América invertida: “Nosso
Norte é o Sul”. Joaquín Torres García, Notas sobre uma Exposição
ISABELA MARQUES RESENDE DIAS,
granduanda do Curso de Direito da UnB, disciplina Pesquisa Jurídica (1º/2026)
Joaquín Torres García (1874-1949)
foi um artista uruguaio que começou sua carreira com desenhos e pinturas,
principalmente de natureza-morta, que busca retratar objetos inanimados. Logo
após a Primeira Guerra Mundial, em um momento de crise profissional, ele dedicou-se
à criação de brinquedos desmontáveis de madeira, o que permitia a realização de
diversos arranjos com as mesmas peças. Tais criações dialogavam com suas
pinturas e se transformavam (eram adaptadas de acordo com as influências
culturais) a cada cidade que o artista passava, como Barcelona, Paris e Nova
York. Nesse mesmo período, a Europa presenciava a eclosão dos movimentos de
vanguarda, que surgiram para romper com os padrões clássicos e tradicionais da
arte e propor formas de expressão mais alinhadas à modernidade.
Diante desse momento, Torres
García construiu uma relação de aproximação e distanciamento estratégicos em
relação às vanguardas. Isso porque o artista visava interligar o passado, o
presente e a eternidade, ou seja, almejava capturar ideais universais da Antiguidade
‒ sem recorrer ao naturalismo, pois acreditava que a verdadeira expressão
artística transcende aquilo que é inteligível, por isso é necessário recorrer a
uma visão espiritual para compreender a realidade em sua totalidade. Os
movimentos vanguardistas que ele buscou relacionar-se foram o simbolismo, o
cubismo, o muralismo e movimentos abstratos, com destaque para o neoplasticismo.
Contudo, Torres García alega que, apesar de os modernos terem encontrado “as
bases e fundamentos da verdadeira arte”, a eles carecia a humanidade, pois eles
não são capazes de “construir uma catedral” para conectar o mundo material com
o espiritual.
O artista percebeu o viés
passageiro que a modernidade estava inclinada a seguir e decidiu criar a teoria
artística do Universalismo Construtivo, que une o passado pré-colombiano (arte
produzida pelos povos nativos das Américas, como Maias, Astecas e Incas), as
vanguardas e os símbolos primitivos, com o objetivo de tornar a arte do
presente intemporal‒ mesmo com o passar dos anos, ela mantém sua importância e
conectividade com o momento vigente, transcendendo o tempo ‒, o que torna o atual,
eterno.
A partir do pensamento de
querer romper com o momento vigente, Torres García desenvolveu sua obra mais
famosa, o mapa da América invertida, produzida em 1943, que traz consigo a
mensagem: “Nosso Norte é o Sul”. Ao inverter o mapa, trocar o Norte pelo Sul, o
artista declara a urgência de a América-Latina iniciar seu processo de
emancipação e desvincular-se dos modelos europeus que moldam o mundo e afetam a
América do Sul desde a divisão proposta pelo Tratado de Tordesilhas. O
mapa-múndi tradicional, que utiliza a projeção de Mercator, vigente desde o
século XVI, é eurocêntrico, uma vez que distorce o tamanho dos continentes,
para que o hemisfério norte pareça maior e mais centralizado. Esse modelo
pretende destacar a hegemonia europeia sobre as outras nações e, portanto, legitimar
qualquer modelo que coloca esses povos como superiores.
O artista pretende desfazer
a ideologia de que a linha do Equador não divide o mundo apenas em 2
hemisférios, mas também entre o bem e o mal, o superior e o inferior, o
desenvolvido e o subdesenvolvido. Torres García acreditava na implementação de
uma cultura globalizada‒ cujo objetivo é superar a dependência cultural euro e
etnocêntrica em vigor‒, por esse motivo, ele criou o desenho da América
Invertida, que possui um viés decolonial e propõe o protagonismo da América do
Sul no contexto geopolítico e da produção artística e cultural.
A partir dessa obra, alguns
artistas utilizaram da mesma crítica para realizar outras produções, como Jaime
Lauriano, que idealizou a “America Meridionalis: invenção, epistemicídio,
contrato social e genocídio”,2019 , que, ao utilizar mapas antigos, adotados
na época das grandes navegações, o artista denuncia os instrumentos de
dominação explorados pelos colonizadores com o objetivo de confrontar a
narrativa única que perdurou na história por séculos, de que a ocupação
europeia no território foi pacífica. Além disso, o autor, ao trabalhar com a
ideia de uma imposição ocidental do saber, a qual rebaixa e apaga as outras
formas de conhecimento, também critica a necropolítica‒ controle dos corpos,
que define quem merece viver ou não de acordo com a raça.
Dessa
forma, pode-se estabelecer uma relação entre a obra de Joaquín Torres García
com os ideais defendidos pelo Direito Achado na Rua, visto que ambos pretendem rejeitar
uma formalidade imposta e almejam disseminar uma releitura, um novo ponto de
vista a partir dos marginalizados. A primeira, ao inverter o mapa da América do
Sul, evidencia a possibilidade de se opor ao pensamento eurocêntrico aceito e
consolidado mundialmente e propõe a adoção do Sul como um referencial. Já o
segundo contrapõe-se ao ideal de que o direito legítimo nasce, apenas, das leis
escritas e sugere o reconhecimento dos movimentos populares e das lutas
sociais, ou seja, objetiva validar os anseios reais da população ao superar a
barreira burocrática.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
MBEMBE,
Achille. Necropolítica: biopoder, soberania, estado de exceção, política da
morta. São Paulo:n-1 edições, 2018.
TORRES
GARCÍA, Joaquín: 150 anos. Curadoria de Saulo di Tarso. Brasília: Centro
Cultural Banco do Brasil (CCBB), 2026. Exposição. Visitada em: 2 mai. 2026.
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