DISCURSO DA SOLENIDADE DE COMPROMISSO DOS NOVOS ADVOGADOS E NOVAS ADVOGADAS DO DIA 25 DE MARÇO DE 2026 ÀS 16 HORAS. ORADORA: JULIA CAROLINE TAQUARY DOS REIS
- Boa tarde a todos. Gostaria de cumprimentar com especial deferência, a mesa diretora que nos honra com sua presença. Estendo meus cumprimentos aos familiares e amigos, que hoje compartilham desta conquista e celebram este momento tão significativo. Dirijo, ainda, uma saudação muito especial aos meus colegas, que hoje dividem comigo a emoção deste instante único: o momento em que um sonho deixa de ser apenas projeto e se torna realidade.
- Meu nome é Júlia Taquary, e é uma grande honra ser a oradora desta solenidade de compromisso dos novos advogados e advogadas. Eu gostaria de começar o discurso fazendo uma pergunta: O que é ser advogado ou advogada? Cada um de nós sabemos, no íntimo de nossos corações, os esforços que fizemos para chegar até este momento.
- Cada um de nós sabemos as esquinas pelas quais passamos, os desertos que atravessamos, para chegar até a tão desejada carteirinha da ordem dos advogados do Brasil. Estudar Direito para se tornar advogado é, antes de tudo, um exercício de resistência. É aprender a atravessar noites em claro com os olhos cansados, mas a mente acesa iluminando o sonho que você almeja alcançar. É ler páginas e mais páginas até que o juridiquês deixe de ser um desafio e as palavras que antes eram estranhas passem a habitar dentro de você. É ler leis que, à primeira vista, parecem frias, mas que, com o tempo, revelam que por trás de cada artigo existe um porquê, um conflito, uma esperança, uma vivência. É carregar códigos na mochila e, aos poucos, perceber que o verdadeiro peso nunca foi o papel, mas a responsabilidade de compreender o mundo. Porque estudar Direito não é apenas acumular conhecimento, é transformar a forma de ver a realidade. É aprender que o justo nem sempre é óbvio, que o certo exige coragem, e que a verdade, muitas vezes, precisa ser construída. É cair no cansaço e levantar na disciplina. É o esforço de se tornar alguém capaz de sustentar palavras diante do mundo, de defender histórias, de proteger direitos e de carregar, com dignidade, o peso invisível da Justiça. Porque ninguém se torna advogado por sorte. Torna-se por insistência, por coragem, por uma escolha diária de não desistir, torna-se advogado por amor. Tornar-se advogado é, sobretudo, um gesto de amor ao próximo porque é escolher colocar o próprio conhecimento, o próprio tempo, a própria energia a serviço de alguém.
- O que seria, senão amor, o fato de terem renunciado a tantas horas de suas vidas, momentos que poderiam ter sido de descanso, de festa, de leveza, para se dedicarem ao estudo de algo que, muitas vezes, nem sabiam para quem serviria? O que seria, senão amor, passar dias e noites na biblioteca, mergulhados em leis que talvez nunca utilizassem diretamente, mas que poderiam, um dia, ser a única esperança de alguém? Como explicar esse sacrifício pelo desconhecido? Por alguém cujo nome ainda não sabemos, cuja história ainda não nos foi contada, mas cuja dor, um dia, pode chegar até nós? Rui Barbosa disse a profissão de advogado tem uma dignidade quase sacerdotal. E disse a verdade pois, se Deus é justiça como diz no Salmo 145 “Justo é o Senhor em todos os seus caminhos”, não poderia haver então chamado mais terno do que aquele que nos impulsiona a buscá-la. Buscar a Justiça é, de certo modo, buscar o que há de mais elevado, mesmo estando limitados à condição humana.
- Ser advogado é interceder, é defender, é não desistir do outro ainda que o cenário seja adverso. Então não posso discordar de Rui Barbosa, ser advogado é sacerdotal. E ainda complemento com a nossa Constituição Cidadã que em seu artigo 133 chama o advogado de Indispensável. Indispensável, não há palavra mais exigente do que essa. Ser indispensável é estar presente quando mais importa. É agir com ética quando ninguém está olhando. É defender não apenas interesses, mas garantias, direitos e dignidade. Ser advogado é viver na linha tênue entre o conflito e a pacificação, buscando sempre o equilíbrio, mas jamais fugindo da luta quando ela se fizer necessária. Mas ainda que a Constituição chame o advogado de indispensável, o que vem à tona na mente do cidadão é chamar o advogado de Doutor. Não é sem motivo que, desde os tempos de Dom Pedro I, conferiu-se aos advogados o tratamento de “doutor”. Não como um título de vaidade, mas como o reconhecimento de um percurso árduo, de um compromisso profundo com o saber, com o estudo e com a responsabilidade de pensar o Direito.
- Em pesquisa realizada pelo advogado Júlio Cardela, em 1986, registrou-se que os advogados já eram chamados de “doutores” muito antes de o termo se popularizar para designar médicos. E, em verdade, não poderia ser diferente. Se à medicina cabe a nobre missão de preservar a vida, é ao Direito que se confia algo igualmente essencial: o viver. porque não basta respirar. É preciso ter uma vida digna e é o Direito que atua para que possamos viver com liberdade, com igualdade e com fraternidade: valores que sustentam não apenas a ordem jurídica, mas a própria dignidade humana. Por isso, advogados não são meros profissionais da lei. São doutores por excelência, são sacerdotes por amor e são indispensáveis por direito. E hoje passaremos a ser reconhecidos como tais, hoje somos advogados. Hoje, todo o esforço percorrido encontra seu reconhecimento. Hoje recebemos o símbolo concreto que nos legitima a exercer a advocacia e a buscar a Justiça. Recebemos, hoje, a carteirinha da OAB. E, com ela, somos legitimados por uma instituição que representa muito mais do que um órgão de classe. A Ordem dos Advogados do Brasil traduz, em sua essência, a coragem de sustentar a Justiça mesmo diante das maiores pressões, e a independência necessária para que possamos atuar com liberdade, firmeza e responsabilidade. Pertencer à OAB é integrar uma história construída por gerações que compreenderam que a advocacia não se exerce de forma isolada. É fazer parte de uma coletividade que se levanta, todos os dias, para garantir que o Direito não permaneça apenas no plano das normas, mas se realize concretamente na vida das pessoas.
- É por isso que este momento é tão significativo. Porque, ao recebermos esta carteirinha, não recebemos apenas uma autorização individual, passamos a fazer parte de uma instituição que carrega, em si, o compromisso permanente com a democracia, com a liberdade e com as condições que tornam possível o exercício digno da nossa profissão. E, ao portar essa carteirinha, levaremos conosco muito mais do que um documento. Levaremos a confiança de quem bate à nossa porta sem saber mais a quem recorrer. A responsabilidade de dar voz a quem já não consegue falar. E o compromisso de honrar tudo aquilo que nos trouxe até aqui de não nos calarmos diante da injustiça e de fazer da advocacia não apenas uma profissão, mas uma forma de existir no mundo.
- O Direito nos foi dado como instrumento, mas é a nossa humanidade que lhe dá sentido. Ou, como bem disse Carlos Ayres Britto, o Direito enquanto meio, o humanismo enquanto fim. Porque como um grande membro da OAB, José Geraldo de Sousa Júnior, explicita na teoria do Direito que ele mesmo desenvolveu, o Direito Achado na Rua, o Direito não é algo positivado, não são as leis secas, o Direito é um meio de promoção de liberdade, de construção de novos sujeitos, um meio de emancipação do ser humano. E agora esse Direito está em nossas mãos. Se antes conhecíamos o Direito pelas páginas, agora passaremos a conhecê-lo pelas pessoas. Se antes lidávamos com teses, agora lidaremos com histórias. Se antes estudávamos os conflitos, agora estaremos dentro deles, buscando, com responsabilidade e coragem, transformá-los em justiça. Então, o que é ser advogado? Ser advogado é atender a um chamado interior que não se cala, um chamado que nos move na direção do justo. É colocar o conhecimento a serviço do outro, é transformar o Direito que aprendemos em Justiça que precisamos realizar. Mas, acima de tudo, ser advogado é compreender que não dominamos essa profissão, somos por ela conduzidos. Somos chamados ao dever de defender, ao compromisso com a verdade, à missão diária de sustentar a Justiça. É um chamado que nasce no mais íntimo, que exige mais do que técnica, exige consciência. Porque ser advogado não se esgota no que se aprende, mas se revela naquilo que se vive. E, ainda que o caminho não seja simples, há uma certeza que permanece, firme e silenciosa: não há outro caminho que faça mais sentido. Ser advogado é algo que se constrói, dia após dia, nas escolhas que fazemos, nas atitudes que assumimos, nas vidas que tocamos, nos instantes em que fazemos a Justiça acontecer. Porque ser advogado é continuar avançando quando o caminho se torna difícil, é sustentar o justo mesmo quando ele parece distante, é permanecer firme quando o certo exige coragem.
- Que este dia seja, portanto, o nosso marco inaugural. Que esta carteirinha não represente o término de uma jornada, mas o início mais digno daquilo que somos capazes de realizar. Que avancemos com coragem. Que avancemos com honra. Que avancemos com Justiça. Que nunca nos falte a força para defender, a sensibilidade para compreender, e a coragem para fazer o que é certo. Porque, a partir de hoje, não somos apenas aqueles que conhecem o Direito, somos aqueles que o vivem. Avante novos advogados e novas advogadas, há um mundo melhor à espera de ser construído pelas nossas mãos. Obrigada.
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