quarta-feira, 21 de janeiro de 2026

 

Peregrinação e Guerra: anotações de um diplomata na Terra Santa

Lido para Você, por José Geraldo de Sousa Junior, articulista do Jornal Estado de Direito

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Peregrinação e Guerra: anotações de um diplomata na Terra Santa, de Alessandro Candeas. Avaré/São Paulo: Editora Contracorrente, 2025, 364 p.

 

                  

 O livro reúne os apontamentos do diplomata que serviu como embaixador do Brasil na Palestina de 2020 a 2024, período em que acompanhou, entre outros, o início da atual guerra em curso na Faixa de Gaza e no qual desempenhou um papel central na repatriação dos mais de cem brasileiros que estavam no território no momento da eclosão do conflito. Além de reflexões pessoais, o volume reproduz trechos de telegramas e de relatórios enviados ao Itamaraty e de diálogos com pessoas próximas, além de autoridades e intelectuais.

Os relatos deste livro servem justamente para que não haja ‘nunca mais’ algo semelhante ao horror do Holocausto, para que se combata o antissemitismo, e para que a violência da ocupação e a supremacia étnica não oprimam o nobre e digno povo palestino”. – diz Alessandro Candeas, na mensagem da Editora Contracorrente ao anunciar o lançamento do livro “Peregrinação e Guerra: anotações de um diplomata na Terra Santa”. O autor reúne no livro apontamentos de sua missão como embaixador do Brasil na Palestina, de 2020 a 2024.

Nesse período, Candeas acompanhou o processo fracassado de paz, o retorno de traumas da Shoah (Holocausto) e a nova onda de antissemitismo no mundo, as violações de direitos humanos e a incapacidade internacional em lidar com a questão israelo-palestina. O livro se posiciona ao lado das vítimas inocentes e vulneráveis, oferecendo uma reflexão profunda sobre um território marcado pela dor, pela fé e por feridas ainda abertas.

O enquadramento narrativo se sustenta ao entendimento de que “israelenses e palestinos são nações de almas feridas e inflamadas. Tal como uma pele machucada, qualquer atrito provoca grande dor e irritação exacerbada. Todos parecem entrincheirados em suas dores, medos e ódios, e as trincheiras se transformam em cavernas de Platão. Cavernas emocionais e cognitivas que impedem ver a realidade externa mais ampla. Nessa complexa configuração de mentalidades e emoções, é quase sempre impossível o diálogo racional”.

Alessandro Candeas, primeiro colocado no concurso de ingresso à diplomacia, é atualmente Cônsul do Brasil em Lisboa, foi Embaixador na Palestina de 2020 a 2024. É Doutor em Socioeconomia do Desenvolvimento pela Escola de Altos Estudos em Ciências Sociais de Paris. Atuou como chefe de Gabinete do Ministério da Defesa e da Secretaria de Assuntos Estratégicos da Presidência da República, além de assessor internacional do MEC, e serviu nas embaixadas em Buenos Aires e em Bogotá e na delegação do Brasil na UNESCO, em Paris.  É autor de livros e artigos sobre trópico, cultura e desenvolvimento, inteligência artificial, defesa e relações Brasil-Argentina.

Segue o Índice do livro:

APRESENTAÇÃO

PARTE I – ARQUEOLOGIA IDEOLÓGICA DE UM CONFLITO MILENAR

PARTE II – EXPERIÊNCIA DIPLOMÁTICA NA TERRA SANTA (2020-2023)

PARTE III – A GUERRA DE GAZA: RESGATE DOS BRASILEIROS E ABISMO HUMANITÁRIO

PARTE IV – REFLEXÕES SOBRE HUMANIDADE E ESPIRITUALIDADE

UMA PALAVRA FINAL

GLOSSÁRIO

BIBLIOGRAFIA

Como se depreende do índice, o livro está organizado em partes que abrangem o contexto histórico e ideológico do conflito israelo-árabe-palestino, tendo como fio condutor as experiências diplomáticas do Autor no terreno, incluindo cidades como Jerusalém, Ramallah, Gaza. Há relatos da própria guerra em Gaza se podemos dar essa qualificação ao conflito, e de ações como o resgate de brasileiros durante os combates que explodiram em 2023. Contudo, numa narrativa orientada por reflexões pessoais sobre humanidade, fé e espiritualidade, muito influenciadas pelo contexto multicultural e religioso da região.

Balizo minha apresentação do livro indo a sua página 268. Não se trata de um destaque intencional que eu proponha como um recorte relevante da obra. É que, presente no lançamento do livro em Brasília, numa sessão a que acudi não só por interesse cultural mas por confraternização com amigos diletos de longuíssima data – Alessandro e sua esposa Ana Paula, brilhante pesquisadora do campo sistema e acesso à justiça, do Conselho Nacional de Justiça – pude testemunhar o momento em que o próprio Autor apontava a uma sua colega diplomata, a passagem ali anotada e que, para mim, com efeito, sintetiza a obra: “Termino esta seção com um relato que dá a medida exata da desumanização da guerra de Gaza. Após o ataque de 10 de agosto a um complexo de escola e mesquita durante as orações da manhã, quando morreram 93 pessoas, um artigo de imprensa chamou a atenção. Seu título: ‘The Fajr massacre: Every 70 kg bag of human remais is considered a martyr’. Segundo relato, diante da impossibilidade de identificar as vítimas individualmente, visto que estavam reunidas (inclusive famílias) em espaço exíguo quando foram exterminadas, equipes de resgate e médicos coletaram fragmentos de corpos em sacos plásticos de forma indiferenciada, e entregaram a cada família enlutada 70 quilos de partes para o sepultamento dos ‘mártires’. Um pai que não conseguiu encontrar seu filho recebeu de um doutor uma sacola plástica de 18 kg, com o mesmo perfil ‘genérico’ das outras, e a recomendação: ‘Aqui está seu filho; vá enterrá-lo’”.

Não é fácil tratar desses temas, quase sempre entrelaçados no que aqui o Autor refere aos traumas que se nublam muitas vezes nas ondas de antissemitismo (eu próprio cheguei a ser acusado de me expressar com esse posicionamento só porque não me escondi ao debate que o tema convoca), quando aceitei discutir esse assunto (Hoje o Instituto Humanitas Unisinos – IHU apresenta o novo episódio de seu podcast, o IHU Cast, com a palestra de Luiz Cláudio Cunha e José Geraldo de Sousa Júnior, intitulada Israel e o genocídio em Gaza: https://ihu.unisinos.br/categorias/638395-ihu-cast-israel-e-o-genocidio-em-gazahttps://www.ihu.unisinos.br/categorias/638406-a-emergencia-de-recompor-uma-humanidade-que-se-dilacerou-destaques-da-semana-do-ihu),  ou quando, até mobilizado por uma mensagem que me enviara o Embaixador Alessandro Candeas, me vi horrorizado com o que se apresentava já como um cenário de carnificina (https://brasilpopular.com/gaza-parar-a-carnificina-e-restaurar-a-forca-do-direito-internacional/).

Nesse artigo de opinião, acabei por me posicionar afirmando que “o que urge é ‘restaurar a humanidade incondicional em Gaza’. Essa é afirmação de um médico sem fronteiras (https://www.msf.org/unconditional-humanity-needs-be-restored-gaza). O que assistimos aqui, diz ele, em matéria que me enviou o querido amigo Alessandro Candeas, o incansável e presente diplomata brasileiro, embaixador do Brasil na Palestina: é um ‘bombardeamento indiscriminado [que] tem de acabar. O nível flagrante de punição coletiva que está atualmente a ser aplicado ao povo de Gaza tem de acabar’. É preciso ‘parar a carnificina’. Resgatar o humano que se perde nesse drama. E restaurar a mediação dos verdadeiramente fortes, que confiam e aplicam a força cogente (Hannah Arendt) do direito internacional e dos direitos humanos”.

Notável, por tudo isso, nos apontamentos circunstanciados do Embaixador Candeas, é a singularidade que imprime às suas anotações, abrindo na obra um capítulo sui generis, que lhe remarca: Reflexões sobre Humanidade e Espiritualidade. Conforme esclarece o Autor, “ninguém vive em Jerusalém ‘impunimente’, sem refletir sobre História, espiritualidade e os dramas da humanidade. Não sou exceção. Esta seção contém apontamentos (também desconexos) sobre estudos e reflexões sobre a Terra Santa, Jerusalém e a tragédia da condição humana que aqui se manifesta de forma tão intensa. Viver aqui é uma experiência transformadora. Como disse na apresentação, eu acreditava que iria me transformar em alguém mais espiritual, mas o que tive foi uma experiência humanizante. Não será o humanismo a verdadeira espiritualidade?”.

A abordagem é tanto política e histórica quanto pessoal e reflexiva, misturando relato de vivência profissional com análise das tensões e desafios da Terra Santa. O Autor procura oferecer um olhar humanitário, crítico tanto sobre a violência e violações de direitos humanos quanto sobre as limitações e impasses da diplomacia internacional nesse conflito prolongado.

Se bem não chegue a ser um relato neutro no sentido técnico-analítico — o livro traz opiniões e posicionamentos claros, por exemplo contra o antissemitismo e a favor da dignidade de todos os povos afetados, o livro tem a vivacidade da vivência direta.  Com efeito, poucos livros brasileiros contam experiências in loco de um diplomata brasileiro nessa região durante um período tão conturbado. Essa vivência permite dispor de informações exclusivas, em razão do ofício do Autor, assim, relatos de situações específicas, como o resgate de brasileiros e episódios confrontantes com forças locais.

Como livro Peregrinação & Guerra é uma obra que combina memória diplomática, análise histórica e reflexão pessoal, mas não é uma obra acadêmica pura nem um estudo completamente imparcial — mas uma clara posição do Autor frente às questões humanitárias e políticas.

E, todavia, uma fonte para arrimar novos posicionamentos, incluindo aqueles que se manifestam em campo estritamente acadêmicos. Em RCMOS–RevistaCientíficaMultidisciplinarOSaber. ISSN:2675-9128.SãoPaulo-SP, Soberania Popular em Regimes Autoritários: Fundamentos Filosóficos e Jurídicos e os Limites da  Intervenção  Internacional -uma  Análise  do  Caso  EUA -Venezuela  sob  o  Prisma  dos Precedentes que elaborei em co-autoria com a professora Laura Lucia da Silva Amorim, de Direito Internacional na UNIPIO -Centro Universitário Pio Décimo, e com o pesquisador Pedro Henrique Vila Nova Figueredo (https://submissoesrevistarcmos.com.br/rcmos/article/view/1928), ler o livro de Alessandro Candeas foi fundamental, muito particularmente para o desenvolvimento do ítem 7, do texto, A Soberania e a Deriva do Direito Internacional em Face das Emergências dos Novos Tempos, no qual o livro é expressamente citado.

Valho-me da dedicatória manuscrita que o Autor, querido amigo, subscreveu ao me entregar o livro no evento de lançamento: “Este livro é um relato de uma missão diplomática na qual buscamos aplicar os direitos humanos e humanitários, de forma concreta, e na contracorrente do poder bruto”.

 

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