O Direito Achado na Rua: nossa conquista é do tamanho da nossa luta

quarta-feira, 6 de maio de 2026

 

América invertida: “Nosso Norte é o Sul”. Joaquín Torres García, Notas sobre uma Exposição

 

                 ISABELA MARQUES RESENDE DIAS, granduanda do Curso de Direito da UnB, disciplina Pesquisa Jurídica (1º/2026)

 

Joaquín Torres García (1874-1949) foi um artista uruguaio que começou sua carreira com desenhos e pinturas, principalmente de natureza-morta, que busca retratar objetos inanimados. Logo após a Primeira Guerra Mundial, em um momento de crise profissional, ele dedicou-se à criação de brinquedos desmontáveis de madeira, o que permitia a realização de diversos arranjos com as mesmas peças. Tais criações dialogavam com suas pinturas e se transformavam (eram adaptadas de acordo com as influências culturais) a cada cidade que o artista passava, como Barcelona, Paris e Nova York. Nesse mesmo período, a Europa presenciava a eclosão dos movimentos de vanguarda, que surgiram para romper com os padrões clássicos e tradicionais da arte e propor formas de expressão mais alinhadas à modernidade.

Diante desse momento, Torres García construiu uma relação de aproximação e distanciamento estratégicos em relação às vanguardas. Isso porque o artista visava interligar o passado, o presente e a eternidade, ou seja, almejava capturar ideais universais da Antiguidade ‒ sem recorrer ao naturalismo, pois acreditava que a verdadeira expressão artística transcende aquilo que é inteligível, por isso é necessário recorrer a uma visão espiritual para compreender a realidade em sua totalidade. Os movimentos vanguardistas que ele buscou relacionar-se foram o simbolismo, o cubismo, o muralismo e movimentos abstratos, com destaque para o neoplasticismo. Contudo, Torres García alega que, apesar de os modernos terem encontrado “as bases e fundamentos da verdadeira arte”, a eles carecia a humanidade, pois eles não são capazes de “construir uma catedral” para conectar o mundo material com o espiritual.

O artista percebeu o viés passageiro que a modernidade estava inclinada a seguir e decidiu criar a teoria artística do Universalismo Construtivo, que une o passado pré-colombiano (arte produzida pelos povos nativos das Américas, como Maias, Astecas e Incas), as vanguardas e os símbolos primitivos, com o objetivo de tornar a arte do presente intemporal‒ mesmo com o passar dos anos, ela mantém sua importância e conectividade com o momento vigente, transcendendo o tempo ‒, o que torna o atual, eterno.

A partir do pensamento de querer romper com o momento vigente, Torres García desenvolveu sua obra mais famosa, o mapa da América invertida, produzida em 1943, que traz consigo a mensagem: “Nosso Norte é o Sul”. Ao inverter o mapa, trocar o Norte pelo Sul, o artista declara a urgência de a América-Latina iniciar seu processo de emancipação e desvincular-se dos modelos europeus que moldam o mundo e afetam a América do Sul desde a divisão proposta pelo Tratado de Tordesilhas. O mapa-múndi tradicional, que utiliza a projeção de Mercator, vigente desde o século XVI, é eurocêntrico, uma vez que distorce o tamanho dos continentes, para que o hemisfério norte pareça maior e mais centralizado. Esse modelo pretende destacar a hegemonia europeia sobre as outras nações e, portanto, legitimar qualquer modelo que coloca esses povos como superiores.

O artista pretende desfazer a ideologia de que a linha do Equador não divide o mundo apenas em 2 hemisférios, mas também entre o bem e o mal, o superior e o inferior, o desenvolvido e o subdesenvolvido. Torres García acreditava na implementação de uma cultura globalizada‒ cujo objetivo é superar a dependência cultural euro e etnocêntrica em vigor‒, por esse motivo, ele criou o desenho da América Invertida, que possui um viés decolonial e propõe o protagonismo da América do Sul no contexto geopolítico e da produção artística e cultural.

A partir dessa obra, alguns artistas utilizaram da mesma crítica para realizar outras produções, como Jaime Lauriano, que idealizou a “America Meridionalis: invenção, epistemicídio, contrato social e genocídio”,2019 , que, ao utilizar mapas antigos, adotados na época das grandes navegações, o artista denuncia os instrumentos de dominação explorados pelos colonizadores com o objetivo de confrontar a narrativa única que perdurou na história por séculos, de que a ocupação europeia no território foi pacífica. Além disso, o autor, ao trabalhar com a ideia de uma imposição ocidental do saber, a qual rebaixa e apaga as outras formas de conhecimento, também critica a necropolítica‒ controle dos corpos, que define quem merece viver ou não de acordo com a raça.

Dessa forma, pode-se estabelecer uma relação entre a obra de Joaquín Torres García com os ideais defendidos pelo Direito Achado na Rua, visto que ambos pretendem rejeitar uma formalidade imposta e almejam disseminar uma releitura, um novo ponto de vista a partir dos marginalizados. A primeira, ao inverter o mapa da América do Sul, evidencia a possibilidade de se opor ao pensamento eurocêntrico aceito e consolidado mundialmente e propõe a adoção do Sul como um referencial. Já o segundo contrapõe-se ao ideal de que o direito legítimo nasce, apenas, das leis escritas e sugere o reconhecimento dos movimentos populares e das lutas sociais, ou seja, objetiva validar os anseios reais da população ao superar a barreira burocrática.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

MBEMBE, Achille. Necropolítica: biopoder, soberania, estado de exceção, política da morta. São Paulo:n-1 edições, 2018.

TORRES GARCÍA, Joaquín: 150 anos. Curadoria de Saulo di Tarso. Brasília: Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB), 2026. Exposição. Visitada em: 2 mai. 2026.

 

Nenhum comentário:

Postar um comentário