentido de novas formas para a administração da justiça.



[1] Texto de apresentação do livro do professor Boaventura de Sousa Santos na livraria Almedina, Coimbra, Portugal no dia 10.04.2015 O autor é professor da Universidade Federal do Oeste do Pará (UFOPA) e doutorando em Direito, Justiça e Cidadania no Século XXI pelo Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra (CES/UC).

quarta-feira, 15 de abril de 2015

Sociologia Jurídica: Condições Sociais e Possibilidades teóricas

Laura Leão Melgaço Campos Ribeiro, aluna do Curso de Direito da UnB


O ensaio de José Geraldo de Sousa Junior “Sociologia Jurídica: condições sociais e possibilidades teóricas” se inicia ressaltando a importância da conexão do Direito com a Sociologia. Durkheim é logo citado com a frase “É preciso, pois, que o estudante aprenda como o direito se forma sob a pressão das necessidades sociais (...)”, mostrando que não há sentido em realizar um estudo do Direito única e exclusivamente baseado em dogmas e manuais.
 O primeiro problema da Sociologia Jurídica é a delimitação de seu estudo, questão essa bem resolvida a partir da visão de Boaventura de Sousa Santos: Ele sugere que lidemos com o conhecimento utilizando de uma rebeldia metodológica, ou seja, a interconexão entre áreas do saber não deve ser uma possibilidade, e sim uma necessidade; é o único modo de se obter conhecimento de forma racional.
O ensaio nos apresenta então, uma perspectiva histórica da Sociologia, pois é necessário conhecer o retrospecto antes de se pensar em uma aplicação futura. Assume-se que a Sociologia adquire seu caráter analítico a partir dos estudos de Emile Durkheim, todavia, antecessores ao francês (Aristóteles, Montesquieu, Comte e Marx) são de suma importância para compreender as fases do pensamento sociológico. Aponto aqui uma predileção pessoal aos estudos de Marx, pois o considero como um grande teórico do chamado Estado Social (que evolui para o Estado Socialista), onde a compreensão do espírito coletivo é alta, e os juristas assumem o papel de análise social, contrapondo-se à análise puramente mecânica e dogmatizada (CARVALHO NETTO. Menelick de. A hermenêutica constitucional sob o paradigma do estado democrático de direito).
A partir de Durkheim, a Sociologia do Direito como ciência distinta da Sociologia em geral começa a tomar forma. É em Durkheim que se relacionam os tipos de solidariedade com o Direito, e há um paralelo entre Direito e Moral, estabelecido pela diferença entre sanções difusas e organizadas. É em Weber, contudo, que a autonomia se concretiza através da distinção entre os fenômenos jurídicos e os demais fenômenos sociais.
Na contemporaneidade surgem autores cujas teorias são chave para entender o desenvolvimento da Sociologia Jurídica, dentre eles, Boaventura de Sousa Santos, que desloca o foco centrado na norma para o foco no conflito, pois segundo sua teoria o Direito apresenta uma “garantia de arranjo harmonioso dos conflitos” e tem como função promover a mudança social.
Ressalto um paralelo entre a teoria de Boaventura de Sousa Santos e a teoria de Marx: Os dois teóricos acreditam no conflito como fonte de mudança social, e não como um problema.
É em Elías Diaz, porém, que surge uma análise classificatória que correlaciona as sociedades globais e os sistemas de Direito, utilizando-se para isso docaráter analítico da Sociologia. O filósofo do Direito espanhol apresenta a definição de Sociologia Jurídica da qual mais compartilho interesse: “Estudo e análise das interrelações entre Direito positivo e sociedade”. Para Diaz, esse estudo se desdobra em dois níveis: Nível de legalidade e legitimidade. O nível de legalidade compreende a distinção entre direito vigente e direito eficaz, já o nível de legitimidade estuda a aceitação e vivência dos valores jurídicos por diversos grupos sociais.
Entendendo a sociedade como organismo em constante mutação, é certo que estudar os impactos da modernidade é de suma importância. Nesse sentido,é necessário entender que estamos em um processo de destituição contínua de direitos, ao passo em que direitos nunca antes imaginados passam a ser requisitados. Para acompanhar as inovações sociais, Boaventura de Sousa Santos diz: “É necessário que o campo do político seja radicalmente redefinido e ampliado”. Ainda tentando acompanhar a dinâmica social, existe a tese de Patrick Pharo do chamado “Civismo ordinário”, uma espécie de interseção entre o direito legislado e a cultura.
Na tentativa de resolver o problema da distância entre Direito positivo e sociedade, Lyra Filho e Boaventura de Sousa Santos contribuem intensamente para pluralizar o Direito e resolver a questão citada.A tese de Lyra Filho é útil para distinguir Sociologia do Direito e Sociologia Jurídica, sendo a primeira referente à base social de um direito específico, enquanto a segunda refere-se ao Direito em geral. Os dois autores se tornam grandes apoiadores do sentido auto reflexivo da alternatividade, sentido esse utilizado por vários juristas do Rio Grande do Sul e Santa Catarina.
Como exemplo da aplicação da Sociologia Jurídica na era atual, o ensaio nos apresenta o projeto de reforma do ensino jurídico no Brasil, apoiado pela OAB, cuja proposta era a “Renovação do jurista para que venha a constituir-se em sujeito do novo processo de construção jurídica de novas categorias e de novos conteúdos emergentes do dinamismo social, levando a novas figuras de futuro”.
A parte final do ensaio nos apresenta o panorama atual do Direito conectado com a Sociologia em uma era de movimentos operários e populares, uma era onde a reivindicação de direitos é cada vez mais comum. Como principais teóricos dessa nova era, são apontados Roberto Lyra Filho e Marilena Chauí, que reconhecem o aparecimento de um “sujeito novo” consciente dos direitos que dispõe e com vontade de lutar pelos que ainda não o são garantidos.
“A cidadania ativa é a que é capaz de fazer o salto do interesse ao direito, que é capaz, portanto de colocar no social a existência de um sujeito novo (...)”
(Chauí, Marilena; 1990)
O “Direito achado na Rua” representa uma forma de aplicação da Sociologia Jurídica na era moderna, sendo a rua um elemento simbólico da emersão dos direitos populares e da reivindicação destes. Acredito que o projeto seja uma síntese do que o ensaio nos propõe: Utilizar da imaginação, pensar além dos dogmas, romper as amarras das ideologias pré-fixadas.
O Direito é bem mais do que os dogmas e os manuais. O Direito é uma ciência que serve a sociedade, e, sendo assim, acredito ser necessário o estudo constante da própria, uma vez que as mudanças sociais ocorrem o tempo todo. A sociedade é composta de inúmeros indivíduos, cada qual com suas ideologias próprias, que juntas, formam, a cada dia, mais e mais grupos de identidade comum. Creio que é justamente essa pluralidade de ideias e opiniões a representação do espírito democrático, e cabe a nós, futuros juristas, tomar parte dessa sociedade diversa e eclética, sendo o estudo da Sociologia essencial para isso.
Os projetos de extensão presentes na Faculdade de Direito da Universidade de Brasília são, a meu ver, a materialização da Sociologia Jurídica, uma vez que conseguem correlacionar a teoria com a análise da sociedade além da tentativa real de interferência e solução dos problemas. Como mencionado anteriormente, Boaventura de Sousa Santos diz que o Direito garante uma harmonização dos conflitos sociais. Ora, como estar ciente dos conflitos presentes em nossa sociedade se não a partir da análise desta? O estudo de códigos e demais formas positivadas de Direito tem sim sua importância, mas de nada adianta se não há conhecimento do ambiente onde estes serão aplicados.
 A AJUP- Assessoria Jurídica Popular Roberto Lyra Filho- é um exemplo de projeto que analisa problemas como o Lixão, demandas rurais e etc. O projeto analisa problemas emergentes e procura soluções para eles, o que eu acredito ser muito benéfico, principalmente no âmbito trabalhista, uma vez que passamos por uma situação de atraso de salários e greves no Distrito Federal, gerando incerteza na população acerca de seus direitos.
O estudo dos problemas sociais aliado ao conhecimento teórico garante a formação de Juristas mais capazes de lidar com as transformações ocorrentes na sociedade. Creio que esta ideia seja a parte mais importante do ensaio analisado, bem como a proposta principal da disciplina Sociologia Jurídica.


* Resenha crítica acerca do ensaio. O ensaio foi publicado em livro homônimo, de José Geraldo de Sousa Junior, editado por Sergio Fabris Editor, Porto Alegre, 2002, págs. 11-51.

quinta-feira, 2 de abril de 2015

Carta do Equador, Mitad del Mundo

Quito, 30 de março de 2015.

Queridos/amigo/as:

Envio esta carta, desde la mitad del mundo, na tentativa de somá-la às demais cartas escritas e partilhadas pelos amigo/as e companheiro/as do grupo de pesquisa O Direito Achado na Rua.

Estou vivendo no Equador há dois meses. Vim para realizar o trabalho de campo da tese de doutorado que venho desenvolvendo no Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra. Cheguei aqui para estudar as experiências de advocacia popular neste país, mas sobretudo, pesquisar um certo conflito territorial entre a comunidade negra La Chiquita e as empresas plantadoras do monocultivo de palma. Advogado/as e comunidade estão há 10 anos resistindo e defendendo o direito ao território ancestral desta comunidade.

O Equador é permeado por uma paisagem social e política de grande diversidade e complexidade. Como ocorre com as pesquisas sociológicas, a minha investigação se depara com essa diversidade e se combina de diversas formas com muitos outros temas. Ao mesmo tempo, é fascinante e angustiante. Estamos sozinhos na jornada de uma tese, e o tempo é sempre escasso para dar conta da pluralidade e amplitude de coisas a descobrir e compreender.

A aproximação com o caso da comunidade La Chiquita tem me levado à realidade histórica e contemporânea dos negros deste país, um tema ainda pouco enfrentado por aqui.  A população que se auto declara afroequatoriana é de apenas 7,2 %. Em contrapartida, 71,9% dos equatorianos se autodeclaram mestiços. Uma grande presença da população negra está concentrada na região norte do país, na província de Esmeraldas.

À semelhança do Brasil, a população negra do Equador enfrenta muitos problemas como preconceito, desemprego, baixos níveis de escolaridade, escasso acesso à saúde, pouca participação política. E, particularmente, as comunidades negras rurais vivem uma situação de extrema vulnerabilidade social, ameaçadas constantemente de perderem seus territórios. Uma conjuntura muito enraizada num passado colonial.

Estou de acordo com os amigos daqui quando afirmam que há muito racismo e preconceito contra os negros no Equador. Escutei por mais de uma vez que “os negros são desorganizados”, que “não se mobilizam” e que “seus direitos coletivos só foram adquiridos graças à luta dos povos indígenas”.  A comparação com os indígenas é bastante comum.

Em Quito, tem sido frequente a reação de surpresa das pessoas quando digo que estou aqui interessada em estudar as comunidades negras. O estranhamento parece derivar do fato de que não haveria muita coisa capaz de justificar o interesse de um pesquisador sobre o povo negro do Equador. “Por que não estudas os indígenas?”, me perguntaram a primeira vez que visitei a cidade.

Conheci um professor colombiano, negro, que me contou que veio morar em Quito para fazer os seus estudos de mestrado. Tão logo terminou, se mudou para Esmeraldas para dar aulas. Perguntei por que havia deixado Quito. “Muito racismo por lá”, respondeu. Um outro dia, um amigo e professor da Universidade Andina Simón Bolívar desabafou: “O movimento afro segue na pior situação de marginalidade, sempre estiveram numa situação pior que a dos indígenas”.

Parte da minha pesquisa é feita em Quito e a outra parte em San Lorenzo,  região de Esmeraldas, perto da fronteira com a Colômbia. Nas andanças entre uma e outra tenho conversado com muitas pessoas e conhecido o trabalho de alguns grupos que me fizeram acreditar que esses estigmas não se sustentam e que é equivocado qualificar um determinado grupo, impondo parâmetros de outro. Há um processo organizativo afroequatoriano em curso há muitas décadas, com toda a sua complexidade e particularidade. Existem cerca de 120 organizações negras por todo o país atuando com agendas específicas e ações politicas. Com avanços e debilidades, como qualquer processo político organizativo.

Em Esmeraldas, conheci as bravas mulheres do MoMuNE (Movimento de Mulheres Negras de Esmeraldas) e estive numa reunião com diversas organizações negras que estão discutindo formas de intervir no texto da nova Lei de Terras do país. Passei um período com a comunidade La Chiquita que, pela sua Asociación de Trabajadores Autónomos, persiste na defesa do seu território e dos direitos da natureza, a pachamama. Há ainda um grupo de acadêmicos e intelectuais ativistas, como Pablo Minda, Jhon Antón, Catherine Walsh, Juan García e Julianne Hazlewood, que tem produzido uma consistente literatura antropológica e sociológica sobre o importante aporte dos negros para o país, sua identidade étnica e cultural, suas formas organizativas na luta contra o racismo e a exclusão social.

Nesta semana, em que se retomou o julgamento no Supremo Tribunal Federal sobre a constitucionalidade do Decreto 4.887/2003 (que regulamenta a titulação de terras quilombolas) pensei muito nas comunidades do Equador, como a de La Chiquita, e em como as lutas e os contextos dos dois países se comunicam. E lembrei de um texto da Catherine Walsh, sobre as lutas (des)coloniais, em que ela pergunta se, de fato, os Estados estão conseguido confrontar o legado da colonialidade e reconhecer a dívida histórica que têm com a população negra. Uma oportuna pergunta para os poderes políticos do  Brasil.

Fico por aqui.
Um grande beijo.


Flávia Carlet

sábado, 28 de março de 2015

Seminário “Democracia e Ditadura: memória e verdade contra o(s)autoritarismo(s) do presente”

Data: 31/03
Horário: 16h-19h
Local: Auditório Joaquim Nabuco, Faculdade de Direito da UnB

Programação
Mesa 1
Ivan Marques de Toledo Camargo, Reitor da Universidade de Brasília
Ideli Salvatti, Ministra da Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República

Mesa 2
José Otávio Nogueira Guimarães, membro da Comissão da Verdade “Anísio Teixeira” da Universidade de Brasília
Representante da Rede de Comissões da Verdade Universitárias
Sueli Bellato, Vice-Presidente da Comissão de Anistia do Ministério da Justiça
Representante da Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos

Mesa 3
Leitura de Nota Pública da Rede Latino-americana de Justiça de Transição
Prof. José Geraldo de Sousa Júnior, ex-reitor da UnB (Faculdade de Direito UnB)
Prof. Cristiano Paixão, conselheiro da Comissão de Anistia do Ministério da Justiça (Faculdade de Direito UnB)
Prof. Gilberto Tedéia (Departamento de Filosofia UnB)
Profa. Maria Cecília Pedreira de Almeida (Departamento de Filosofia UnB)

Perguntas orientadoras

1) Em que medida a constituição de uma memória coletiva sobre o passado, principalmente sobre momento históricos nos quais o próprio Estado assassinou, torturou e desapareceu com pessoas é fundamental para a construção de uma democracia?

2) Mario Magalhães escreveu, analisando as manifestações do dia 15 de março: “Ontem desfilaram lado a lado quem defende que Dilma e o PT sejam varridos nas eleições de 2018 e quem alardeia o impeachment imediato ou variantes menos polidas do golpismo, como a ‘intervenção militar’.
Todos aceitaram protestar ao lado de quem prega o regresso dos militares; [...] de quem levou a faixa ‘Basta de Paulo Freire’ – ódios não envelhecem; com discurso ou não, ao lado de Jair Bolsonaro, Paulinho da Força, um torturador do antigo Dops, veteranos do Comando de Caça aos Comunistas e outros profetas da intolerância.
O parágrafo acima não “acusa” ninguém. É uma constatação objetiva.”
Com base nessa assertiva, questiona-se: o que significam e quais os efeitos desses pedidos?

3) O encerramento da Comissão Nacional da Verdade e de outras Comissões da Verdade (estaduais, municipais, setoriais etc.) não significa o fim da busca pela verdade e da luta pela memória. Como dar continuidade a agenda da Justiça de Transição no Brasil nesse novo contexto?

4) O que significa fazer Justiça de Transição no Brasil? O que significa lutar pelos direitos à Memória, à Verdade, à Reparação, à Justiça e à Reforma Institucional no contexto brasileiro?

Realização
Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República
Apoio
Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos
Comissão de Anistia do Ministério da Justiça
Rede de Comissões da Verdade Universitárias

Comissão da Verdade “Anísio Teixeira” da Universidade de Brasília

segunda-feira, 16 de março de 2015

Aula Magna das Pós do CEAM PPGDH/PPGDSCI

Prezados/as,
A  Pós-Graduação  em  Direitos  Humanos  e  Cidadania  e  de  Pós-Graduação  em Desenvolvimento,  Sociedade  e  Cooperação  Internacional,  do  Centro  de  Estudos Avançados Multidisciplinares  da Universidade de Brasília, a Comissão de Anistia do Ministério da  Justiça e a Secretaria  de Reforma do Judiciário do Ministério da Justiça  têm  a  honra  de  convidá-lo/la  para  as  atividades  do  primeiro  semestre  de 2015 a ocorrer nos dias 23 e 24 de março.

Segue programação completa:

23  de  março,  às  18h30  -   Aula  Magna:“América  Latina,  Democracia,  Direitos Humanos e Justiça de Transição: Diálogo Crítico entre Filosofia, Política e Direito” a  ser  ministrada  pelo Professor  Alberto  Filippi,  da  Argentina.  Local:    Auditório  do Memorial Darcy – Beijodromo.
Composição da Mesa:
  Prof. Alberto Filippi* (palestrante )
  Prof.  Jaime Martins de Santana  (Decano)
  Prof. Gustavo Macedo  Bapista (Diretor do CEAM)
  Profª Vanessa Maria de Castro (coordenadora do PPGDH)
  Profª Doriana Daroit (Coordenadora do PPDSCI)

* Professor Alberto Filippi  é professor aposentado da università di Camerino - Itália e Professor na  Escuela  de  Serviço  Judicial  na  Argentina.  Doutor  em  Filosofia  na  Universidade  de  Roma "La Sapienza".  Doutor  Honoris  Causa  em  Ciência  Política  pela  Universidad  Ricardo  Palma,  em Lima (Peru). O estudo da configuração histórica das instituições, com particular referência às recíprocas influências  do  pensamento  político  entre  a  Europa  e  as  Américas  é  uma  constante em  suas pesquisas  e  nos  cursos  e  conferências.  Nesses  estudos  o  pensamento  de  Darcy Ribeiro,  seu amigo, tendo sido seu tradutor para o italiano de vários escritos, tem lugar de destaque.
23 de março, às 20h30 – Lançamento da Coletânea de livros fruto de cooperação firmada  entre  a Comissão  de  Anistia  e  a  Universidade  Federal  da  Paraíba  no âmbito do projeto Marcas da Memória da Comissão de Anistia. Local:  Auditório do Memorial Darcy – Beijodromo.
Composição da Mesa:
  Prof. Alberto Filippi
  Marcelo Torelly (Organizador da Publicação)
  Profª Lúcia Guerra (UFPB)
  Sueli Bellato (Vice-Presidente/CA)
  Profª Vanessa Maria de Castro (UnB/PPGDH)
24/03,  às  9h00  -   Apresentação  e  debate  da  pesquisa  da  Secretaria  de  Reforma do Judiciário do  Ministério  da  Justiça:  “Análise da pesquisa sobre deslocamento de incidente de competência de julgamento de violações de direitos humanos”.
Palestrantes:
  Flavio Croce (Secretário da Reforma do Judiciário/MJ)
  Prof. Guilherme de Almeida (Coordenador da pesquisa da USP)
Coordenação da Mesa
  Prof. José Geraldo de Sousa Junior (UnB/PPGDH)

Debatedor
  Prof. Alberto Filippi
  Prof. Menelick de Carvalho Netto (UnB/PPGDH)

24/03,  às  12h30  –  Almoço  na  Fundação  Darcy  Ribeiro  e  visita  ao  acervo  do Memorial Darcy Ribeiro.          
     
Centro de Estudos Avançados Multidisciplinares

quinta-feira, 12 de março de 2015

Boaventura: “a esquerda pode retomar as ruas”

POR 
BOAVENTURA DE SOUSA SANTOS  

150311_manifestação Podemos
Manifestação em Madri, articulada pelo Podemos em 31 de Janeiro, logo após vitória eleitoral do Syriza, na Grécia. Milhares gritam “tic tac tic tac”, sugerindo fim de linha para elite política
Partidos tradicionais desprezaram mobilização social. Mas ela é resgatada por grupos que já não se baseiam em militância, vanguardas ou grandes líderes
Por Boaventura de Sousa Santos | Tradução: Inês Castilho
Há 40 anos Boaventura de Sousa Santos participou das lutas que construíram as então nascentes democracias ibéricas. Agora, este sociólogo português (Coimbra, 1940), doutorado por Yale (EUA) e professor de Coimbra e Wisconsin (EUA), continua atento aos movimentos sociais – mas quem o escuta são os dirigentes do Podemos, especialmente Juan Carlos Monedero, a quem qualifica de “cabeça brilhantíssima”.
Syriza, na Grécia. Podemos, na Espanha. Tempo de Avançar, em Portugal. É coincidência ou têm uma fonte comum?
Há um esvaziamento geral da democracia que, no sul da Europa, chegou até nós quase ao mesmo tempo. E todos os países haviam adotado o modelo atual, a social-democracia, uma combinação única de altos níveis de produtividade e proteção social. Com o desenvolvimento da União Europeia (UE), assistimos a uma transformação política que demonstrou não ser um modelo sustentável. Washington impôs o neoliberalismo, com os mercados e as privatizações, e o Estado num papel secundário; na época, os partidos socialistas eram fortes em nossos países e resistiram à mudança. Mas o modelo neoliberal entrou por uma estrutura supranacional, a União Europeia. E os partidos socialistas se adaptaram a partir de Tony Blair, com a “terceira via”, ou o “capitalismo de rosto humano”. A proteção social passou a ser vista como um engano, um grande investimento, um custo. É o que chamo de democracia de baixa intensidade, com níveis muito altos de desigualdade, aos quais não estávamos acostumados na Europa.
O grande desencadeador é a crise grega de 2010?
Sim. Em vez de considerá-la um problema europeu, optou-se por considerá-la um problema nacional da Grécia. Só recebeu ajuda ao adaptar-se às condições impostas pela UE. O modelo, não muito diferente do ditado pelo FMI e Banco Mundial à América Latina e à África, logo se aplicaria à Irlanda, a Portugal e à Espanha. E assim estamos: países onde Europa e democracia eram consideradas sinônimo de bem-estar, porque chegaram juntas, de repente representam a Europa do mal-estar.

Conhecemos os efeitos da crise, mas não a receita desses partidos.
Syriza e Podemos são embriões, buscam uma reconstrução democrática de alta intensidade, de um estilo novo. Não vão voltar à social-democracia dos anos 70.
Seu crescimento se dá às custas dos partidos de esquerda clássicos.
É que os partidos da esquerda tradicional – os socialistas, os comunistas – não estavam enfrentando a crise. A sociedade utilizou então outras vias políticas; primeiro, ocupando as ruas, porque é o único espaço público não colonizado pelos mercados. Acreditam que os parlamentos e os governos estão colonizados pelos mercados. Enxergam a promiscuidade política entre a elite política e a financeira.
Ocupam as ruas e… ?
E conseguem mobilizar pessoas que nunca tiveram interesse pela politica. Nesse processo de esvaziamento democrático, os partidos tradicionais – e muitos intelectuais – haviam desprezado as ruas. Consideravam que com as massas não se faz política, porque estão despolitizadas. Syriza e Podemos dizem que essas massas não estão despolitizadas, estão desencantadas, e essa ideia transforma os protestos numa construção política totalmente diferente: não assentada na militância, nas vanguardas ou nos grandes líderes, mas em organizações de bairro que muitas vezes começaram seu trabalho pela via social.
Uma nova era?
Eu a considero a segunda liberação (a primeira foi o fim das respectivas ditaduras). Até agora olhávamos para a Standard&Poor’s cada vez que ousávamos aumentar o salário mínimo. Com a vitória do Syriza, vivemos um novo tempo. De repente, a troika desapareceu. Politizamos a Europa outra vez. Isso é bom.
Não parece bom para a Alemanha.
Custa a Angela Merkel aceitar que haja na Europa uma outra política emergente. Àqueles que haviam dito que o problema grego era um problema europeu, voltamos a dizer que a solução grega é uma solução europeia. Ninguém imagina que vá haver uma solução para a Grécia que não repercuta na Espanha, Portugal e Itália.
E os mercados serão derrotados?
O capitalismo inflexível vai ter de mudar, e mudará. O capitalismo sempre se adapta, porque acaba sendo lucrativo.
E como será ele?
Mais inovador e com mais imaginação econômica. O que o ministro das Finanças grego, Yanis Varoufakis, anda dizendo é o que expressão também economistas nada revolucionários, mas prêmios Nobel como (Joseph) Stigliz e (Paul) Krugman: renegociar a dívida e dar à Grécia as condições oferecidas à Alemanha para sua reconstrução.
Todos economistas. Não há políticos imaginativos?
Tivemos uma geração de políticos preguiçosos, porque todos haviam vindo de cima, da UE ou dos mercados. Seus antecessores — Willie Brandt, Felipe González, Mário Soares — tinham imaginação, sabiam que havia decisões que dependiam deles. No caso de Syriza e Podemos são jovens, gente politizada já há tempos, que não entrou agora no barco, o que poderia acarretar-lhes a acusação de populistas.
Mas parece que são acusados.
Populismo é o terceiro grande insulto do período a que nos referimos. Na ditadura, o insulto àquele que contestava o regime era comunista; com a democracia, quem criticava era chamado de fascista; e agora estamos com populista. Populismo é a ligação direta entre o líder e o povo; a perda da intermediação política, e uma confiança carismática no líder. O Syriza e o Podemos vêm de movimentos de base, assembleias de cidadãos…, o contrário do populismo ou, se quiser, o populismo invertido, de baixo para cima – uma combinação de democracia participativa e democracia representativa. Tampouco são pioneiros. Nos anos 90, a prefeitura de Porto Alegre (Brasil) realizava orçamentos participativos: a população decidia quanto de dinheiro ia para a saúde. O problema sempre foi que a democracia participativa funcionava bem no âmbito local, mas não havia mecanismos para estendê-lo a todo o país. Veremos se o Syriza e o Podemos conseguem.
Você parece otimista.
Estamos num bom momento para os cidadãos; não sei se tão bom para os mercados. Mas é bom para a democracia e para a Europa. Não será tampouco um momento de revolução socialista. Estamos na construção de uma sociedade digna. Esses partidos devem manter o nível de participação com certa rotina. Se, uma vez alcançado o poder, as pessoas se desmobilizam, haverá retrocesso social.
E o que acontecerá com os partidos socialistas e comunistas?
Depois de muitos anos pensando apenas em si mesmos, é hora de atravessar o deserto. No fundo, são os responsáveis pela emergência dessas novas forças.
O paradoxo é que o Podemos, diz que não é nem de esquerda nem de direita.
Não são nem desta esquerda nem desta direita. Rejeitam as receitas antigas de esquerda e de direita. A lógica da alternância desacreditou uma e outra.
Parece que, ao culpar os mercados, nos esquecemos da corrupção.
Para estas novas forças, a luta contra a corrupção vai ser fundamental.
Um dos criadores do Podemos, Juan Carlos Monedero, já começava a defraudar a Fazenda.
Comparado ao caso Bárcenas, o de Monedero é ridículo. As acusações são uma manobra desesperada dos que se opõem a ele.
Conhece Monedero?
Em 2011 ele escreveu o prólogo do meu livro O milênio órfão: ensaios para uma nova cultura política. É um intelectual brilhante, com uma formação teórica extraordinária.
O núcleo do Podemos é formado por professores com salário público, e que a universidade mantém firme para quando voltarem. São a nova casta?
Eu me considero um intelectual de retaguarda. Há uma tradição das ciências sociais envolvidas com as lutas sociais. Essa geração da Universidade Complutense de Madri quer contribuir com o bem-estar da sociedade. Além disso, peço aos professores que impulsionem uma renovação democrática a mesma credibilidade que se dá aos economistas que acreditam na bondade da “austeridade”. De modo que privilégio, nenhum