sábado, 13 de junho de 2026

 

           Verdade, gênero e Direito em O Último Duelo

 

                        Ana Letícia Tavares de Oliveira

Graduanda em Direito, Faculdade de Direito da UnB, disciplina Pesquisa Jurídica

 

O ÚLTIMO DUELO. Direção: Ridley Scott. Roteiro: Ben Affleck, Matt Damon e Nicole Holofcener. Estados Unidos: 20th Century Studios, 2021. 1 filme (152 min), sonoro, colorido.

Lançado em 2021, o filme “O Último Duelo”, dirigido por Ridley Scott e roteirizado por Ben Affleck, Matt Damon e Nicole Holofcener, adapta para o cinema a obra homônima de Eric Jager, publicada em 2004. O livro é fundamentado em registros históricos coletados pelo autor após a leitura de um relato medieval sobre a lendária disputa entre os cavaleiros Jean de Carrouges e Jacques Le Gris, fato que o levou a escrever a obra em questão. A história é baseada em acontecimentos reais, contudo, como alerta o autor na nota que precede o prólogo, as fontes consultadas por vezes se contradizem. Quando isso ocorre, Eric Jager recorre à imaginação para, em suas palavras, “preencher alguns hiatos” (JAGER, 2004).

O filme retrata a história do último duelo judicial por combate sancionado pelo Parlamento de Paris, ocorrido no ano de 1386. A narrativa é dividida em três partes: “A verdade segundo Jean de Carrouges”, “A verdade segundo Jacques Le Gris” e “A verdade segundo Marguerite de Carrouges”. Sua estrutura segue o modelo do filme japonês “Rashomon”, dirigido por Akira Kurosawa, ao apresentar os acontecimentos por meio de diferentes perspectivas dos personagens, conforme afirmaram os roteiristas Matt Damon e Nicole Holofcener em entrevista ao canal “Collider Interviews” (DAMON; HOLOFCENER, 2021, 28s). Esse tipo de narrativa costuma estar associado à ideia de que a verdade é subjetiva, uma vez que demonstra como um mesmo acontecimento pode ser interpretado e lembrado de maneiras distintas pelas pessoas que o vivenciaram. Nesse caso, entretanto, os roteiristas optaram por seguir um caminho diferente, ainda que inspirados por essa estrutura, o que transforma significativamente a forma como o espectador compreende o julgamento retratado no filme.

Na primeira parte do filme, intitulada “A verdade segundo Jean de Carrouges”, é apresentada a trajetória do cavaleiro Jean de Carrouges, que lutou na Guerra dos Cem Anos ao lado de seu amigo Jacques Le Gris, um escudeiro instruído e dotado de grande influência na corte do conde Pierre d'Alençon. Com o passar dos anos, Le Gris passa a receber favores, terras e prestígio graças às suas relações na corte, enquanto Carrouges acumula frustrações decorrentes de derrotas políticas e dificuldades financeiras. Nesse contexto, Carrouges casa-se com Marguerite de Thibouville, uma jovem nobre, rica e inteligente que, conforme os costumes da época, levaria terras como parte de seu dote. Contudo, devido à influência exercida por Le Gris junto à corte, o feudo que Carrouges esperava obter por meio do casamento é concedido ao antigo amigo, intensificando a rivalidade entre os dois homens.

A partir desse momento, inicia-se uma grande rivalidade entre os dois cavaleiros. Nesse contexto de inimizade, Le Gris passa a demonstrar interesse por Marguerite, esposa de Carrouges. Aproveitando-se da ausência do marido, que se encontrava em Paris, ele dirige-se à residência do casal e estupra Marguerite. A cena é retratada de maneira violenta e angustiante, evidenciando uma realidade vivenciada por muitas mulheres da época e que, infelizmente, ainda encontra paralelos na sociedade contemporânea. Após o ocorrido, Marguerite relata o crime ao marido em busca de justiça pela violência sofrida. Carrouges, retratado como um marido atencioso e compreensivo, acolhe o relato da esposa com aparente solidariedade e demonstra disposição para responsabilizar o agressor. Em uma sociedade na qual as mulheres possuíam pouca autonomia jurídica, cabia ao marido conduzir a acusação, uma vez que o estupro era frequentemente compreendido não como uma violência contra a mulher, mas como uma ofensa à honra e à autoridade de seu guardião masculino.

Na segunda parte do filme, intitulada “A verdade segundo Jacques Le Gris”, os acontecimentos são recontados desde o início da narrativa até o julgamento, agora sob a perspectiva do escudeiro. Embora os fatos centrais permaneçam os mesmos, pequenas diferenças na forma como são apresentados evidenciam como indivíduos distintos podem interpretar uma mesma situação de maneiras completamente divergentes. Na visão de Le Gris, Marguerite demonstrava interesse por ele, de modo que a relação entre ambos teria sido consensual, ainda que socialmente condenável por configurar adultério. Mesmo após a acusação de estupro, o escudeiro mantém sua versão dos fatos e nega ter cometido qualquer crime. O aspecto mais perturbador dessa narrativa é que Le Gris não utiliza esse argumento apenas como estratégia de defesa perante a justiça, mas parece genuinamente acreditar que suas ações foram legítimas.

Na terceira parte do filme, o modelo narrativo associado a “Rashomon”, no qual a verdade se dissolve em perspectivas conflitantes, é parcialmente rompido. O capítulo recebe o título de “A verdade segundo Marguerite de Carrouges”, contudo, ao ser apresentado na tela, a palavra “verdade” é destacada de forma enfática, indicando a intenção dos roteiristas de atribuir maior credibilidade à narrativa de Marguerite. Ao estabelecer a perspectiva feminina como a versão verdadeira dos acontecimentos, o diretor e os roteiristas demonstram grande brilhantismo ao romper com a lógica tradicional que inspirou a obra, sugerindo que a verdade pode, de fato, ser encontrada e que ela corresponde ao relato da vítima.

É também a partir desse momento que a imagem de Jean de Carrouges, criada ao longo do primeiro capítulo desde sua própria perspectiva, passa a ser desconstruída. O homem honrado, compreensivo e amoroso dá lugar a uma figura marcada pelo egoísmo, pelo orgulho e pelo desejo de controle. Na cena em que Marguerite relata a violência sofrida, Carrouges demonstra desconfiança em relação ao testemunho da esposa e decide levar a acusação adiante não apenas em busca de justiça, mas também pela oportunidade de restaurar sua honra e fortalecer sua posição social. Dessa forma, o filme evidencia como, em uma sociedade patriarcal, até mesmo a busca por justiça é subordinada aos interesses e ambições dos homens.

O filme é extremamente impactante, pois retrata de forma crua as dificuldades enfrentadas pelas mulheres na Idade Média. O sofrimento de Marguerite não se restringe ao terrível estupro que sofreu, mas também à infelicidade de sua vida conjugal e à impossibilidade de buscar justiça por conta própria. Marguerite não possuía autonomia para recorrer diretamente às instituições de justiça, uma vez que as mulheres eram severamente restringidas ao âmbito doméstico, sendo-lhes atribuídas principalmente as funções de garantir a continuidade da linhagem familiar e cuidar do lar. Em Feminismo e Política, os cientistas políticos Flávia Biroli e Luis Felipe Miguel discutem como a exclusão das mulheres da esfera pública constitui um dos mecanismos de perpetuação das desigualdades e violências vivenciadas no âmbito privado, ao colocarem que:

“a preservação da esfera privada em relação à intervenção do Estado e mesmo às normas e aos valores majoritários na esfera pública significou, em larga medida, a preservação de relações de autoridade que limitaram a autonomia das mulheres.” (BIROLI e MIGUEL, 2014, p. 32)

O aspecto mais significativo da trajetória de Marguerite é o fato de que, mesmo correndo o risco de ser ridicularizada, desacreditada e punida, ela decide denunciar a violência sofrida. Em entrevista à revista “Los Angeles Times”, o roteirista e ator Matt Damon afirmou que a escolha de destacar a perspectiva de Marguerite foi fundamental, especialmente por se tratar de uma época em que se esperava que as mulheres permanecessem em silêncio (ZEMLER, 2021). O filme é impactante não apenas por evidenciar como as mulheres foram historicamente excluídas dos espaços públicos, conforme discutem Biroli e Miguel, mas também por demonstrar sua capacidade de resistência diante das injustiças e sua disposição para romper o silêncio que lhes era imposto.

Outro aspecto que torna a obra tão bem construída é sua representação do Direito antes da modernidade. Atualmente, o Direito está intrinsecamente relacionado às leis escritas e formalmente reconhecidas pelo Estado. Entretanto, o filme transporta o espectador para a Idade Média, período em que a maior parte da população não sabia ler nem escrever e no qual não existiam constituições, como nos dias atuais. Nesse contexto, o Direito se apresenta de forma bastante distinta da contemporânea. Diante da acusação de estupro contra Le Gris, surge uma questão fundamental: como determinar a verdade sem os instrumentos jurídicos modernos? A resposta encontrada pela sociedade medieval é o duelo judicial. Le Gris e Carrouges submetem-se a um combate no qual se acreditava que Deus revelaria a verdade por meio da vitória de um dos cavaleiros. A derrota de Le Gris seria interpretada como uma demonstração divina da veracidade da acusação feita por Marguerite. Por outro lado, se saísse vencedor, ela seria considerada mentirosa e condenada à morte na fogueira.

Embora o filme mostre a existência de instituições políticas, como o Parlamento de Paris, bem como a influência dos senhores feudais e da monarquia no desenrolar do julgamento, a Igreja Católica e a palavra de Deus por ela transmitida são constantemente retratadas como elementos centrais da ordem jurídica medieval. O tribunal não trabalha com provas, perícias e argumentação jurídica nos moldes atuais, mas fundamenta suas decisões em concepções religiosas. A lógica do duelo judicial baseava-se na crença de que Deus não permitiria a vitória de um mentiroso, uma vez que a justiça divina prevaleceria sobre os interesses humanos. Argumentos dessa natureza seriam considerados incompatíveis com os critérios de racionalidade jurídica adotados pelos sistemas contemporâneos. Durante o julgamento, quando se descobre que Marguerite está grávida, é levantada a hipótese de que a gravidez pressuporia algum grau de consentimento da mulher, tornando impossível a concepção em decorrência de um estupro. Essa é uma das cenas mais chocantes do filme, pois evidencia como crenças religiosas, valores morais e conhecimentos limitados sobre o corpo humano influenciavam a compreensão dos fatos jurídicos. Embora tais concepções pareçam absurdas sob a ótica contemporânea, sua representação na obra permite compreender aspectos importantes da formação histórica do Direito e das transformações que levaram ao surgimento dos sistemas jurídicos modernos.

O filme O Último Duelo é uma obra extremamente impactante e relevadora. Os roteiristas e o diretor foram brilhantes ao utilizarem o modelo narrativo de Rashômon, promovendo adaptações que evidenciam a importância da perspectiva feminina na compreensão dos acontecimentos retratados. A obra demonstra grande profundidade ao abordar as dificuldades enfrentadas pelas mulheres na época, como casamentos abusivos, violência sexual e a impossibilidade de buscar justiça de forma autônoma, além de retratar um sistema jurídico fortemente influenciado pela Igreja Católica. A produção de Ridley Scott mostra-se extremamente relevante para os debates contemporâneos sobre violência de gênero e para a compreensão da construção histórica do Direito. Ao mesmo tempo, consegue envolver o espectador por meio de uma narrativa instigante e de atuações marcantes.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BIROLI, Flávia; MIGUEL, Luis Felipe. Feminismo e política. São Paulo: Boitempo, 2014.

COLLIDER INTERVIEWS. The Last Duel: Matt Damon and Nicole Holofcener on Using the Rashomon Storytelling Device. YouTube, 3 nov. 2021. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=LVfvOB9uLrU. Acesso em: 9 jun. 2026.

JAGER, Eric. O último duelo. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2021.

O ÚLTIMO duelo. Direção: Ridley Scott. Roteiro: Ben Affleck, Matt Damon e Nicole Holofcener. Estados Unidos: 20th Century Studios, 2021. 1 filme (152 min), son., color.

ZEMLER, Emily. Yes, "The Last Duel" is a true story. Here's what's historical fact and fiction. Los Angeles Times, 15 out. 2021. Disponível em: https://www.latimes.com/entertainment-arts/movies/story/2021-10-15/last-duel-history-fact-fiction-affleck-damon. Acesso em: 10 jun. 2026.

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