sábado, 21 de fevereiro de 2026

 

Comportamento eleitoral: o que realmente influencia o voto

 

 

 

É possível conversas informais, o famoso “bate-papo”, influenciar o comportamento eleitoral? Com as eleições se aproximando, o Brasil se prepara para o enfrentamento na defesa de eleições limpas e seguras. E como todo pesquisador sabe, quando se estuda o cenário eleitoral, não se deve confiar em achismos.

 

Por Inês Ulhôa

https://correiodolivrodaunb.wordpress.com/2026/02/20/comportamento-eleitoral-o-que-realmente-influencia-o-voto/

 

Não é incomum encontrarmos interpretações diversas sobre cenários eleitorais, principalmente quando há um quadro polarizado como o que ocorre neste momento no Brasil, associado a um quadro de fakenews, como alertou recentemente a ministra Cármem Lúcia, ao afirmar que a desinformação é o principal desafio para as próximas eleições[1]. Segundo a ministra, a desinformação e as mentiras, sobretudo produzidas por inteligência artificial, contaminam o processo eleitoral, deforma o processo e ilude o eleitor.

 

Neste momento em que percebemos a complexidade do processo histórico do qual fazemos parte, com vozes dissonantes apontando para retrocessos políticos e sociais influenciando votos, o livro “Pares persuasivos: comunicação social e voto na América Latina”, de Andy Baker, Barry Ames e Lúcio Rennó, publicado pela Editora UnB, procura caracterizar o comportamento do eleitor e destaca como cidadãos em suas interações sociais se relacionam com a política e podem ficar propensos a mudar de ideia quanto à escolha de seus candidatos durante campanhas eleitorais.

 

De acordo com os autores, o tema principal do livro possui aspecto importante ao buscar expor conversas informais e influência de pares, afetivos ou não, no comportamento eleitoral latino-americano, pois, segundo Baker, Ames e Rennó, muitos estudiosos têm ignorado essa forma de comunicação, visto que “as conversas informais são difíceis de quantificar e de medir, e as influências dos pares raramente se encaixam no paradigma dominante em torno do comportamento racional e transacional”.

 

Laços sociais e influência do voto

 

Essencialmente, a obra sugere que ser social é uma das coisas mais fundamentalmente humanas; por exemplo, fazer amizades, buscar intimidade, constituir famílias, cuidar de parentes. Daí entender os diversos aspectos da vida e considerar que a pesquisa sobre a política latino-americana deva incorporar o que é verdadeiramente social, como avaliam os autores. Portanto, o comportamento eleitoral, como campo teórico-metodológico, pode explicar como cidadãos se comportam diante da multiplicidade de propostas, como decidem seu voto e até mesmo a mudança em sua preferência inicial. Uma observação do professor José Geraldo de Sousa Junior, em artigo recente[2], talvez ajude a compreender esse processo ao observar que “a democracia pressupõe circulação livre de ideias, avaliações sobre governos, críticas a políticas públicas e juízos sobre lideranças” em reforço ao seu entendimento que o eleitor não pode ser visto como sujeito passivo a ser protegido, “mas como cidadão capaz de formar juízo em meio ao pluralismo de vozes”.

 

A tônica desse comportamento, de acordo com os autores, pode estar na arena dos laços sociais horizontais e na discussão política informal, horizonte esse que “os pesquisadores da política latino-americana têm ignorado amplamente”. Baker, Ames e Rennó entendem que durante uma campanha eleitoral eleitores trocam conversas sobre candidatos e partidos, que acontecem frequentemente entre pares:  cônjuges, irmãos, colegas de trabalho, vizinhos, companheiros de futebol, amigos de longa data etc. Conversas essas entre indivíduos com laços sociais horizontais, “o que significa que não há elite política envolvida”.

 

É verdade, contudo, que indivíduos conectados por laços verticais também ocorrem, a exemplo de conversas entre um eleitor comum e um político ou um representante de partido, porém são casos relativamente raros. Para os autores deste livro, a grande maioria das conversas dos eleitores sobre política não ocorre com políticos ou com funcionários dos partidos. Elas podem acontecer espontaneamente entre indivíduos socialmente conectados.

 

Essa análise decorreu de pesquisa elaborada pelos autores, no Brasil e no México, onde também se incluiu a campanha eleitoral no Brasil, em 2014, com a reeleição da presidenta Dilma Roussef, quando se verificou que os eleitores mais propensos a cruzar as linhas partidárias foram aqueles que discutiram assuntos políticos com pares que discordavam de suas escolhas no meio da campanha. Por outro lado, os eleitores menos propensos a mudar de ideia foram aqueles que discutiram política apenas com pares que concordavam com eles.

 

Conversar, pensar e mudar

 

Às vésperas de um novo período eleitoral no Brasil e com a perspectiva da intensificação de confrontos ideológicos na pauta das eleições é bom destacar o que os autores da pesquisa constataram de que muitos eleitores são relativamente mal informados ou confusos em relação à política e buscam conselho sobre voto em conversas com pessoas que têm mais opinião sobre o assunto do que eles próprios. O voto, nesse contexto, é influenciado por laços sociais.

 

Esse processo de influência social, na opinião de Baker, Ames e Rennó, é o que gera as altas taxas de mudança de votos no Brasil, como a que ocorreu em 2014, verificada pela pesquisa, em que se observou que pelo menos “40% dos eleitores mudaram de ideia para além das linhas partidárias, e relativamente poucos desses voltaram para pré-disposições de antes da campanha”. Nesse mesmo sentido, os autores observam que as campanhas presidenciais latino-americanas geralmente apresentam efeitos de tendências e oscilações momentâneas, suficientes até mesmo para erradicar partidos e candidatos tradicionais. 

 

Ao observar pesquisas que priorizam os vínculos verticais diretos com políticos, partidos e organizações politizadas, os autores destacam que as estruturas organizacionais formais, como partidos, sindicatos, movimentos sociais, igrejas, fóruns etc., são nominadas supostamente por aqueles pesquisadores como a principal fonte de informação política para os eleitores. No entanto, eles destacam que laços verticais com as elites são fontes de informação política relativamente rara e não representativas.

 

Partidos e mídia ou a arte da manipulação

 

O livro aponta ainda que partidos latino-americanos também se engajam em formas não-clientelistas de contato com os cidadãos: “Durante as campanhas, os partidos pedem votos, distribuem panfletos e realizam comícios. No entanto, essas atividades ocorrem tão raramente que são apenas uma fonte menor de informação política para os eleitores. Por isso, raramente, são objetos de pesquisa”. Os autores identificam, assim, que os fluxos verticais, de cima para baixo, com informações políticas com poder de persuasão representam apenas uma pequena parcela das comunicações políticas nas sociedades latino-americanas.

 

Nesse cenário entra a mídia de massa, que demonstra uma influência até maior entre os latino-americanos do que o contato direto com partidos e políticos devido à sua enorme penetração na sociedade, estabelecendo uma relação direta entre representantes e representados. Entretanto, Baker, Ames e Rennó alertam que a mudança de atitude neste aspecto específico não se dá apenas pela exposição da mídia sobre os eleitores, mas, substancialmente, pela conversa que ocorre entre eles a respeito do fato exposto. Os autores reconhecem também que cidadãos menos expostos ao noticiário político são menos propensos a mudar de escolha de voto do que aqueles que são mais expostos.

 

Neste livro – obrigatório para aqueles que se interessam pela complexidade dos cenários políticos em campanhas eleitorais –, análises e informações consistentes oferecem elementos substanciais para a compreensão dos motivos que possam levar cidadãos a serem persuadidos a alterar o voto intermediados por redes de pares em comunicações interpessoais. Nesse ponto, Baker, Ames e Rennó ressaltam que para qualquer análise sobre essa questão é necessário entender os laços sociais horizontais e a discussão política informal relatada por eleitores. Para além disso, os autores defendem a tese de que por trás de todas as estratégias, mensagens e manobras de elite que ocorrem por meios de intermediários verticais, há um mundo de comunicação social e efeitos de pares que os estudiosos da política latino-americana claramente ignoraram. Admite-se, então, o poder da comunicação social, na qual a maioria das conversas sobre política se dão de maneira informal, dentro de redes social horizontais de amigos, familiares e conhecidos.

 

Dentre as condições ou requisitos de entendimento de tal questão, os autores argumentam, a partir de estudos, que um minuto de discussão política, considerada íntima e em termos coloquiais e linguajar próprio, tem maior impacto – na aquisição de conhecimento, na posição da comunidade, nas habilidades cívicas, na tolerância a pontos de vista opostos – do que um minuto de consumo de mídia, apontado como um processo impessoal. A chave que adensa esse ponto de vista está na confirmação de que “amigos e familiares trazem as informações políticas num pacote mais compreensível do que os meios de comunicação de massa”.

 

A prática persuasiva diante da catástrofe

 

Vários rumos podem ser tomados na tentativa de compreender o comportamento eleitoral e como atuam os pares persuasivos, porém os autores desta obra foram capazes de desenvolver um raciocínio que, aos poucos, vai mostrando aos leitores elementos gerais que possibilitam medir redes de laços sociais, além de ampliar a capacidade explicativa do comportamento eleitoral. Baker, Ames e Rennó focalizam, sobretudo, na dinâmica de escolha do voto, que, segundo eles, é causada pela discussão e pelos laços sociais: “durante as campanhas, a discussão com parceiros discordantes tende a induzir mudança de preferência nos eleitores, enquanto a discussão apenas com parceiros concordantes reforça as intenções de voto, causando estabilidade de preferência”.

 

Para o interesse desse trabalho, tão bem elaborado por Baker, Ames e Rennó, o fundamental é a percepção que existe entre as relações tanto verticais quanto horizontais na produção, emissão e recepção de conteúdos para a dinâmica que está se estabelecendo desde já no  processo eleitoral que se aproxima, pois, como se verificou em eleições presidenciais anteriores, estamos propensos a enfrentar, mais uma vez, um fluxo de informações que objetivam distorcer fatos reais, disseminadas pelas redes sociais, como a que foi difundida entre os evangélicos, que se convenceram de que o então candidato Lula em 2022 pretendia implementar uma ditadura ateia comunista que fecharia igrejas e muitas outras de igual conteúdo mentiroso. Um feito a partir de uma mentalidade, um imaginário, formado por vários quesitos em padrões de comportamento que violentam o cotidiano dos cidadãos doravante atos como homofobia, racismo, fundamentalismo religioso, sentimento antipolítica, entre outros.

 

Percebe-se aqui que muitos eleitores “são altamente suscetíveis ao fascínio de curto prazo de uma recompensa clientelista, confusos demais para votar de acordo com seus posicionamentos políticos e morais, facilmente influenciados por apelos carismáticos superficiais transmitidos pela mídia tradicional e vulneráveis à desinformação e às notícias falsas”, afinal, a discussão política pode ser uma faca de dois gumes, “informa, mas não a todos igualmente”, alertam os autores ao emprestar consistência aos novos contornos da prática do voto.

 

[1] https://agenciabrasil.ebc.com.br/radioagencia-nacional/politica/audio/2026-01/carmen-lucia-inteligencia-artificial-sera-desafio-para-eleicoes-2026

 

[2] In https://brasilpopular.com/o-samba-na-avenida-liberdade-de-expressao-cultural-e-risco-eleitoral/

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