Comportamento
eleitoral: o que realmente influencia o voto
É possível conversas informais, o
famoso “bate-papo”, influenciar o comportamento eleitoral? Com as eleições se
aproximando, o Brasil se prepara para o enfrentamento na defesa de eleições
limpas e seguras. E como todo pesquisador sabe, quando se estuda o cenário
eleitoral, não se deve confiar em achismos.
Por Inês Ulhôa
Não é incomum
encontrarmos interpretações diversas sobre cenários eleitorais, principalmente
quando há um quadro polarizado como o que ocorre neste momento no Brasil,
associado a um quadro de fakenews, como alertou recentemente a ministra Cármem
Lúcia, ao afirmar que a desinformação é o principal desafio para as próximas
eleições[1]. Segundo a ministra, a desinformação e as mentiras, sobretudo
produzidas por inteligência artificial, contaminam o processo eleitoral,
deforma o processo e ilude o eleitor.
Neste momento em que
percebemos a complexidade do processo histórico do qual fazemos parte, com
vozes dissonantes apontando para retrocessos políticos e sociais influenciando
votos, o livro “Pares persuasivos: comunicação social e voto na América
Latina”, de Andy Baker, Barry Ames e Lúcio Rennó, publicado pela Editora UnB,
procura caracterizar o comportamento do eleitor e destaca como cidadãos em suas
interações sociais se relacionam com a política e podem ficar propensos a mudar
de ideia quanto à escolha de seus candidatos durante campanhas eleitorais.
De acordo com os
autores, o tema principal do livro possui aspecto importante ao buscar expor
conversas informais e influência de pares, afetivos ou não, no comportamento
eleitoral latino-americano, pois, segundo Baker, Ames e Rennó, muitos
estudiosos têm ignorado essa forma de comunicação, visto que “as conversas
informais são difíceis de quantificar e de medir, e as influências dos pares
raramente se encaixam no paradigma dominante em torno do comportamento racional
e transacional”.
Laços sociais e
influência do voto
Essencialmente, a obra
sugere que ser social é uma das coisas mais fundamentalmente humanas; por
exemplo, fazer amizades, buscar intimidade, constituir famílias, cuidar de
parentes. Daí entender os diversos aspectos da vida e considerar que a pesquisa
sobre a política latino-americana deva incorporar o que é verdadeiramente
social, como avaliam os autores. Portanto, o comportamento eleitoral, como
campo teórico-metodológico, pode explicar como cidadãos se comportam diante da
multiplicidade de propostas, como decidem seu voto e até mesmo a mudança em sua
preferência inicial. Uma observação do professor José Geraldo de Sousa Junior,
em artigo recente[2], talvez ajude a compreender esse processo ao observar que
“a democracia pressupõe circulação livre de ideias, avaliações sobre governos,
críticas a políticas públicas e juízos sobre lideranças” em reforço ao seu
entendimento que o eleitor não pode ser visto como sujeito passivo a ser
protegido, “mas como cidadão capaz de formar juízo em meio ao pluralismo de
vozes”.
A tônica desse
comportamento, de acordo com os autores, pode estar na arena dos laços sociais
horizontais e na discussão política informal, horizonte esse que “os
pesquisadores da política latino-americana têm ignorado amplamente”. Baker,
Ames e Rennó entendem que durante uma campanha eleitoral eleitores trocam
conversas sobre candidatos e partidos, que acontecem frequentemente entre
pares: cônjuges, irmãos, colegas de
trabalho, vizinhos, companheiros de futebol, amigos de longa data etc.
Conversas essas entre indivíduos com laços sociais horizontais, “o que
significa que não há elite política envolvida”.
É verdade, contudo, que
indivíduos conectados por laços verticais também ocorrem, a exemplo de
conversas entre um eleitor comum e um político ou um representante de partido,
porém são casos relativamente raros. Para os autores deste livro, a grande
maioria das conversas dos eleitores sobre política não ocorre com políticos ou
com funcionários dos partidos. Elas podem acontecer espontaneamente entre
indivíduos socialmente conectados.
Essa análise decorreu
de pesquisa elaborada pelos autores, no Brasil e no México, onde também se
incluiu a campanha eleitoral no Brasil, em 2014, com a reeleição da presidenta
Dilma Roussef, quando se verificou que os eleitores mais propensos a cruzar as
linhas partidárias foram aqueles que discutiram assuntos políticos com pares
que discordavam de suas escolhas no meio da campanha. Por outro lado, os
eleitores menos propensos a mudar de ideia foram aqueles que discutiram
política apenas com pares que concordavam com eles.
Conversar, pensar e
mudar
Às vésperas de um novo
período eleitoral no Brasil e com a perspectiva da intensificação de confrontos
ideológicos na pauta das eleições é bom destacar o que os autores da pesquisa
constataram de que muitos eleitores são relativamente mal informados ou
confusos em relação à política e buscam conselho sobre voto em conversas com
pessoas que têm mais opinião sobre o assunto do que eles próprios. O voto,
nesse contexto, é influenciado por laços sociais.
Esse processo de
influência social, na opinião de Baker, Ames e Rennó, é o que gera as altas
taxas de mudança de votos no Brasil, como a que ocorreu em 2014, verificada pela
pesquisa, em que se observou que pelo menos “40% dos eleitores mudaram de ideia
para além das linhas partidárias, e relativamente poucos desses voltaram para
pré-disposições de antes da campanha”. Nesse mesmo sentido, os autores observam
que as campanhas presidenciais latino-americanas geralmente apresentam efeitos
de tendências e oscilações momentâneas, suficientes até mesmo para erradicar
partidos e candidatos tradicionais.
Ao observar pesquisas
que priorizam os vínculos verticais diretos com políticos, partidos e
organizações politizadas, os autores destacam que as estruturas organizacionais
formais, como partidos, sindicatos, movimentos sociais, igrejas, fóruns etc.,
são nominadas supostamente por aqueles pesquisadores como a principal fonte de
informação política para os eleitores. No entanto, eles destacam que laços
verticais com as elites são fontes de informação política relativamente rara e
não representativas.
Partidos e mídia ou a
arte da manipulação
O livro aponta ainda
que partidos latino-americanos também se engajam em formas não-clientelistas de
contato com os cidadãos: “Durante as campanhas, os partidos pedem votos,
distribuem panfletos e realizam comícios. No entanto, essas atividades ocorrem
tão raramente que são apenas uma fonte menor de informação política para os
eleitores. Por isso, raramente, são objetos de pesquisa”. Os autores
identificam, assim, que os fluxos verticais, de cima para baixo, com
informações políticas com poder de persuasão representam apenas uma pequena
parcela das comunicações políticas nas sociedades latino-americanas.
Nesse cenário entra a
mídia de massa, que demonstra uma influência até maior entre os
latino-americanos do que o contato direto com partidos e políticos devido à sua
enorme penetração na sociedade, estabelecendo uma relação direta entre
representantes e representados. Entretanto, Baker, Ames e Rennó alertam que a
mudança de atitude neste aspecto específico não se dá apenas pela exposição da
mídia sobre os eleitores, mas, substancialmente, pela conversa que ocorre entre
eles a respeito do fato exposto. Os autores reconhecem também que cidadãos
menos expostos ao noticiário político são menos propensos a mudar de escolha de
voto do que aqueles que são mais expostos.
Neste livro –
obrigatório para aqueles que se interessam pela complexidade dos cenários
políticos em campanhas eleitorais –, análises e informações consistentes
oferecem elementos substanciais para a compreensão dos motivos que possam levar
cidadãos a serem persuadidos a alterar o voto intermediados por redes de pares
em comunicações interpessoais. Nesse ponto, Baker, Ames e Rennó ressaltam que
para qualquer análise sobre essa questão é necessário entender os laços sociais
horizontais e a discussão política informal relatada por eleitores. Para além
disso, os autores defendem a tese de que por trás de todas as estratégias,
mensagens e manobras de elite que ocorrem por meios de intermediários
verticais, há um mundo de comunicação social e efeitos de pares que os
estudiosos da política latino-americana claramente ignoraram. Admite-se, então,
o poder da comunicação social, na qual a maioria das conversas sobre política
se dão de maneira informal, dentro de redes social horizontais de amigos,
familiares e conhecidos.
Dentre as condições ou
requisitos de entendimento de tal questão, os autores argumentam, a partir de
estudos, que um minuto de discussão política, considerada íntima e em termos
coloquiais e linguajar próprio, tem maior impacto – na aquisição de
conhecimento, na posição da comunidade, nas habilidades cívicas, na tolerância
a pontos de vista opostos – do que um minuto de consumo de mídia, apontado como
um processo impessoal. A chave que adensa esse ponto de vista está na
confirmação de que “amigos e familiares trazem as informações políticas num
pacote mais compreensível do que os meios de comunicação de massa”.
A prática persuasiva
diante da catástrofe
Vários rumos podem ser
tomados na tentativa de compreender o comportamento eleitoral e como atuam os
pares persuasivos, porém os autores desta obra foram capazes de desenvolver um
raciocínio que, aos poucos, vai mostrando aos leitores elementos gerais que
possibilitam medir redes de laços sociais, além de ampliar a capacidade
explicativa do comportamento eleitoral. Baker, Ames e Rennó focalizam,
sobretudo, na dinâmica de escolha do voto, que, segundo eles, é causada pela
discussão e pelos laços sociais: “durante as campanhas, a discussão com
parceiros discordantes tende a induzir mudança de preferência nos eleitores,
enquanto a discussão apenas com parceiros concordantes reforça as intenções de voto,
causando estabilidade de preferência”.
Para o interesse desse
trabalho, tão bem elaborado por Baker, Ames e Rennó, o fundamental é a
percepção que existe entre as relações tanto verticais quanto horizontais na
produção, emissão e recepção de conteúdos para a dinâmica que está se
estabelecendo desde já no processo
eleitoral que se aproxima, pois, como se verificou em eleições presidenciais
anteriores, estamos propensos a enfrentar, mais uma vez, um fluxo de informações
que objetivam distorcer fatos reais, disseminadas pelas redes sociais, como a
que foi difundida entre os evangélicos, que se convenceram de que o então
candidato Lula em 2022 pretendia implementar uma ditadura ateia comunista que
fecharia igrejas e muitas outras de igual conteúdo mentiroso. Um feito a partir
de uma mentalidade, um imaginário, formado por vários quesitos em padrões de
comportamento que violentam o cotidiano dos cidadãos doravante atos como
homofobia, racismo, fundamentalismo religioso, sentimento antipolítica, entre
outros.
Percebe-se aqui que
muitos eleitores “são altamente suscetíveis ao fascínio de curto prazo de uma
recompensa clientelista, confusos demais para votar de acordo com seus
posicionamentos políticos e morais, facilmente influenciados por apelos
carismáticos superficiais transmitidos pela mídia tradicional e vulneráveis à
desinformação e às notícias falsas”, afinal, a discussão política pode ser uma
faca de dois gumes, “informa, mas não a todos igualmente”, alertam os autores
ao emprestar consistência aos novos contornos da prática do voto.
[1]
https://agenciabrasil.ebc.com.br/radioagencia-nacional/politica/audio/2026-01/carmen-lucia-inteligencia-artificial-sera-desafio-para-eleicoes-2026
[2] In
https://brasilpopular.com/o-samba-na-avenida-liberdade-de-expressao-cultural-e-risco-eleitoral/
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